quinta-feira, 29 de maio de 2014

Ódio chapa-branca


A última coluna que escrevi falava sobre a falta de opções do eleitor carioca: todos os principais candidatos ao governo do Estado estão sendo julgados por crimes de corrupção. Muita gente me escreveu dizendo que o "Brasil não tem jeito" e que também está louco para sair daqui. Queria escrever pra essas pessoas e dizer que eu não pretendo sair daqui tão cedo.

A democracia, entre muitos presentes, nos deu este: a gente pode falar mal do Brasil à vontade. Já faz quase 30 anos que a gente pode. Mas parece que a gente só faz isso da vida.

A melhor maneira de não incomodar ninguém é falar mal de todo o mundo. Se eu disser que todos os políticos são corruptos, todo o mundo adora -inclusive, e principalmente, os corruptos, que estão sendo colocados no mesmo saco dos honestos. O discurso do "ninguém presta" parece o discurso mais corajoso do mundo, mas é o mais chapa-branca.

Ninguém se cansa de repetir: "o Brasil não tem jeito", "a corrupção no Brasil é endêmica", "brasileiro não aprende", "o problema do Brasil é o brasileiro". Tudo isso é dito, claro, por brasileiros. Repare que não dizemos: nosso problema somos nós mesmos. Não. O problema do Brasil são os outros, diria Sartre, se fizesse vlogs.

Nunca vi alguém dizer: o problema do Brasil sou eu, que como carne, ando de carro, não reciclo o meu lixo, recebo dinheiro como pessoa jurídica e não lembro em quem votei pra vereador. A culpa é minha, pessoal. Em minha defesa, estou tentando mudar.

Outro dia um autoproclamado filósofo brasileiro que mora nos EUA vociferou: "O povo brasileiro é o povo mais covarde, imbecil e subserviente do universo". E muita gente (brasileira) aplaudiu, provando que talvez ele estivesse certo -mas única e exclusivamente em relação aos seus leitores. Não sei qual é a solução para os nossos problemas, mas se mudar pra Veneza ou pra Virginia certamente não é.

Quantas vezes você já não ouviu a frase: "É por isso que o Brasil não vai pra frente"? Independentemente da razão do nosso atraso, essa frase é uma mentira. Mesmo o crítico mais contumaz do governo (governo este do qual não sou eleitor nem fã) há de concordar que o Brasil vai pra frente, sim. Devagar, aos trancos e barrancos, algumas vezes à revelia do governo -mas vai pra frente. Em contrapartida, nossos intelectuais estão ficando pra trás.


domingo, 18 de maio de 2014


"Fico triste ao ver artistas brasileiros, meus colegas, tão mal informados.

Imagino que, com suas agendas cheias, não tenham muito tempo para procurar diferentes fontes para a mesma informação, tempo para ouvir e ler outras versões dos acontecimentos, isso antes de falar sobre eles em entrevistas, amplificando equívocos com leituras rasas e impressionistas das manchetes de telejornais e revistas ou, pior, reproduzindo comentários de colunistas que escrevem suas manchetes em caixa alta, seguidas de ponto de exclamação.

Fico triste ao ler artistas dizendo que não dá mais para viver no Brasil, como se as coisas estivessem piorando, e muito, para a maioria. Dizer que não dá mais para viver no Brasil logo agora, agora que milhões de pessoas conquistaram alguns direitos mínimos, emprego, casa própria, luz elétrica, acesso às universidades e até, muitas vezes, a um prato de comida, não fica bem na boca de um artista, menos ainda de um artista popular, artista que este mesmo povo ama e admira. 

Em que as coisas estão piorando? E piorando para quem? Quem disse? Qual a fonte da sua informação?

Fico triste ao ouvir artistas que parecem sentir orgulho em dizer que odeiam política, que julgam as mudanças que aconteceram no Brasil nos últimos 12 anos insignificantes, ou ainda, ruins, acham que o país mudou sim, mas foi para pior. 

Artistas dizendo que pioramos tanto que não há mais jeito da coisa "voltar ao 'normal '", como se normal talvez fosse ter os pobres desempregados ou abrindo portas pelo salário mínimo de 60 dólares, pobres longe dos aeroportos, das lojas de automóvel e das universidades, se "normal" fosse a casa grande e a senzala, ou a ditadura militar. Quando o Brasil foi normal? Quando o Brasil foi melhor? E melhor para quem?

A mim, não enrolam. Desde que eu nasci (1959) o Brasil não foi melhor do que é que hoje. Há quem fale muito bem dos anos 50, antes da inflação explodir com a construção de Brasília, antes que o golpe civil-militar, adiado em 1954 pelo revólver de Getúlio, se desse em 1964 e nos mergulhasse na mais longa ditadura militar das américas. Pode ser, mas nos anos 50 a população era muito menor, muito mais rural e a pobreza era extrema em muitos lugares. Vivia-se bem na zona sul carioca e nos jardins paulistas, gaúchos e mineiros. No sertão, nas favelas, nos cortiços, vivia-se muito mal.

A desigualdade social brasileira continua um escândalo, a violência é um terror diário, 50 mil mortos a tiros por ano, somos campeões mundiais de assassinatos, sendo a maioria de meninos negros das periferias, nossos hospitais e escolas públicos são para lá de carentes, o Brasil nos dá motivos diários de vergonha e tristeza, quem não sabe? Mas, estamos piorando? Tem certeza? Quem lhe disse? Qual sua fonte? E piorando para quem?"

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O porquê:
por: Saul Leblon
Carta Maior
Editorial



A impressão de que o governo fala sozinho, cercado por um jogral ensurdecedor, ora raivoso, ora repetitivo, mas de qualquer forma onipresente, não é fortuita.
É isso mesmo, se a percepção se basear apenas na emissão veiculada pelos jornais, tevês e emissoras de rádio que ecoam o monólogo do ‘Brasil aos cacos’.

Mas já foi diferente? Em 1989, talvez, quando o Jornal Nacional editou o famoso debate final da campanha, às vésperas do voto? Ou em 2002, quando George Soros assegurava, com exclusividade para a Folha, que era Serra ou o caos?

Talvez em 2006, sob o cerco do ‘mensalão’? Ou então em 2010, quando a Folha se lambuzou na ficha falsa da Dilma e Serra convocou Malafaia como procônsul para assuntos relativos a moral e aos bons costumes?

Então o que mudou para que o ar pareça tão mais carregado, a ponto de ser necessário, às vezes, cortar com faca o noticiário para enxergar além da derrocada iminente que se anuncia?

Algumas coisas.

Vivemos uma transição de ciclo econômico.

Em parte pela reversão do quadro internacional, em parte pelo esgotamento de suas dinâmicas internas, o desenvolvimento brasileiro terá que se repensar para retomar uma trajetória de longo curso.

Trata-se de recompor as condições de financiamento da economia. E depurar prioridades em direção à maior eficiência logística e melhor qualidade de vida.

Não é café pequeno.

A expectativa provoca arrepios nas carteiras graúdas.

Não será mais possível, por exemplo, prosseguir apenas com o impulso das exportações de commodities, cujos preços triplicaram no mundo desde 2003 --os do petróleo quadruplicaram, mas os agrícolas cresceram mais de 50%.

Tampouco a liquidez internacional promete ser tão generosa a ponto de dissipar as contradições internas em um jorro de crédito apaziguador que tudo sanciona.

Os donos do dinheiro precificam as ameaças incrustradas nesse duplo esgotamento, que escancara a natureza paralisante da hegemonia rentista sobre o país.

Dispostos a não ceder, operam a plenos decibéis para sufocar a evidência de que seu privilégio entrou na alça de mira de uma encruzilhada histórica.

Aconteceu antes, em 32 e 53 – quase como uma revolução burguesa à revelia das elites; foi resolvido com o patrocínio do capital estrangeiro em 55; reprimido em 64; ordenado ditatorialmente nos anos 70 e terceirizado aos livres mercados nos anos 90.

A seta do tempo ensaia um novo estirão.

O desafio, antes de mais nada, é de natureza política.

A coerência macroeconômica da travessia será dada por quem reunir força e consentimento para assumir a hegemonia do processo.

Não por acaso, na abertura do 14º Encontro dos Blogueiros e Ativistas Digitais, nesta 6ª feira, Lula resumiu tudo isso em uma frase:

‘Sem reforma política não faremos nada neste país’. 

E ela terá que ser construída pela rua. ‘Por uma Constituinte exclusiva’, adicionou o ex-presidente da República: ‘Porque o Congresso que está aí pode mudar uma vírgula aqui, outra ali. Mas não a fará’.

Não é um capricho ideológico.

Trata-se de dar consequência institucional às demandas e protagonistas que iniciaram a longa viagem à procura de um outro país, a partir das greves metalúrgicas do ABC paulista, nos anos 70/80.

E que agregaram mais 60 milhões de brasileiros pobres a esse percurso desde 2003.

Um passaporte da travessia consiste em regenerar a base industrial brasileira.

