segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Carta aberta à Leticia Fernandes e ao jornal O Globo


Da funcionária da Petrobras Michelle Daher Vieira, no Facebook:

Carta aberta à Leticia Fernandes e ao jornal O Globo

Antes de tudo, gostaria de deixar bem claro que não estou falando em nome da Petrobras, nem em nome dos organizadores do movimento “Sou Petrobras”, nem em nome de ninguém que aparece nas fotos da matéria. Falo, exclusivamente, em meu nome e escrevo esta carta porque apareço em uma das fotos que ilustram a reportagem publicada no jornal O Globo do dia 15 de fevereiro, intitulada “Nova Rotina de Medo e Tensão”.

Fico imaginando como a dita jornalista sabe tão detalhadamente a respeito do nosso cotidiano de trabalho para escrever com tanta propriedade, como se tudo fosse a mais pura verdade, e afirmar com tamanha certeza de que vivemos uma rotina de medo, assombrados por boatos de demissões, que passamos o dia em silêncio na ponta das cadeiras atualizando os e-mails apreensivos a cada clique, que trabalhamos tensos com medo de receber e-mails com represálias, assim criando uma ideia, para quem lê, a respeito de como é o clima no dia a dia de trabalho dentro da Petrobras como se a mesma o estivesse vivendo.

Acho que tanta criatividade só pode ser baseada na própria realidade de trabalho da Letícia, que em sua rotina passa por todas estas experiências de terror e a utiliza para descrever a nossa como se vivêssemos a mesma experiência. Ameaças de demissão assombram o jornal em que ela trabalha, já tendo vários colegas sendo demitidos[1], a rotina de e-mails com represálias e determinando que tipo de informação deve ser publicada ou escondida devem ser rotina em seu trabalho[2], sempre na intenção de desinformar a população e transmitir só o que interessa, mantendo a população refém de informações mentirosas e distorcidas.
Fico impressionada com o conteúdo da matéria e não posso deixar de pensar como a Letícia não tem vergonha de a ter escrito e assinado.

Com tantas coisas sérias acontecendo em nosso país ela está preocupada com o andar onde fica localizada a máquina que faz o café que nós tomamos e com a marca do papel higiênico que usamos. Mas dá para entender o porque disto, fica claro para quem lê o seu texto com um mínimo de senso crítico: o conteúdo é o que menos importa, o negócio do jornal é falar mal, é dar uma conotação negativa, denegrir a empresa na sua jornada diária de linchamento público da Petrobras. Não é de hoje que as Organizações Globo tem objetivo muito bem definido[3] em relação à Petrobras: entregar um patrimônio que pertence à população brasileira à interesses privados internacionais. É a este propósito que a Leticia Fernandes serve quando escreve sua matéria.

Leticia, não te vejo, nem você nem O Globo, se escandalizado com outros casos tão ou mais graves quanto o da Petrobras. O único escândalo que me lembro ter ganho as mesma proporção histérica nas páginas deste jornal foi o da AP 470, por que? Por que não revelam as provas escondidas no Inquérito 2474[4] e não foi falado nisto? Por que não leio nas páginas do jornal, onde você trabalha, sobre o escândalo do HSBC[5]? Quem são os protegidos? Por que o silêncio sobre a dívida da sonegação[6] da Globo que é tanto dinheiro, ou mais, do que os partidos “receberam” da corrupção na Petrobras? Por que não é divulgado que as investigações em torno do helicoca[7] foram paralisadas, abafadas e arquivadas, afinal o transporte de quase 500 quilos de cocaína deveria ser um escândalo, não? E o dinheiro usado para construção de certos aeroportos em fazendas privadas em Minas Gerais [8]?

Afinal este dinheiro também veio dos cofres públicos e desviados do povo. Já está tudo esclarecido sobre isto? Por que não se fala mais nada? E o caso Alstom[9], por que as delações não valem? Por que não há um estardalhaço em torno deste assunto uma vez que foi surrupiado dos cofres públicos vultosas quantias em dinheiro? Por que você e seu jornal não se escandalizam com a prescrição e impunidade dos envolvidos no caso do Banestado[10] e a participação do famoso doleiro neste caso? Onde estão as manchetes sobre o desgoverno no Estado do Paraná[11]? Deixo estas perguntas como sugestão e matérias para você escrever já que anda tão sem assunto que precisou dar destaque sobre o cafezinho e o papel higiênico dos funcionários da Petrobras.