E tampouco aqui é contabilidade.

Para a economia gerar empregos e salários de qualidade, ademais de receita fiscal compatível com as urgências sociais e logísticas, é vital recuperar o principal polo irradiador de produtividade em um sistema econômico.

O pressuposto para um aggiornamento industrial é juro baixo, câmbio desvalorizado e controle de capitais.

Grosso modo, esse é o tripé que afronta o outro, da alta finança, baseado em arrocho fiscal, câmbio livre e juro alto.

Todo o círculo de interesses que orbita em torno do cassino está mergulhado até o pescoço na guerra preventiva contra o risco de uma reciclagem subjacente à eleição de outubro.

Essa é uma singularidade que distingue e radicaliza a presente disputa sucessória --feita em condições internacionais adversas-- a ponto de tornar o ar quase irrespirável.

Por trás dos ganidos emitidos pelo colunismo isento (ideológicos são os blogueiros) há um cachorro grande a soprar seu bafo sobre o cangote da sociedade.

O capital rentista.

Ele lucrou, limpo, acima da inflação, 18,5% em média, ao ano, no segundo governo FHC.

Faturou 11,5%, em média, no segundo governo Lula.

E, já impaciente, entre 3,5% e 5% agora, sob a gestão Dilma.

Estamos falando de massas de forças nada modestas.

Diferentes modalidades de fundos financeiros somaram um giro acumulado de R$ 2,4 trilhões no Brasil em 2012.

O valor equivale a mais da metade do PIB em direitos sobre a riqueza real --sem triscar o pé no chão da fábrica.

Não é um país à parte. Mas se avoca mordomias equivalentes às desfrutadas pelas tropas de ocupação.

Entre elas, rendimentos sempre superiores à variação do PIB, portanto, em detrimento de fatias alheias. E taxas de retorno inexcedíveis -- dividendos permanentes de dois dígitos, por exemplo-- a impor um padrão de retorno incompatível com a urgência do novo ciclo de investimento que o Brasil reclama.

Não se mantém uma tensão desse calibre sem legiões armadas.

Pelotões de estrategistas, exércitos de consultores, artilharias acadêmicas, bancadas legislativas, cavalarias midiáticas e aliados internacionais operam a seu serviço. 

O conjunto entrou em prontidão máxima.

Um pedaço da hegemonia que vai ditar o novo arranjo macroeconômico será decidido nas eleições de outubro.

O embate escorre do noticiário especializado (isento como uma nota de três reais) para os espaços onde os cifrões são traduzidos em duelos entre o bem e o mal, entre corruptos e salvadores da pátria, intervencionistas e liberais, desgoverno e eficiência.

Daí são mastigados para o varejo do martelete conservador.

Nesse ambiente de beligerância em que o governo parece falar sozinho, a explosão de demandas que buscam carona na visibilidade da Copa do Mundo, apenas reafirma uma transição de ciclo, incapaz de ser equacionado por impulsos corporativos ou bandeiras avulsas, ainda que justas (leia mais sobre esse tema no blog do Emir).

‘Não vai ter Copa’ figura como o arremedo de uma unidade tão frágil quanto a aritmética subjacente à ideia de que os males do país se resolvem com os R$ 8 bilhões financiados às arenas do torneio --que serão pagos, ressalte-se.

No evento da sexta-feira, em São Paulo, Lula lembrou aos blogueiros que desde que começaram as obras da Copa, em 2010, o governo investiu R$ 825 bi em saúde e educação.

E, todavia, a escola pública e o SUS persistem com as lacunas sabidas.

O buraco é mais amplo.

O Brasil se confronta com o desafio de realizar grandes reformas que lhe permitam erguer as linhas de passagem entre o inadiável e o viável num novo ciclo de crescimento.

Menos que isso é dar à edição conservadora suprimentos para martelar a ideia de uma sociedade em decomposição.

Durante muito tempo a percolação desse veneno teve na comunicação do governo um filtro complacente.

Agora se sabe que essa inércia escavou também um corredor contagioso no ambiente cultural, a ponto de tornar adicionalmente opressivo o ar desta sucessão presidencial.

Um pequeno exemplo ilustra os demais.

Em entrevista recente à televisão portuguesa, o cantor Ney Matogrosso esboçou um cenário de terra arrasada para descrever o Brasil.https://www.youtube.com/watch?v=DqJ0kF1_oL0. De sobremesa, soltou agudos de visceral rejeição à política, aos políticos e ao PT.

O problema não é um cantor deblaterar contra o governo.

O problema é a ausência de contraponto ao redor, num momento em que interesses graúdos se empenham em vender a tese de que a melhor saída para o Brasil é andar para trás.

Em diferentes capítulos da história do país, o prestígio de seus intelectuais e artistas foi decisivo no repto ao cerco asfixiante com o qual o conservadorismo tentava, como agora, legitimar, ou impor, a receita de arrocho subjacente as suas propostas para os impasses nacionais.

Antes tarde do que nunca, o PT e suas maiores lideranças correm contra o tempo para corrigir o gigantesco erro político que foi subestimar o papel de uma mídia plural na luta pela ampliação da democracia brasileira .

Passa da hora de acordar também para a necessidade de reativar o diálogo com círculos intelectuais e artísticos, cujo protagonismo foi igualmente subestimado por uma concepção mecânica e economicista de desenvolvimento.

O sequestro da opinião pública pelo denuncismo conservador --que radicalizou um clima de indiferença e prostração semeado pelo próprio recuo do PT no ambiente intelectual -- evidencia o tamanho do equívoco cometido.

Leia, abaixo, a manifestação do cineasta Jorge Furtado (diretor do recém lançado ‘Mercado de Notícias’ e Urso de Prata em Berlim, em 1990, com ‘Ilha das Flores’) sobre esses acontecimentos, que marcam e vão marcar o ar pesado da disputa eleitoral de 2014.

'A mim não enrolam' , diz o diretor gaúcho que questiona em seu blog a tese de que o Brasil nunca esteve tão mal: pior em relação a quando e, sobretudo, para quem, argui. http://casacinepoa.com.br/)

O desafio do campo progressista é expandir essa argúcia solitária. 

A íntegra do texto de Jorge Furtado:

"Fico triste ao ver artistas brasileiros, meus colegas, tão mal informados.

Imagino que, com suas agendas cheias, não tenham muito tempo para procurar diferentes fontes para a mesma informação, tempo para ouvir e ler outras versões dos acontecimentos, isso antes de falar sobre eles em entrevistas, amplificando equívocos com leituras rasas e impressionistas das manchetes de telejornais e revistas ou, pior, reproduzindo comentários de colunistas que escrevem suas manchetes em caixa alta, seguidas de ponto de exclamação.

Fico triste ao ler artistas dizendo que não dá mais para viver no Brasil, como se as coisas estivessem piorando, e muito, para a maioria. Dizer que não dá mais para viver no Brasil logo agora, agora que milhões de pessoas conquistaram alguns direitos mínimos, emprego, casa própria, luz elétrica, acesso às universidades e até, muitas vezes, a um prato de comida, não fica bem na boca de um artista, menos ainda de um artista popular, artista que este mesmo povo ama e admira. 

Em que as coisas estão piorando? E piorando para quem? Quem disse? Qual a fonte da sua informação?

Fico triste ao ouvir artistas que parecem sentir orgulho em dizer que odeiam política, que julgam as mudanças que aconteceram no Brasil nos últimos 12 anos insignificantes, ou ainda, ruins, acham que o país mudou sim, mas foi para pior. 

Artistas dizendo que pioramos tanto que não há mais jeito da coisa "voltar ao 'normal '", como se normal talvez fosse ter os pobres desempregados ou abrindo portas pelo salário mínimo de 60 dólares, pobres longe dos aeroportos, das lojas de automóvel e das universidades, se "normal" fosse a casa grande e a senzala, ou a ditadura militar. Quando o Brasil foi normal? Quando o Brasil foi melhor? E melhor para quem?

A mim, não enrolam. Desde que eu nasci (1959) o Brasil não foi melhor do que é que hoje. Há quem fale muito bem dos anos 50, antes da inflação explodir com a construção de Brasília, antes que o golpe civil-militar, adiado em 1954 pelo revólver de Getúlio, se desse em 1964 e nos mergulhasse na mais longa ditadura militar das américas. Pode ser, mas nos anos 50 a população era muito menor, muito mais rural e a pobreza era extrema em muitos lugares. Vivia-se bem na zona sul carioca e nos jardins paulistas, gaúchos e mineiros. No sertão, nas favelas, nos cortiços, vivia-se muito mal.

A desigualdade social brasileira continua um escândalo, a violência é um terror diário, 50 mil mortos a tiros por ano, somos campeões mundiais de assassinatos, sendo a maioria de meninos negros das periferias, nossos hospitais e escolas públicos são para lá de carentes, o Brasil nos dá motivos diários de vergonha e tristeza, quem não sabe? Mas, estamos piorando? Tem certeza? Quem lhe disse? Qual sua fonte? E piorando para quem?"

sábado, 17 de maio de 2014

Até na Justiça, candomblé é alvo de intolerância

Por Jean Wyllys
Revista Carta Capital

A intolerância religiosa e os preconceitos em relações ao candomblé e à umbanda sempre infiltraram os poderes da República e as instituições do Estado que se pretende laico. E talvez pelo fato de essa infiltração ter sido sempre negligenciada, apesar dos seus efeitos nocivos, ela tenha feito desabar um cômodo do Judiciário: a Justiça Federal do Rio de Janeiro definiu que umbanda e candomblé "não são religiões". Tal definição - que mais se parece com uma confissão pública de ignorância - se deu em resposta a uma decisão em primeira instância do Ministério Público Federal que solicitou a retirada, do Youtube, de vídeos de cultos evangélicos neopentecostais que promovem a discriminação e intolerância contra as religiões de matriz africana e seus adeptos, já que o Código Penal, em seu artigo 208, estabelece como conduta criminosa, “escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”.

Em vez de reconhecer a existência da ofensa - e não há dúvida para qualquer pessoa com um mínimo de discernimento e senso de justiça de que a ofensa existe - a Justiça Federal do Rio de Janeiro desqualificou os ofendidos; considerou que não "há crime se não há religião ofendida". Para tanto, a Justiça Federal do Rio conceituou umbanda e candomblé como cultos a partir de dois motivos absolutamente esdrúxulos (ou seria melhor dizer a partir de dois preconceitos?): 1) candomblé e umbanda deveriam ter um texto sagrado como fundamento (aqui a Justiça Federal ignora completamente que religiões de matriz africana são fundadas nos princípios da transmissão oral do conhecimento, do tempo circular, e do culto aos ancestrais); e 2) candomblé e umbanda deveriam venerar a uma só divindade suprema e ter uma estrutura hierárquica (aqui a Justiça Federal do Rio atualiza a percepção dos colonizadores do século XVI de que os indígenas e povos africanos não tinham fé, não tinham lei nem tinham rei). Pergunto: Há, na decisão da Justiça Federal, pobreza de repertório cultural, equívoco na interpretação da lei ou cinismo descarado?

Adeptas do candomblé participam da cerimônia em Salvador
A decisão judicial fere claramente dispositivos constitucionais e legais, além de violar tratados internacionais como a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, conhecida como Pacto de San Jose da Costa Rica, ratificada pelo Brasil em 1992 e que dispõe sobre a garantia de não discriminação por motivo de raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões, políticas ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou social, posição econômica, nascimento ou qualquer outra condição social. Esse pacto diz ainda que o direito à liberdade de consciência e de religião implica na garantia de que todos são livres para conservar sua religião ou suas crenças, ou de mudar de religião ou de crenças, bem como na liberdade de professar e divulgar sua religião ou suas crenças, individual ou coletivamente, tanto em público como em privado. A Convenção Americana sobre Direitos Humanos afirma que ninguém pode ser objeto de medidas restritivas que possam limitar sua liberdade de conservar sua religião ou suas crenças, ou de mudar de religião ou de crenças. A liberdade de manifestar a própria religião e as próprias crenças está sujeita unicamente às limitações existentes em leis e que se mostrem necessárias à proteção da segurança, da ordem, da saúde ou da liberdade.

Ou seja, se há uma liberdade religiosa a ser limitada é a daquelas religiões que usam dos meios de massa para difamar e promover a intolerância contra outras religiões e divulgam práticas que põem em risco a saúde coletiva, como pedir que pessoas abandonem tratamento de câncer ou aids em nome de orações!

Ao ratificar esse Pacto, o Brasil assumiu desde 1992 o papel de um país que tem a obrigação de respeitar direitos. Infelizmente, o Poder Judiciário, que tem a função de "dizer o direito", de aplicar as leis, assim não o fez, simplesmente negando a interpretação dos ditames constitucionais e disposições supranacionais de direitos humanos.

Já foi noticiado que o Ministério Público Federal recorreu dessa decisão, mas precisamos ficar atentos a essas manobras que perseguem, acuam e tentam destruir o que não está de acordo com o que o fundamentalismo religioso determina como correto. E não resta dúvida de que essa decisão judicial é fruto do fundamentalismo religioso que avança sobre os poderes da República. Não podemos nos esquecer de que todos estamos sob a garantia de que podemos promover reuniões livremente para realizar cultos de qualquer denominação - um direito individual e coletivo previsto na Constituição Federal, artigo 5º, inciso VI.

O ataque à umbanda e ao candomblé é também um ataque de viés racista por se tratar de religiões praticadas sobretudo por pobres e negros. Mas é, antes, uma disputa de mercado. O que os fundamentalistas pretendem com os ataques à Umbanda e ao Candomblé é atrair os adeptos - e, logo, o dinheiro deles - para suas igrejas. E como vivemos sob uma cultura cristã hegemônica, que se fez na derrisão e repressão das religiões indígenas e africanas, é óbvio que as igrejas fundamentalistas levam a melhor nessa disputa de mercado e em suas estratégias de difamação.

O que esperamos do Judiciário é o mínimo de justiça que possa colocar freios à intolerância e à ganância dessas igrejas e seus pastores; e possa assegurar a pluralidade religiosa pautada no respeito e sem hierarquias entre as religiões.


sexta-feira, 9 de maio de 2014

O racismo engolido e a privada matadora


Eu li com certo cuidado o comentário não assinado e publicado em vários periódicos e revistas da imprensa brasileira, que informa aos leitores que Pelé suavizou o caso de racismo contra Daniel Alves no jogo contra o Villareal. O Globo, em sua versão impressa, publicou a notícia (3/5, pág. 36) no caderno de esportes. A notícia ficou escondida, quase ao pé da página. Na web, foi publicado na véspera. Sem assinatura ou referência mais específica, ela diz: “‘Racismo não é no futebol, tem em todos os setores da sociedade. Não dá para pegar uma coisa tão banal de uma carinha que jogou uma banana, e fazer do limão uma limonada’, afirmou Pelé, para quem ‘não há tantos casos de preconceito no futebol’”.

A revista Veja publicou a mesma notícia um dia antes (2/5), e afirmou que a declaração foi feita durante uma “visita a Ribeirão Preto”. E adicionou uma matéria com um título ingênuo e absurdo: “Como Daniel Alves derrotou o racismo”. O subtítulo explica que o lateral brasileiro tratou a ofensa com “fina ironia” e desbaratou o “primitivismo nos estádios de futebol de todo o mundo”. O jogador comeu a banana e venceu o racismo no planeta apenas engolindo um pedaço dela. Simples assim. Comeu a banana e destruiu o racismo na terra. Isso eu chamo de “jornalismo Peter Pan”: ele é infantil e recusa-se a crescer e ver o mundo como ele é.

É muito difícil e duro acreditar que em um momento tão grave para o futebol (que passou a ser o maior palco para demonstrações de racismo no mundo), ainda persistam as tentativas de minimização de insultos e preconceitos étnicos. No caso do Daniel Alves, tudo aconteceu errado desde o início, quando a fruta foi atirada em sua direção. Daniel comeu a banana da humilhação. Ele pode. Ele ganha milhões. Ele pode desqualificar quem o humilha na Espanha, mas na realidade o lateral troca a qualidade de sua vida por dinheiro. Daniel declarou que vive o racismo há 11 anos e que sempre foi assim na Espanha. O que dizer diante disso?

Alienação delirante

A Veja tentou explicar a bizarra solidariedade de Neymar ao seu colega de profissão, time e seleção. Foi o único mérito da matéria. Essa campanha foi resultado da preocupação com o comportamento do atacante da seleção brasileira. Que há poucos anos atrás não apresentava sinais de identificação com sua origem étnica. A reportagem da revista explicou que dois homens, o pai do jogador e um de seus assessores, Eduardo Musa, procuraram a agência de publicidade Loducca, de São Paulo. Desta vez, Neymar iria responder a ofensa com vigor: através de um infeliz hashtag criado pelo sócio e vice-presidente de criação da agência. Foi ele quem teve a ideia de assimilar o insulto com humor, resignação e oportunismo. Tudo na base do pro bono, disse o empresário à revista.

Os dois foram atendidos pela agência, que criou o hashtag #somostodosmacacos, a mais infeliz entre todas as campanhas gratuitas no Twitter. Em pouco tempo, a indigna, incorreta e perigosa mensagem ganhou mundo. O presidente da Itália comeu uma banana. E foi imitado por artistas, celebridades e formadores alienados de opinião. Seu impacto nas redes sociais foi grande e paradoxal: o jogador aparece com uma banana na mão ao lado de seu filho louro. O que se pode concluir daí? Que o racismo com Neymar “não cola” porque ele tem um filho de cabelos claros?