A você, Leticia, te escrevo para dizer que tenho muito orgulho de trabalhar na Petrobras, que farei o que estiver ao meu alcance para que uma empresa suja e golpista como a que você trabalha não atinja seu objetivo. Já você não deve ter tanto orgulho de trabalhar onde trabalha, que além de cercear o trabalho de seus jornalistas determinando “as verdades” que devem publicar, apoiou a Ditadura no Brasil[12], cresceu e chegou onde está graças a este apoio. Ao contrário da Petrobras, a empresa que você se esforça para denegrir a imagem, que chegou ao seu gigantismo graças a muito trabalho, pesquisa, desenvolvimento de tecnologia própria e trazendo desenvolvimento para todo o Brasil.

Quanto às demissões que estão ocorrendo, é muito triste que tantas pessoas percam seu trabalho, mas são funcionários de empresas prestadoras de serviço e não da Petrobras. Você não pode culpar a Petrobras por todas as mazelas do país, e nem esperar que ela sustente o Brasil, ou você não sabe que não existe estabilidade no trabalho no mundo dos negócios? Não sabe que todo negócio tem seu risco? Você culpa a Petrobras por tanta gente ter aberto negócios próximos onde haveria empreendimentos da empresa, mas a culpa disto é do mal planejamento de quem investiu. Todo planejamento para se abrir um negócio deveria conter os riscos envolvidos bem detalhados, sendo que o maior deles era não ficar pronta a unidade da Petrobras, que só pode ser culpada de ter planejado mal o seu próprio negócio, não o de terceiros. Imputar à Petrobras o fracasso de terceiros é de uma enorme desonestidade intelectual.

Quando fui posar para a foto, que aparece na reportagem, minha intenção não era apenas defender os empregados da injustiça e hostilidades que vem sofrendo sendo questionados sobre sua honestidade, porque quem faz isto só me dá pena pela demonstração de ignorância. Minha intenção era mostrar que a Petrobras é um patrimônio brasileiro, maior que tudo isto que está acontecendo, que não pode ser destruída por bandidos confessos que posam neste jornal como heróis, por juízes que agem por vaidade e estrelismos apoiados pelo estardalhaço e holofotes que vocês dão a eles, pelo mercado que só quer lucrar com especulação e nunca constrói nada de concreto e por um jornal repulsivo como O Globo que não tem compromisso com a verdade nem com o Brasil.

Por fim, digo que cada vez fica ainda mais evidente a necessidade de uma democratização da mídia, que proporcionará acesso a uma diversidade de informação maior à população que atualmente é refém de uma mídia que não tem respeito com o seu leitor e manipula a notícia em prol de seus interesses, no qual tudo que publica praticamente não é contestado por não haver outros veículos que o possa contradizer devido à concentração que hoje existe. Para não perder um poder deste tamanho vocês urram contra a reforma, que se faz cada vez mais urgente, dizendo ser censura ou contra a liberdade de imprensa, mas não é nada além de aplicar o que já está escrito na Constituição Federal[12], sendo a concentração de poder que algumas famílias, como a Marinho detém, totalmente inconstitucional.

Sendo assim, deixo registrado a minha repugnância em relação à matéria por você escrita, utilizando para ilustrá-la uma foto na qual eu estou presente com uma intenção radicalmente oposta a que ela foi utilizada por você.

Fontes:
[1] Demissões nas Organizações Globo:

http://www.conexaojornalismo.com.br/…/demissoes-do-globo-es…

http://radiodeverdade.com/tag/demissoes-na-radio-globo/

http://www.parana-online.com.br/editor…/almanaque/…/836519/…

http://www.portalimprensa.com.br/…/o+globo+faz+cortes+na+re…

http://blogs.odia.ig.com.br/…/globo-inicia-demissoes-no-jo…/

[2] Exemplos de o que deve e não deve ser publicado

http://www.brasildefato.com.br/node/31315

http://www.pragmatismopolitico.com.br/…/globo-ordena-que-no…

http://www.conversaafiada.com.br/…/globo-censura-reporter-…/

[3] Objetivos

http://www.municipiosbaianos.com.br/noticia01.asp…

http://www.aepet.org.br/…/Prezado-a-companheiro-a-da-Petrob…

http://www.viomundo.com.br/…/sordida-campanha-dos-marinho-c…

https://petroleiroanistiado.wordpress.com/…/petrobras-sob-…/

https://fichacorrida.wordpress.com/…/rede-globo-de-corrupc…/

[4] Inquérito 2474

http://www.cartacapital.com.br/…/em-sigilo-ha-7-anos-inquer…

http://www.ocafezinho.com/…/inquerito-2474-ja-esta-na-inte…/

http://www.istoe.com.br/…/…/345927_ERRO+HISTORICO+NA+AP+470+

http://www.brasil247.com/…/Nassif-STF-vai-abrir-segredo-de-…

[5] Escândalo do HSBC

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-assombroso-silen…/

http://economia.ig.com.br/…/reino-unido-investiga-hsbc-por-…

http://economia.estadao.com.br/…/hsbc-entenda-o-escandalo-…/

http://economia.ig.com.br/…/receita-esta-de-olho-em-corrent…

http://www.brasil247.com/…/Sonega%C3%A7%C3%A3o-no-HSBC-%C3%…

[6] Sonegação Globo

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=4664

http://www.ocafezinho.com/…/os-documentos-da-fraude-da-glo…/

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/injusto-e-pagar-im…/

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/como-o-processo-de…/

[7] Helicoca

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-dcm-apresenta-no…/

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-papel-cada-vez-m…/

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/categorias/helicoca/

[8] Aeroportos Mineiros

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/por-que-a-midia-na…/

http://www1.folha.uol.com.br/…/1493571-aecio-neves-a-verdad…

http://www1.folha.uol.com.br/…/1488587-governo-de-minas-fez…

http://www.pragmatismopolitico.com.br/…/trafico-de-cocaina-…

http://www.plantaobrasil.com.br/news.asp?nID=82339

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/aecio-nomeou-desem…/

[9] Alstom

http://www1.folha.uol.com.br/…/1281123-brasil-e-unico-que-n…

http://tijolaco.com.br/blog/?p=24684

[10] Banestado

http://www.redebrasilatual.com.br/…/o-caso-banestado-a-petr…

http://www1.folha.uol.com.br/…/1267100-justica-anula-punica…

http://ultimosegundo.ig.com.br/…/lentidao-da-justica-livrou…

[11] Beto Richa e o Paraná

http://www.pragmatismopolitico.com.br/…/beto-richa-quebrou-…

http://www.redebrasilatual.com.br/…/curitiba-a-pauta-da-reb…

[12] Globo e a Ditadura

http://www.pragmatismopolitico.com.br/…/editorial-globo-cel…

http://www.brasildefato.com.br/node/25869

http://altamiroborges.blogspot.com.br/…/as-diretas-ja-e-o-c…

http://www.viomundo.com.br/…/faz-30-anos-bom-jornalismo-da-…

http://www.viomundo.com.br/…/fabio-venturini-no-golpe-dos-e…

http://www.viomundo.com.br/…/exclusivo-as-entrevistas-feroz…

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/abrir-empresa-em-p…/

[12] CF/88
Diz o artigo 220 da Carta, no inciso II do parágrafo 3°:
II – estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente.
Já o parágrafo 5° diz:
Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.
E o artigo 221. por sua vez, prescreve:
Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:
I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;
II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;
III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;
IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ao João Pedro da gente

            Tive uma oportunidade linda de beber (claro, álcool e tabaco não podiam faltar. Hoje já dispenso o tabaco, mas a cerveja continua parceira) com um sujeito absolutamente reflexivo, camarada e generoso. De família abastada e “fazendeira”, lá do Centro-Oeste, com influência política enorme, decidiu debandar cá para o Rio de Janeiro, para a política e para a “subversão”. Virou “esquerdista” e ateísta, para o horror do pai religioso e oligárquico. Veio para o município de Belford Roxo, Baixada Fluminense, exercer a função de dentista em posto público, atendia a todos, inclusive aos portadores do HIV (numa época em que poucos faziam), candidato a prefeito, semeador de ideias que refletiam a igualdade social, a justiça para todos. Queria um mundo melhor. Só isso.
            Gostava dos botecos e de um belo conhaque, belas cervejas, um bom papo, uma simpatia contagiante. Era torcedor do Vasco da Gama (pois era humano, logo, imperfeito) e tinha um riso que me lembrava uma personagem dos desenhos animados dos anos 80.
Não penso que poderia ter aprofundado a amizade, não fico lamentando isso. É quase uma violência perder-me nesse tipo de pensamento e deixar de lado o mais importante: num mundo onde todos querem o seu lugar na poltrona do Personalité, onde a exposição e a ostentação viraram dois amantes queridos e reverenciados, onde ser feliz é ser financeiramente bem sucedido, conhecê-lo foi surpreendente, e isso me basta.
A gente pensa que, por termos origem e vivermos nos subúrbios, nas cidades-dormitórios, com preocupações patéticas como a conta do IPTU, do IPVA, da luz, não teremos – ou teremos pouquíssimas –  possibilidades de vislumbrar gigantes. De vê-los de perto, conversar com eles. Pensamos isso porque, na nossa mente limitada, olhamos para cima e esquecemos da verdadeira grandeza de um gigante: estar entre gente como a gente, ao invés de sentar em tronos.