A coisa terminou mal: Neymar tentou amenizou o insulto transferindo-o para todo o povo brasileiro como piada no Twitter, publicada em quatro línguas: inglês, espanhol, português e catalão. Muita gente boa caiu no conto e aceitou a injúria. Essa campanha do Neymar no Twitter foi um insulto a todos que querem ver o mundo e o futebol livres do racismo. A quem não aceita rir ou conviver com ele. Racismo não pode ser combatido com gracejos ambíguos, ou derrotado por “fina ironia”. Ativistas afrodescendentes e outros inimigos do racismo denunciaram o cinismo de Neymar e a alienação delirante de Pelé. Que acredita que a imprensa exagera quando expõe o óbvio crescimento do racismo no futebol.

Espetáculo degradante

A campanha foi exposta. O pequeno jornal socialista A Verdade (3/5) acusou a Daniel e Neymar de banalizarem o racismo: “Desde pequenos, somos ensinados a tratar insultos racistas como piada, a ‘levar na esportiva’, a considerar tudo uma grande ‘brincadeira’ e, portanto, ‘normal’. Prova disso foi o que fez Pelé, grande parceiro da Fifa e das mega corporações esportivas internacionais, ao afirmar que ‘Daniel Alves foi vítima de ato banal’. Não, Pelé, racismo não é algo banal; é uma coisa muito séria. Causa sofrimento e mortes em todo o mundo. Esse tipo de postura e reação despolitizadas e alienantes de atletas, artistas, formadores de opinião e governantes tem um objetivo certo: banalizar o real significado do racismo em nossa sociedade, o que dá mais força pra que ele continue existindo.”

A reação dos militantes afrodescendentes não teve muita atenção na mídia. Não encontrou espaço equivalente a sua importância na imprensa. A maior parte dela aceitou bem a ofensa. Gostou da brincadeira de forma despicienda. A crítica ficou restrita a instituições civis ou blogs de ativistas dos movimentos negros e de direitos humanos. Que assinalaram o estrago que Pelé e Neymar trouxeram aos anos e anos de lutas no combate ao racismo, e trouxeram as vozes daqueles que lutam pela união de todas as etnias sem discriminação ou preconceito, e de todos que anseiam por um mundo melhor onde seja possível a convivência na diversidade.

O Instituto da Mulher Negra (28/4) publicou o contundente artigo de Higor Faria. Que não aliviou nada para o Neymar:

“Neymar ‘tá’ empurrando para o lixo anos e anos de luta antirracista. E nem acho que ele esteja ligando muito para a m***a que fez. O racismo nos campos de futebol sempre existiu e agora têm ganhado bastante espaço na mídia. Os veículos até então não tinham encontrado um rosto que estampasse a luta contra esse tipo de discriminação sem afetar seus interesses. Neymar percebeu a oportunidade, agarrou como a banana na foto e provavelmente será esse (sic) rosto: mais visibilidade para o afroconveniente de ouro.”

Faria matou a charada: a campanha de Neymar foi bastante conveniente para a Fifa, que precisava de um rosto amistoso e atitude submissa naquele momento delicado. Alguém capaz de rebater o racismo de forma branda para não assustar ainda mais os anunciantes e o público que o Brasil espera trazer para a Copa.

Racismo não se combate com gentilezas, ironias sutis e piadas. Nem mesmo a ciência é suficiente para provar a certas pessoas que somos uma só espécie e que “raça” não é uma categoria científica. Que o ser humano não tem subespécies e nossas diferenças aparentes são produto do maior ou menor grau de isolamento geográfico que os diferentes grupos étnicos experimentaram ao longo da história. Insultos racistas não podem ser minimizados e tratados como brincadeira, ou como algo que podemos viver e esquecer como se fosse apenas uma brincadeira trivial. O futebol mundial não pode ser transformado em uma praça de exibição de comportamentos, ofensivos à dignidade humana. O esporte que já foi chamado de “jogo bonito” não pode transformar-se em um espetáculo que degrada e diminui a condição humana.

Um morto e três feridos

Infelizmente, as coisas não estão melhorando no futebol brasileiro. Eu já estava a fechar a matéria, quando levantei da cadeira e fui buscar o jornal de domingo (O Globo, 4/5). Foi quando notei a curiosa nota, mais uma vez impressa em local de difícil acesso visual: na capa, mas lá em baixo. Muito em baixo. Pouca gente deve ter lido o curioso título: “Vaso sanitário mata torcedor”. O subtítulo informava que “um torcedor morreu ao ser atingido por um vaso sanitário atirado de Estádio do Arruda, em Recife”. Procurei pela matéria (pg.39), e li que dois vasos sanitários foram atirados de uma altura de 24 metros sobre torcedores, depois da partida entre Santa Cruz e Paraná. O jovem Paulo Ricardo Gomes da Silva, de 26 anos, foi “atingido no meio da rua”, informou o jornal. Ele estava tentando fotografar o confronto da torcidas rivais do Sport e do Santa Cruz no “Arrudão”(o estádio do Santa Cruz), quando os dois vasos sanitários foram atirados do alto do estádio. Um deles atingiu Paulo Ricardo. Que morreu na hora.

A notícia correu o mundo: a BBC publicou, o Huffington Post também. Além do tabloide inglês The Daily Mail, a CNN, o Sydney Morning Herald, da Austrália, e outros periódicos esportivos importantes. A BBC (3/5) informou que “no início deste ano torcedores do Santa Cruz arremessaram vasos sanitários contra seus rivais locais do Sport”. O que há com esses torcedores alucinados? Estão tentando inventar mais um “esporte radical”, o arremesso de privadas?

O site da BBC cometeu um erro muito comum em jornalismo: segundo o autor da matéria, “outras três pessoas foram supostamente feridas”. Como assim “supostamente”? Este advérbio não cabe aí. É uma suposição. Seu uso denota incerteza, ambiguidade ou descompromisso com o assunto abordado. Não é assim que se informa. O site do Globo Esporte (2/5) de Pernambuco acabou com a insegurança da emissora inglesa: “Além da vítima fatal (sic), outras três ficaram feridas. Uma em estado grave. Vanderson Wilderlan Gomes, nascido em 1992, sofreu cortes na cabeça e nas pernas e foi encaminhado para o Hospital da Restauração, zona central do Recife. O quadro dele inspira cuidados, mas não corre risco de morte. José e Adrien Ferreira de Lima, nascido em 1993, e Tarkini Kauã Gonçalves de Araújo, nascido em 1994, machucaram as pernas e seguiram para o Hospital Getúlio Vargas.”

Hora de acabar com a Fifa

O Huffington Post (5/3) informou que nenhum jogo da Copa do Mundo acontecerá naquele estádio. Os cinco jogos programados para Recife serão disputados na Arena Pernambuco, que foi construída para hospedar os jogos do certame. O site noticioso também comentou a violência no futebol brasileiro: “Violência envolvendo grupos de torcedores é comum no Brasil, e o número de incidentes aumentou ano passado. A Fifa e as autoridades brasileiras têm minimizado as preocupações sobre violência dentro dos estádios durante a Copa do Mundo, dizendo que a segurança será reforçada e que esses incidentes estavam relacionados principalmente a jogos entre clubes.”

Eu não poderia deixar de fora a cobertura detalhada e meio sanguinária de um tabloide inglês. Que apresentou uma foto do jovem morto, cercado de pedaços da porcelana do vaso despedaçado que lhe tirou a vida. De acordo como Daily Mail Online (4/5), a imprensa local informou que o rapaz esteve envolvido em disputas com a torcida rival, Cita como fontes emissoras locais.

Eu encontrei uma reportagem do Jornal do Comércio de Pernambuco (3/5), publicada com o apoio da Rádio Jornal, onde está registrada a presença de Paulo Ricardo entre a torcida do Paraná. Ele fez uma foto onde exibiu uma bandeira de uma torcida organizada do Sport, a “Fúria”, durante o jogo, e na torcida do adversário. Coisa grave. O periódico informou que “o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa está investigando o caso”.

A morte do jovem torcedor pernambucano não foi associada de forma direta a violência durante a Copa. As dúvidas que a mídia estrangeira tem expressado são a mesmas de sempre. O mundo todo conhece a violência do nosso país e de nossos torcedores. Mas todos também conhecem a segregação por renda, e o preço salgado dos ingressos, somado ao espetacular aparato de segurança ao redor dos estádios durante os jogos devem garantir a realização dos jogos da Copa do Mundo. Que antes mesmo de começar já é a mais estranha e estigmatizada da história do futebol.

Será que não é hora de acabar com a Fifa e seus torneios enormes, extravagantes e fora do lugar em nossos tempos? Não chegou a vez de criarmos outra organização que substitua a Fifa viciada e corrupta, e que organize torneios menores, menos danosos e comprometidos com interesses do comércio mundial e sua sede de lucros? Eu não tenho as respostas, mas uma coisa eu garanto: nunca pensei que estaria tão desapontado e desanimado quando o Brasil hospedasse outra Copa do Mundo.