Digo isso porque algumas vezes na minha pouca vida temporal encontrei-os no meu cotidiano e só os percebi esplendorosos quando parei de olhar para eles e percebi o que eles haviam mudado em mim. Bem, hoje faz um ano que um deles parou de existir fisicamente. Dá saudade, mas a gente vai resistindo à tentação, o correto nesses momentos é dar um pulo da cadeira, encher o peito e gritar: presente! 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Quanto vale a Petrobras



O adiamento do balanço da Petrobras do terceiro trimestre do ano passado foi um equívoco estratégico da direção da companhia, cada vez mais vulnerável à pressão que vem recebendo de todos os lados, que deveria, desde o início do processo, ter afirmado que só faria a baixa contábil dos eventuais prejuízos com a corrupção, depois que eles tivessem, um a um, sua apuração concluída, com o avanço das investigações.

A divulgação do balanço há poucos dias, sem números que não deveriam ter sido prometidos, levou a nova queda no preço das ações.

E, naturalmente, a novas reações iradas e estapafúrdias, com mais especulação sobre qual seria o valor - subjetivo, sujeito a flutuação, como o de toda empresa de capital aberto presente em bolsa - da Petrobras, e o aumento dos ataques por parte dos que pretendem aproveitar o que está ocorrendo para destruir a empresa - incluindo hienas de outros países - vide as últimas idiotices do Financial Times - que adorariam estraçalhar e dividir, entre baba e dentes, os eventuais despojos de uma das maiores empresas petrolíferas do mundo. 

O que importa mais na Petrobras?

O valor das ações, espremido também por uma campanha que vai muito além da intenção de sanear a empresa e combater eventuais casos de corrupção e que inclui de apelos, nas redes sociais, para que consumidores deixem de abastecer seus carros nos postos BR; à aberta torcida para que “ela quebre, para acabar com o governo”; ou para que seja privatizada, de preferência, com a entrega de seu controle para estrangeiros, para que se possa - como afirmou um internauta - pagar um real por litro de gasolina, como nos EUA " ?

Para quem investe em bolsa, o valor da Petrobras se mede em dólares, ou em reais, pela cotação do momento, e muitos especuladores estão fazendo fortunas, dentro e fora do Brasil, da noite para o dia, com a flutuação dos títulos derivada, também, da campanha antinacional em curso, refletida no clima de “terrorismo” e no desejo de "jogar gasolina na fogueira", que tomou conta dos espaços mais conservadores - para não dizer golpistas, fascistas, até mesmo por conivência - da internet. 

Para os patriotas, e ainda os há, graças a Deus, o que importa mais, na Petrobras, é seu valor intrínseco, simbólico, permanente, e intangível, e o seu papel estratégico para o desenvolvimento e o fortalecimento do Brasil.

Quanto vale a luta, a coragem, a determinação, daqueles que, em nossa geração, foram para as ruas e para a prisão, e apanharam de cassetete e bombas de gás, para exigir a criação de uma empresa nacional voltada para a exploração de uma das maiores riquezas econômicas e estratégicas da época, em um momento em que todos diziam que não havia petróleo no Brasil, e que, se houvesse, não teríamos, atrasados e subdesenvolvidos que “somos”, condições técnicas de explorá-lo ?

Quanto vale a formação, ao longo de décadas, de uma equipe de 86.000 funcionários, trabalhadores, técnicos e engenheiros, em um dos segmentos mais complexos da atuação humana?

Quanto vale a luta, o trabalho, a coragem, a determinação daqueles, que, não tendo achado petróleo em grande quantidade em terra, foram buscá-lo no mar, batendo sucessivos recordes de poços mais profundos do planeta; criaram soluções, "know-how", conhecimento; transformaram a Petrobras na primeira referência no campo da exploração de petróleo a centenas, milhares de metros de profundidade; a dezenas, centenas de quilômetros da costa; e na mais premiada empresa da história da OTC - Offshore Technology Conferences, o "Oscar" tecnológico da exploração de petróleo em alto mar, que se realiza a cada dois anos, na cidade de Houston, no Texas, nos Estados Unidos ?

Quanto vale a luta, a coragem, a determinação, daqueles que, ao longo da história da maior empresa brasileira - condição que ultrapassa em muito, seu eventual valor de "mercado" - enfrentaram todas as ameaças à sua desnacionalização, incluindo a ignominiosa tentativa de alterar seu nome, retirando-lhe a condição de brasileira, mudando-o para "Petrobrax", durante a tragédia privatista e “entreguista” dos anos 1990 ?

Quanto vale uma companhia presente em 17 países, que provou o seu valor, na descoberta e exploração de óleo e gás, dos campos do Oriente Médio ao Mar Cáspio, da costa africana às águas norte-americanas do Golfo do México ?

Quanto vale uma empresa que reuniu à sua volta, no Brasil, uma das maiores estruturas do mundo em Pesquisa e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, trazendo para cá os principais laboratórios, fora de seus países de origem, de algumas das mais avançadas empresas do planeta?

Por que enquanto virou moda - nas redes sociais e fora da internet - mostrar desprezo, ódio e descrédito pela Petrobras, as mais importantes empresas mundiais de tecnologia seguem acreditando nela, e querem desenvolver e desbravar, junto com a maior empresa brasileira, as novas fronteiras da tecnologia de exploração de óleo e gás em águas profundas?

Por que em novembro de 2014, há apenas pouco mais de três meses, portanto, a General Electric inaugurou, no Rio de Janeiro, com um investimento de 1 bilhão de reais, o seu Centro Global de Inovação, junto a outras empresas que já trouxeram seus principais laboratórios para perto da Petrobras, como a BG, a Schlumberger, a Halliburton, a FMC, a Siemens, a Baker Hughes, a Tenaris Confab, a EMC2 a V&M e a Statoil ?

Quanto vale o fato de a Petrobras ser a maior empresa da América Latina, e a de maior lucro em 2013 - mais de 10 bilhões de dólares - enquanto a PEMEX mexicana, por exemplo, teve um prejuízo de mais de 12 bilhões de dólares no mesmo período ?

Quanto vale o fato de a Petrobras ter ultrapassado, no terceiro trimestre de 2014, a EXXONnorte-americana como a maior produtora de petróleo do mundo, entre as maiores companhias petrolíferas mundiais de capital aberto ?

É preciso tomar cuidado com a desconstrução artificial, rasteira, e odiosa, da Petrobras e com a especulação com suas potenciais perdas no âmbito da corrupção, especulação esta que não é apenas econômica, mas também política.

A PETROBRAS teve um faturamento de 305 bilhões de reais em 2013, investe mais de 100 bilhões de reais por ano, opera uma frota de 326 navios, tem 35.000 quilômetros de dutos, mais de 17 bilhões de barris em reservas, 15 refinarias e 134 plataformas de produção de gás e de petróleo.

É óbvio que uma empresa de energia com essa dimensão e complexidade, que, além dessas áreas, atua também com termoeletricidade, biodiesel, fertilizantes e etanol, só poderia lançar em balanço eventuais prejuízos com o desvio de recursos por corrupção, à medida que esses desvios ou prejuízos fossem “quantificados” sem sombra de dúvida, para depois ser - como diz o “mercado” - "precificados", um por um, e não por atacado, com números aleatórios, multiplicados até quase o infinito, como tem ocorrido até agora.

As cifras estratosféricas (de 10 a dezenas de bilhões de reais), que contrastam com o dinheiro efetivamente descoberto e desviado para o exterior até agora, e enchem a boca de "analistas", ao falar dos prejuízos, sem citar fatos ou documentos que as justifiquem, lembram o caso do "Mensalão".