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Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor


quarta-feira, 30 de abril de 2014

Perspectiva

            Claro que, quando se criou a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), eu continuei achando que não daria certo. Como daria certo se a instituição que a administraria tem o governo do Pedro Álvares aliado à força repressora da classe alta disfarçada de representante da lei e da ordem? Não daria certo.
            E não deu.
            Hoje, sabemos que essa porra é um engodo. Assim como a outra sigla: UPA.
            A UPA tirou os hospitais de circulação e não só é uma merda como não tem internação, não faz comida, não possui exames de alta-complexidade, enfim, engodo. Um esparadrapo para quem está enfartando.
            A polícia age do jeitinho que a “sociedade” quer; ela é um espelho da elite tupiniquim que fala mal do Brasil e vai comprar bugigangas em Miami. Ela tem a concepção e o preconceito dos seus chefes e da sua gente. Ela não enxerga o negro favelado como ladrão por ser polícia. Ela o vê assim porque os brasileiros o veem assim. Para muitos tupiniquins, e maioria da elite hi-tech, bandido bom é bandido morto, mas só se esse bandido for preto e pobre; os desgraçados branquelos da elite, quando fazem merda, merecem uma correção, uns tapinhas na bunda, nunca a pena de morte.
Por que só os pobres merecem morrer?
Porque pimenta no cu dos outros é refresco. Quando o caso é o nosso filho, o buraco é mais embaixo. Aliás, o buraco não existe. Como escreveu Sartre: o inferno são os outros.
Reflexão sobre o porquê das estatísticas apontarem um número assustador de negros mortos na favela é besteira. Ninguém quer fazer. Por que morrem tantos pretos e pobres no Brasil pelas mãos das “autoridades”? Por que tanto ódio?
Aliás, por que ninguém ainda percebeu que o Brasil mata seus filhos desde os tempos mais remotos e isso em nada ou pouco ajudou a solucionar o problema da violência por aqui? Somos um dos países quem mais prendem e mais matam e, no entanto, o efeito disso não diminuiu a estatística.
Investimento e educação: chaves para a diminuição da criminalidade.
Coloque um comprimido e perspectiva na vida de qualquer cidadão e veremos um bandido a menos. Tire a perspectiva da vida de qualquer cidadão e criaremos um monstro odioso.
É um começo simples. Mas o investimento é grande e custa dinheiro. Muito dinheiro.
Não será esse o problema?


terça-feira, 29 de abril de 2014

Os bananas e o coxinha



Foi Luciano Huck, após ser assaltado em outubro de 2007, que escreveu a respeito de seu próprio assassinato essa fantasia bizarra: "Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio. Por quê? Por causa de um relógio".

Como se vê, Huck atribuiu a si mesmo uma importância social extraordinária – provavelmente já contando com o sensacionalismo turbinado da mídia nos casos que envolvem, err, celebridades. Mas também nos obriga a lembrar um detalhe. Não era “um relógio” qualquer, era um rolex. De ouro. E um rolex de ouro pode custar até centenas de milhares de reais. Com sua peculiar sensibilidade social, Huck não entendeu que um maluco com muitos milhares de reais pendurados no pulso pode, sim, ser assaltado, e talvez morto. O rolex de Huck, naquele ano, consta, custava R$ 39 mil. No Brasil mata-se por muito (mas muito) menos.

Entre outras respostas contundentes, vieram a do escritor Ferréz (que imaginou o drama do outro lado, o do ladrão) e a de Zeca Baleiro. É uma ponderação de Zeca que me interessa agora: "Eu também reclamaria caso roubassem algo comprado com o suor do rosto. Reclamaria na mesa de bar, em família, na roda de amigos. Nunca num jornal. Esse argumento, apesar de prosaico, é pra mim o xis da questão. Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado? Lançando mão de privilégio dado a personalidades, utiliza um espaço de debates políticos e adultos para reclamações pessoais (sim, não fez mais que isso), escorado em argumentos quase infantis, como 'sou cidadão, pago meus impostos'".

Ontem, Luciano Huck fez pior. A história começou no domingo, num jogo na Espanha. Como todo mundo já deve saber, o jogador brasileiro do Barcelona, Daniel Alves, foi alvo de uma banana arremessada. Antes de cobrar um escanteio, em uma inspiração momentânea (pelo menos aparentemente, como veremos), Alves comeu a banana, como se nada estivesse acontecendo. O vídeo correu mundo – mas a coisa não parou nisso.


Continuou, e aumentou, com uma manifestação um tanto esquisita de Neymar, que postou foto também comendo banana, ao lado de seu filho. Esquisita porque Neymar, seu colega de time, já tinha nos explicado no final de 2013 que “nunca foi vítima de racismo – até porque não é preto, né”, reforçando a declaração em mais de uma entrevista.

Talvez Neymar tenha superado a amnésia traumática e lembrado que já foi sim alvo de agressões racistas. Por exemplo na Bolívia, em 2012, quando, ainda no Santos, foi alvo de bananas. Então a tag que lançou junto com a foto, #somostodosmacacos, seria um pouco menos impessoal. Além dele, ao longo da segunda-feira, gente como Alexandre Pires, Michel Teló, Ivete Sangalo, Claudia Leitte, Fátima Bernardes, Ana Maria Braga, Dinho Ouro Preto e Reinaldo Azevedo (!), além do Inri Cristo, postaram suas respectivas (ops) bananas.

Pareceria um caso, sempre meio bobo, de viral-celebridade, se dois desdobramentos não viessem a público: a) a tag #somostodosmacacos foi criada por uma agência de publicidade, a Loducca. Como no caso da cueca, Neymar gosta de fazer publicidade disfarçada. Questionado, um executivo da agência respondeu que “tentar desmerecer o movimento pelo fato de ter uma agência por trás é tão preoconceituoso quanto o torcedor que joga a banana. Por que não pode haver ajuda profissional? Não é uma campanha para vender nada”; b) a loja de Luciano Huck, o primeiro depois de Neymar a postar foto sua (com a esposa Angélica), já tinha pronta para vender uma camiseta com a tag e banana, a R$ 69 reais. Ou seja, se a Loducca só queria “vender boas intenções”, para Luciano Huck isso não era um impedimento. E nem roubar a banana do Andy Warhol na capa do disco Velvet Underground.

Reprodução/Instagram

A Loducca diz que o próprio Neymar, que não estava nesse jogo, iria comer a fruta em alguma ocasião, e que Daniel o fez por uma incrível coincidência. O que levou Neymar a disparar a campanha. Nem é necessario embarcar na teoria da conspiração de que o próprio arremessador da banana em Villareal já fazia parte da trama – só a mera iniciativa relâmpago de Huck em capitalizar em cima da campanha já gerou um enorme desconforto. Luciano, que não é Hulk e não fica verde, também não fica amarelo em ganhar com a desgraça alheia.

Em 2011, Luciano e a empresa de descontos à qual tinha se associado, a Peixe Urbano, (supostamente) faziam doações paras as vítimas das enchentes naquele ano – mas você tinha que se cadastrar no site, antes de “comprar os cupons de doação”. No mínimo, mesmo que as doações chegassem integralmente (o que é improvável), era um modo de Luciano colocar sua base de fãs e seguidores no cadastro de vendas, usando a tragédia como desculpa.

A casa de Huck na ilha das Palmeiras, em Angra dos Reis, é construída numa área de proteção ambiental. Para se livrar da acusação, Huck contratou o escritório de advocacia da então primeira dama do Rio – e o governador Sérgio Cabral, em 2010, editou um decreto (que logo ficou conhecido como “Lei Luciano Huck”) para resolver o probleminha do apresentador. Não satisfeito, no ano seguinte Huck foi acusado de impedir o acesso à sua “praia particular” com bóias ilegais.

Uma jovem viúva. Uma coxinha destroçada. É difícil imaginar o poderoso “macaco” Huck sendo xingado ou perseguido como um negro, ameaçado de um pipoco grátis (exceto talvez se insistir em andar por aí com seu rolex). Como aconteceu com Oswaldo Zaratini, que na semana passada teve o azar de, sendo negro, ser sequestrado – quando desceu do carro foi morto pela polícia (o sequestrador, branco, sobreviveu).

Alguns comentaristas acharam a tag #somostodosmacacos racista e negativa. Eu tenderia a achá-la boba, além de oportunista – se ficasse no universo dos jogadores e de seus fãs-celebridade. Parece coisa de, err, publicitário. Mas o “roubo” da doença social do racismo no futebol por um playboy amoral e oportunista transforma a coisa toda não só em um escândalo, como em um foco de vergonha alheia lancinante.

Talvez #somostodosbananas fosse mais preciso. Ou #somostodosrecheadosdefrangodesfiado. Eu simpatizo com a idéia de descender do macaco, até porque um homem que cruzasse com uma costela provavelmente geraria um tipo de exoesqueleto, como o Alien.

Talvez descendamos do cruzamento do macaco com o porco, como defendeu há uns meses o geneticista norteamericano Eugene McCarthy. O que daria um bicho menos peludo, inconsequente e agitado, e mais estável e rosado, como um executivo. Ou um apresentador. Faz sentido. #somostodoscinicosoportunistas (não, não somos).


sábado, 26 de abril de 2014

Foi bonita a festa, pá

Por Antonio Luiz M. C. Costa

www.brasilescola.com
Faz quarenta anos, os militares portugueses fartos da guerra colonial saíram às ruas e puseram fim a 48 anos de salazarismo, o fascismo à portuguesa. Na minha família de imigrantes portugueses, o impacto foi espetacular. Apesar da recente substituição do general de turno, a ditadura brasileira ainda não dava sinais de abrandar e foi a primeira oportunidade, em minha vida de adolescente, de ouvir e participar de discussões políticas a sério.

Meu pai tinha perfil mais conservador do que gostava de admitir, mas era antissalazarista e se entusiasmara com a publicação, dois meses antes, do livro Portugal e o Futuro. Com prefácio de Carlos Lacerda, o general António de Spínola, vice-chefe do Estado-Maior português e ex-governador militar da Guiné Portuguesa (atual Guiné-Bissau), admitia ser impossível vencer a guerra colonial e propunha transformar o império colonial em uma federação na qual Portugal seria um dos estados e a capital seria no interior de Angola.

A proposta soava então tão bizarra quanto hoje, mas era um salto inesperado em relação ao discurso oficial de dois anos antes, quando o ditador Emílio Garrastazu Médici foi a Portugal buscar os ossos de dom Pedro I em Portugal e do ano anterior, quando voltou para visitar o colega português Marcello Caetano. Lisboa propunha um “Mercado Comum Luso-Brasileiro” e garantia que os rebeldes estavam sendo derrotados e as colônias portuguesas seriam “províncias ultramarinas” para sempre. Uns contraparentes de Angola haviam nos visitado nessa época (acharam São Paulo muito parecida com Johanesburgo) e se queixaram da ignorância dos “gentios” e dos “bandidos” que não os deixavam explorar a colônia em paz.

Como mais tarde o acompanhamento da política e da história me ensinou, sempre que alguém que participa do poder propõe uma concessão tão súbita e drástica é certo que ela tarda demais, mesmo que seus parceiros não compreendam. Caetano recusou a proposta de “autonomia desagregadora” para as colônias e Spínola e seu chefe foram demitidos. Semanas depois, na madrugada de 25 de abril, uma rádio de Lisboa transmitiu a senha do levante, a (então proibida) canção “Grândola, Vila Morena”. Às oito da manhã, a praça central de Lisboa estava tomada por tanques e à tarde o general Spínola, de monóculo e capa bordada, recebia a rendição de Marcello Caetano, despachado para o exílio na ilha da Madeira e depois no Brasil junto a grande parte da elite salazarista. No dia seguinte, o editorial desesperado de um jornal salazarista apelava aos rebeldes para se renderem e dissolverem seu governo “ilegal”.

O anacrônico general, que estivera no cerco de Leningrado ao lado dos voluntários portugueses por Hitler, iniciara um processo que não podia controlar. Pensava ser o arauto do futuro quando era apenas a última voz do passado. Os jovens oficiais, os sindicatos livres, os partidos de esquerda que retornaram ou surgiram com o colapso do salazarismo não estavam dispostos a dançar a sua música. Muito menos os “bandidos” africanos e timorenses, que a essa altura controlavam a maior parte dos territórios que Spínola sonhava manter unidos a Portugal e não tinham nenhuma intenção de aceitar menos que a independência total.

Vendo o poder escapar das mãos, Spínola tentou um golpe. Convocou para 28 de setembro uma manifestação da “maioria silenciosa” em nome da qual pretendia afastar as esquerdas do governo e pôr os comunistas novamente fora da lei. Na véspera, com apoio da polícia militar, fez prender os líderes da esquerda militar, Vasco Gonçalves (primeiro-ministro), Otelo Saraiva de Carvalho e Francisco da Costa Gomes, mas os fuzileiros navais e paraquedistas rejeitaram suas ordens, bloquearam sua manifestação e o obrigaram a libertar os generais presos. Renunciou, mas em 11 de março de 1975 tentou um golpe de Estado. Fracassou em três horas e fugiu de helicóptero para a Espanha e sob a proteção da agonizante ditadura franquista, organizou uma rede terrorista que por anos executou atentados contra partidos de esquerda.

Foi nessa primavera, quando os militares de esquerda ditavam as cartas em Portugal e o fervor revolucionário da Revolução dos Cravos estava no auge, que minha família voltou a visitar o país. Manifestações tomavam as ruas praticamente todos os dias. Nossos parentes em Portugal, como todo o país, estavam divididos. Um tio de segundo grau, pequeno empresário em Amarante, era o mais apavorado, certo de que o comunismo estava para ser implantado. Queixava-se de que a nova geração os queriam todos mortos e fantasiava uma invasão espanhola para pôr ordem na bagunça, mesmo que fosse para anexar Portugal. Já os jovens minimizavam suas aflições e viam o movimento com simpatia e o futuro com otimismo.

Fábricas e latifúndios eram ocupados e “universidades proletárias” criadas. As colônias, uma a uma, eram entregues aos movimentos revolucionários locais. Os panfletos que coalhavam as ruas impressionavam pelo senso de utopia. Naquele momento, parecia que tudo era possível. Portugal parecia prestes a inventar alguma nova forma de socialismo, impulsionada pelas forças agrupadas em torno do brigadeiro Saraiva de Carvalho, bem à esquerda do stalinismo de Vasco Gonçalves e do Partido Comunista Português. Muito mais que o maio de 1968, aquela foi a primeira e única revolução europeia autêntica da segunda metade do século XX. As transições democráticas domesticadas e cuidadosamente orquestradas da Espanha e da Grécia nem de longe se pareceram com isso.

O refluxo começou no fim daquele mesmo ano, ao que tudo indica como parte de um discreto acordo entre os EUA de Gerald Ford e a União Soviética de Leonid Brezhnev: as ex-colônias africanas se aliariam aos soviéticos, mas Portugal ficaria no campo da OTAN. O Partido Comunista, sem o qual uma revolução seria impossível, tirou o time de campo. Saraiva de Carvalho, isolado, foi afastado e depois preso e militares moderados encaminharam o país para um governo de caráter socialdemocrático e a integração ao Mercado Comum Europeu.

Impressiona ver como Portugal foi tão solidamente enquadrado na ordem europeia nas décadas seguintes. Quarenta anos depois, o país está preso na camisa de força da Troika e sacrifica possibilidades e liberdades à salvação do euro. O debate político não vai além de discutir o depois da vírgula no déficit público e o “Não há alternativa” de Margaret Thatcher se tornou um mantra do país, como de todo o continente. Será preciso esperar outros quarenta anos para que novos horizontes voltem a se abrir? Ou quarenta e oito?


sábado, 12 de abril de 2014

Homem de Verdade


O que é o homem? Um ser divino ou diabólico?

Sem querer me intrometer demais na seriedade do assunto, até porque eu mesmo sou um belíssimo exemplar erectus pançudus etilicus, acredito ser o homem untado em azeite de dendê e bolinhos de chuva. Somos anjos diabólicos, difíceis e pragmáticos, carentes e infantis – complexos.

Mas tem coisas que só a raça-macho sabe fazer (bem)! Exemplo? Somente a raça-macho consegue se achar bonito quando toda as leis da gravidade e da estética nos provam o contrário. O homem é o único animal que, de sunga de praia, barrigudo, careca e míope, acha, de fato, que a mulher escultural na cadeira ao lado está sorrindo para ele.

Aliás, tem uma coisa que nós fazemos com sucesso nestes milênios que passamos ao largo: a incrível mitologia do Homem Durão. Misto de Clint com Rambo. Somos peritos na arte de esconder os sentimentos e liberar os instintos primitivos. Mascando tabaco ou palito entre os dentes, o homem é mesmo um típico exemplar. Mas isto tudo termina quando:

Nasce o filho da gente!

E aquela criatura, com uns pontinhos que chamamos de dedos, segura a sua mão. Aí não tem armadura que dê jeito, você vira um escravo do choro e da baba aguda. Devo admitir que chega a ser quase assustador e, talvez, seja a primeira vez em que percebemos estar sem controle do que está por vir. Não há planejamento que tire o gosto do vácuo. Uma onda de calor começa a percorrer os pulmões, passa pelos braços, que tremem, e termina como uma imensa pressão na nuca. A palavra “nasceu” deveria ser mais extensa, mais bem preparada. Ela é muito rápida. E esse “s” mudo e sem vida, sem pronúncia, não faz muito sentido ali, encaixado entre a primeira vogal humana e o intenso céu. Esse “s” é quase o apêndice da palavra. Não, “nascer” deveria ser mais divino, mais impronunciável, uma senha: 5xdf1458rju.

Há algo de assustador em ser pai, em ser homem de verdade. Certos compromissos possuem peso e grandeza que poucos conseguem digerir. Como vivemos em um mundo patriarcal, cujas religiões, política e sociedade, com raríssimas exceções, pregam o machismo, acostumamo-nos a enxergar o lado deturpado do espelho, dificilmente nos encontramos “nus” diante do próximo, carregamos uma espécie de armadura conveniente e preguiçosa, daquelas que, costurada pelas mãos da própria mãe, escondem nossos medos.

Talvez o homem seja produto de uma grande revolução. Uma revolução que busca a palavra certa, o “s” escondido, metamorfoseado, exilado nos seios de uma mulher.
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Texto publicado, originalmente, no blog Palimpnóia, dia 06 de maio de 2009.


quarta-feira, 9 de abril de 2014

A ‘tempestade perfeita’ da imprensa



O jornal Valor Econômico publicou em manchete, na segunda-feira (7/4), reportagem relatando como especuladores perderam dinheiro ao apostar em um desastre na economia brasileira. “Os ventos do mercado mudaram de direção, a tempestade perfeita não veio, e isso reduziu bastante os ganhos de quem apostou na alta do dólar e na queda das ações”, dizem os autores do texto. Na manhã de terça-feira (8/4), analistas já registram que a frustração provocou um desvio da manada de investidores, das carteiras de maior risco para opções mais conservadoras.

O episódio revela como uma parte do movimento financeiro se processa no campo da irracionalidade, onde o chamado wishful thinking, expressão que pode ser traduzida por “autoengano” ou “autossugestão”, substitui frequentemente os indicadores formais da economia.

Mas o mais grave é constatar que esse autoengano é frequentemente provocado pela imprensa hegemônica, com a publicação seguida de manchetes negativas que induzem um grande número de pessoas a um clima de pessimismo. Alguns entendem que podem ganhar dinheiro com uma crise, mas a realidade acaba desmentindo os profetas do apocalipse, e está pronta a receita para o prejuízo.

No caso presente, a expressão “tempestade perfeita” vem sendo repetida por jornais e revistas desde o final do ano passado. Ela apareceu pela primeira vez, associada a críticas à política econômica do governo, numa análise do economista e ex-ministro Delfim Netto, publicada no Estado de S. Paulo no dia 13 de novembro de 2013.

Seu alerta era condicionado a medidas que, segundo ele, deveriam ser tomadas pelo governo para controlar as contas externas, o câmbio e os gastos públicos. No entanto, a previsão foi tomada pela imprensa como muito provável e, curiosamente, um dos primeiros veículos a enxergar a tormenta que não havia foi o Valor, em artigo de um de seus editores executivos, publicado no mesmo dia (ver aqui). Em seguida, a revista Exame, da Editora Abril (ver aqui), elevou a profecia ao grau de catástrofe inevitável.

Muitos investidores passaram, então, a valorizar as nuvens escuras.

Mudança dos ventos

O Valor Econômico voltou atrás ao produzir o caderno especial “Cenários 2014”, no mês seguinte, desmentindo seu editor executivo (ver síntese aqui). No entanto, os três jornais genéricos de circulação nacional – Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo – seguiram anunciando o apocalipse.

Até que se produziu a conjunção sonhada pelos especuladores: o anúncio do rebaixamento do Brasil por parte da agência de avaliação de risco Standard & Poor’s, o escândalo da Petrobras e, finalmente, a pesquisa Datafolha sobre intenção de voto, que supostamente iria marcar a queda das chances de reeleição da presidente Dilma Rousseff. Mas aconteceu que os ventos econômicos mudaram de direção, afastando as nuvens negras e o cenário eleitoral na verdade mostra que a atual presidente pode ser reeleita no primeiro turno.

A situação econômica ainda é de instabilidade, contexto que deve perdurar ao longo do ano, em parte sob influência da disputa eleitoral. O que a imprensa não diz é que uma parcela significativa dessa instabilidade é provocada pela própria imprensa.

Façamos, por exemplo, uma varredura no noticiário de terça-feira (8/4): pelos mesmos jornais que seguem apostando em manchetes negativas, o leitor fica sabendo, em reportagens com menor destaque, que houve uma “enxurrada” de capital estrangeiro no Brasil no mês de março. O BNDES já captou no primeiro trimestre um total de recursos superior ao previsto para todo o ano de 2014, em condições consideradas excelentes, o que demonstra a credibilidade dos títulos brasileiros. Nas notas curtas, pode-se ler uma lista de investimentos de empresas multinacionais, entre eles a criação de uma fábrica de grandes motores da Rolls-Royce no Rio de Janeiro.

Agora, vejamos como a imprensa produz no público opiniões equivocadas. Meio escondida nas edições digitais dos jornais, pode-se garimpar um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ( IPEA) anunciando que a Copa do Mundo pode render R$ 30 bilhões ao Produto Interno Bruto em 2014, criando 48 mil empregos só no setor de turismo.

E qual é a percepção que o noticiário sobre o mesmo assunto induz no público? Pesquisa Datafolha publicada com destaque na terça-feira afirma que 55% dos brasileiros acreditam que a Copa vai trazer prejuízos.

É assim que funciona.


terça-feira, 8 de abril de 2014

A corrupção é um sistema



O caso do deputado André Vargas (PT-PR), ex-vice-presidente da Câmara (ele pediu afastamento do cargo e licença do mandato em função das denúncias que pesam sobre si), como outros escândalos de corrupção que lhe precederam, provavelmente leve mais uma vez à reprodução da mesma sucessão de discursos hipócritas e superficiais que evitam o problema de fundo. Muitos petistas dirão que é um "ataque do PIG" contra o partido e o governo, indiferentes às provas do envolvimento do deputado em tráfico de influência e na negociação de contratos no mínimo suspeitos com um empresário amigo.

A oposição de direita, por sua vez e com a ajuda de parte da mídia, tentará mostrar que a corrupção é patrimônio exclusivo de petistas (ou, como os mais reacionários dizem, de "petralhas"), escondendo os inúmeros casos envolvendo tucanos, democratas et caterva. E é até provável que a bancada de fundamentalistas religiosos e o velho partido da "governabilidade" que preside ambas as casas do Congresso aproveitem a crise para obter mais concessões, como quando as denúncias contra o ex-ministro Palocci serviram para enterrar o programa Escola sem Homofobia (condição dos deputados fundamentalistas para não apoiar a formação de uma CPI para investigá-Io). Os jornais tratarão do caso como apenas isso: mais um caso. Ouviremos por semanas o nome do deputado, que será o "inimigo público" do mês, numa personalização de um problema que é, na verdade, sistêmico. E depois, outra notícia impactante se imporá — talvez outro escândalo de corrupção - e não falaremos mais sobre Vargas.

Longe de querer defender o deputado André Vargas (muito pelo contrário: defendo que as denúncias sejam rigorosamente investigadas e que, provada a culpa do deputado, este pague por ela), eu, entretanto, penso que a corrupção mereça uma abordagem que vá além do biográfico. Existem, na minha opinião, quatro erros comuns que se repetem cada vez que um caso de corrupção vem à tona e se transforma no "escândalo", sobre os quais precisamos refletir:

1) O problema da corrupção não são os casos individuais, porém, cada vez que um caso de corrupção estoura na mídia, é tratado como se fosse um caso isolado. Assistimos, então, à construção de um "vilão", sobre o qual recai a culpa por algo que não é mais do que um sintoma de um problema sistêmico. Nenhum partido (nem o meu) está isento de ter, em suas fileiras, um corrupto. Se o problema fosse apenas existirem pessoas corruptas, não seria tão grave: a solução seria apenas identificar e expulsá-las. Mas sabemos que o problema não é esse.

A corrupção é um componente inevitável de um sistema de governo em que as campanhas são financiadas por bancos, empreiteiras, empresários do agronegócio, igrejas fundamentalistas milionárias e todo tipo de lobistas; a governabilidade se garante comprando votos no Congresso (e o "mensalão", seja petista ou tucano, não é a única maneira de se fazer isso; existem formas indiretas, como a distribuição, entre partidos aliados, de ministérios e órgãos públicos em função não do mérito, mas do orçamento) e governantes e parlamentares se preocupam mais em agradar empresários e corporações do que em manter o espírito republicano. Casos como o de André Vargas, nesse contexto, não são um desvio, mas um sintoma.

2) O problema da corrupção não é só moral. O "udenismo" costuma dominar o debate sobre a corrupção, e tudo é reduzido a desvios éticos individuais. A corrupção é também um problema econômico (porque são bilhões de reais que "somem" do orçamento da União, dos estados e dos municípios) e, sobretudo, um problema POLÍTICO. Não é por acaso que o PT, que antigamente era visto como o partido da ética, passou a se envolver cada vez mais casos de corrupção desde que chegou aos governos.

A corrupção acompanhou a aliança com o poder financeiro e o agronegócio; veio junto com submissão ao fundamentalismo religioso e com os acordos cada vez mais escandalosos com pilantras disfarçados de pastores que dominam o Congresso; acompanhou o uso da repressão contra o povo nas ruas e a adoção do discurso da "segurança nacional" que, no passado, foi usado para reprimir aqueles que hoje estão no governo. Ou seja, o que houve não foi uma degradação moral, mas uma renúncia ideológica e programática.

E, por isso, a grana e os privilégios do poder substituíram, em muitos petistas (não em todos nem mesmo na maioria militante!), as convicções e a vontade de mudar o mundo como razão para se engajar na política. Então, se realmente quisermos acabar com a corrupção, o primeiro passo é voltar a dotar a política de sentido e conteúdo, para que mais gente entre nela desejando mudar o mundo e não ficar rico.

3) O problema da corrupção não é apenas a violação das normas, mas o fato de ela muitas vezes ser as próprias normas. Um bom exemplo disso é o financiamento de campanhas, que está sendo julgado pelo STF: se um candidato faz uma campanha milionária financiada por empreiteiras e empresários do transporte e, já eleito, tem que decidir entre aumentar ou não a passagem de ônibus ou tem de escolher entre os direitos dos moradores e os interesses de uma empresa cujo projeto imobiliário implica em removê-los, qual será mesmo a escolha dele? Se um senador teve sua campanha financiada pelo agronegócio, vai votar a favor de que tipo de Código Florestal?

Sendo assim, esse sistema eleitoral, que leva à formação de mega-coligações para garantir a governabilidade, não pode prescindir da corrupção. Ou vocês acham que o partido do sistema, que já foi aliado de petistas e tucanos, vai votar as leis porque lhe parecem boas se não tiver mais dois ministérios em troca? Tem inúmeras condições estruturais que favorecem ou até impõem a corrupção como combustível necessário para o funcionamento do sistema. Por isso, de nada adianta fazer, da corrupção, um problema apenas moral se não fizermos mudanças estruturais; se não mudarmos as regras do jogo.

4) A corrupção não é o único nem o mais importante problema da política. Vamos supor, por um instante, que fulano, candidato a presidente, governador o prefeito, é uma pessoa comprovadamente honesta, no sentido mais restrito do termo: jamais usaria do cargo para se beneficiar ou beneficiar amigos e familiares; jamais enriqueceria com dinheiro público; jamais roubaria ou seria cúmplice ou partícipe de um roubo. Contudo, esse mesmo fulano defende uma política econômica que prejudica os trabalhadores; é fundamentalista, racista, homofóbico, tem ideias ultrapassadas sobre as relações humanas; é autoritário, personalista e etc. logo, a honestidade dever ser um dos requisitos para se escolher um político, mas não podemos nos esquecer de que o mais importante é a política que ele faz ou propõe: as ideias, o programa, a visão de mundo, os interesses em jogo.

Colocar a corrupção (vista, como já dissemos, como um problema moral, exclusivamente individual, identificado apenas com um determinado setor político e, ao mesmo tempo, despolitizado no sentido mais amplo) é também uma forma de esconder os verdadeiros debates de que o país precisa, como se todos os nossos problemas se reduzissem a três ou quatro escândalos convenientemente destacados nas manchetes.


sábado, 5 de abril de 2014

O desordeiro


Muitos apontam o Golpe de 64 como resultado da instabilidade institucional e desordem provocadas pelo próprio governo João Goulart.

O Brasil vivia um conflito ideologicamente polarizado. Greves em diversos setores, como a de marinheiros, sublevação de tropas, comícios com bandeiras de partidos então ilegais (PCB) e palavras de ordem radicais assustaram parte da sociedade. A conspiração se generalizou e atravessou fronteiras. Mas o único que respeitou as regras estabelecidas foi justamente ele, o desordeiro Jango - latifundiário acusado de ligações com comunistas, que empregou o diplomata Tiago Dantas, o banqueiro Walter Salles (ministro da Fazenda), e o empresário José Ermírio de Moraes (ministro da Agricultura).

Para uma democracia que não tinha completado a maioridade, depois de séculos de poder colonial, monárquico, regimes turbulentos, República Velha e Nova, outra ditadura, que vivia sob regras da Constituição de 1946, a rebelião de sargentos da Marinha e Aeronáutica, inconformados com a decisão do STF de não reconhecer a elegibilidade de sargentos para o Legislativo, e conflitos agrários levantaram o clamor pela intervenção armada.

Como se hoje o estado democrático não sobrevivesse à ocupação de um terreno na M'Boi Mirim, de uma fazenda improdutiva, queima de pneus em estradas, bloqueios de caminhoneiros e índios, greves de professores, taxistas, agentes penitenciários, e a uma manifestação de PMs, com trocas de tiros com seus colegas da Polícia Civil, cercados por bandeiras vermelhas de partidos de esquerda e centrais sindicais, a quadras do palácio do governo. Conflitos que aprendemos não temer e negociar democraticamente.

Os EUA encararam o assassinato de um presidente, de líderes de direitos civis e a renúncia de outro, a França ficou em chamas em Maio de 68, a Alemanha confrontou o Baader Meinhof, o Reino Unido, o IRA, a Itália, as Brigadas Vermelhas, a Espanha, o ETA, mas não penhoraram sua joia mais valiosa, a democracia.

Por aqui, ela não resistiu ao Comício da Central do Brasil. Jango pode ser acusado de frouxo por uns, inábil por outros. Não resistir e fugir do Brasil no dia 2 de abril decepcionou aliados. Incendiar com palavras e gestos um ambiente já volátil atiçou a conspiração. Mas, do começo ao fim, ele cumpriu a lei.

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Numa época em que se votava separadamente para presidente e vice, Jango foi eleito vice-presidente em 1955 com mais votos do que o presidente eleito, Juscelino Kubitschek. Na eleição de 1960, foi reeleito vice-presidente de Jânio Quadros.

Em 25 de agosto de 1961, Jânio renunciou de surpresa. Jango estava na China. Os ministros militares Sílvio Heck (Marinha), Odílio Denys (Exército) e Gabriel Grün Moss (Aeronáutica) ameaçaram derrubar o avião do novo presidente por direito, caso voltasse. O líder da Câmara, Ranieri Mazzilli, foi empossado presidente.

Começou a "campanha da legalidade", para fazer cumprir o que a Constituição mandava. Parte do Congresso queria Jango, que esperou em Montevidéu a solução da crise. Militares não cederam. Tentou-se a conciliação: mudar o regime político brasileiro. Em 2 de setembro de 1961, o parlamentarismo foi aprovado. Tancredo Neves se tornou primeiro-ministro.

Em 1962, eleições renovaram o Congresso. Foi convocado um plebiscito em janeiro de 1963, para definir se o País voltaria ao regime anterior. O presidencialismo ganhou de lavada, e Jânio tomou o poder de fato e direito. Tinha dois anos para governar. A eleição de 1965 estava garantida e seria uma barbada: Juscelino ganharia com folga, voltaria à Presidência.

Jango lançou o Plano Trienal: reformas institucionais para controlar o déficit público, manter a política desenvolvimentista, instaurar a reforma fiscal para aumentar a arrecadação do Estado e limitar a remessa de lucros para o exterior, reforma bancária para ampliar acesso ao crédito de produtores, nacionalização de setores de energia elétrica, refino de petróleo e químico-farmacêutico, direito de voto para analfabetos e militares de patentes subalternas, desapropriação das áreas rurais inexploradas nas margens das rodovias e ferrovias federais, reforma educacional para combater o analfabetismo com Método Paulo Freire, abolição da cátedra vitalícia.

Uma pesquisa feita no período, encontrada recentemente nos arquivos do Ibope, mostra que 59% dos entrevistados eram a favor das medidas anunciadas no Comício da Central do Brasil. Outra mostra que 49,8% admitiam votar em Jango, se ele pudesse se candidatar à reeleição, contra 41,8%.

Em 20 de março de 1964, o general Castelo Branco informou a oficiais do Exército que aderia ao golpe eminente. Foi a senha de que os conspiradores precisavam. O embaixador americano Lincoln Gordon recomendou remessa clandestina de armas e petróleo, e sugeriu que o governo americano preparasse uma intervenção. O presidente Lyndon Johnson autorizou o envio de uma frota ao Brasil. A missão: invadir Pernambuco, para ajudar o golpe, se houvesse resistência. Seria a primeira vez na História que uma potência estrangeira nos invadiria.

Na madrugada de 31 de março, o general Olímpio Mourão Filho iniciou a movimentação de tropas em MG, incentivado pelo governador Magalhães Pinto. Em 1.º de abril de 1964, Jango foi a Brasília e, depois, para o Rio Grande do Sul. No dia 2 de abril, numa manobra da mesa do Congresso, declarou-se a vacância do cargo, já que o presidente, em Porto Alegre, não estaria em território nacional. Mais uma vez, o presidente da Câmara, Mazzilli, assumiu a Presidência.

Brasília foi cercada pelo Exército. A junta que tomou o poder, general Costa e Silva, tenente-brigadeiro Correia de Melo e vice-almirante Rademaker Grünewald, instaurou o Ato Institucional, cassando o gabinete e políticos aliados do governo Jango. O resto você já sabe.

Pergunta: Quem realmente feriu a ordem institucional?