Naquela época, adversários dos envolvidos cansaram-se de repetir, na imprensa e fora dela, ao longo de meses a fio, tratar-se a denúncia de Roberto Jefferson, depois de ter um apaniguado filmado roubando nos Correios, de o "maior escândalo da história da República", bordão esse que voltou a ser utilizado maciçamente, agora, no caso da Petrobras.

Em dezembro de 2014, um estudo feito pelo instituto Avante Brasil, que, com certeza não defende a “situação”, levantou os 31 maiores escândalos de corrupção dos últimos 20 anos.

Nesse estudo, o “mensalão” - o nacional, não o “mineiro” - acabou ficando em décimo-oitavo lugar no ranking, tendo envolvido menos da metade dos recursos do “trensalão” tucano de São Paulo e uma parcela duzentas menor que a cifra relacionada ao escândalo do Banestado, ocorrido durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso, que, em primeiríssimo lugar, envolveu, segundo o levantamento, em valores atualizados, aproximadamente 60 bilhões de reais.

E ninguém, absolutamente ninguém, que dizia ser o mensalão o maior dos escândalos da história do Brasil, tomou a iniciativa de tocar, sequer, no tema - apesar do “doleiro” do caso Petrobras, Alberto Youssef, ser o mesmo do caso Banestado - até agora.

Os problemas derivados da queda da cotação do preço internacional do petróleo não são de responsabilidade da Petrobras e afetam igualmente suas principais concorrentes.

Eles advém da decisão tomada pela Arábia Saudita de tentar quebrar a indústria de extração de óleo de xisto nos Estados Unidos, aumentando a oferta saudita e diminuindo a cotação do produto no mercado global.

Como o petróleo extraído pela Petrobras destina-se à produção de combustíveis para o próprio mercado brasileiro, que deve aumentar com a entrada em produção de novas refinarias, como a Abreu e Lima; ou para a “troca” por petróleo de outra graduação, com outros países, a empresa deverá ser menos prejudicada por esse processo.

A produção de petróleo da companhia está aumentando, e também as descobertas, que já somam várias depois da eclosão do escândalo.

E, mesmo que houvesse prejuízo - e não há - na extração de petróleo do pré-sal, que já passa de 500.000 barris por dia, ainda assim valeria a pena para o país, pelo efeito multiplicador das atividades da empresa, que garante, com a política de conteúdo nacional mínimo, milhares de empregos qualificados na construção naval, na indústria de equipamentos, na siderurgia, na metalurgia, na tecnologia. 

A Petrobras foi, é e será, com todos os seus problemas, um instrumento de fundamental importância estratégica para o desenvolvimento nacional, e especialmente para os estados onde tem maior atuação, como é o caso do Rio de Janeiro.

Em vez de acabar com ela, como muitos gostariam, o que o Brasil precisaria é ter duas, três, quatro, cinco Petrobras.

É necessário punir os ladrões que a assaltaram ?

Ninguém duvida disso.

Mas é preciso lembrar, também, uma verdade cristalina.

A Petrobras não é apenas uma empresa.

Ela é uma Nação.

Um conceito.

Uma bandeira.

E por isso, seu valor é tão grande, incomensurável, insubstituível.

Esta é a crença que impulsiona os que a defendem.

E, sem dúvida alguma, também, a abjeta motivação que está por trás dos canalhas que pretendem destruí-la.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Cuidar da própria vida



Gente radicalizada, vá lá: há jornalistas envenenados pela própria propaganda festejando a demissão de colegas e o fechamento de fontes de emprego, há fundamentalistas para quem o que foi escrito há milhares de anos (e traduzido sabe-se lá como, sabe-se quantas vezes) deve ser interpretado ao pé da letra, mesmo à custa da própria vida ou da vida de outros. E, como não disse o empresário americano P. T. Barnum, ninguém jamais perdeu dinheiro por superestimar o número de malucos no mundo.

Mas bons jornalistas, professores universitários, gente inteligente e preparada não deveriam fazer-se de desentendidos diante do assassínio, por terroristas islâmicos fundamentalistas, de grande parte da equipe do Charlie Hebdo. Não se pode, em sã consciência, dizer que o Charlie Hebdo abusou da liberdade de imprensa e que, portanto, estava mesmo sujeito à barbárie, tendo até contribuído para atraí-la. Isso é tornar-se cúmplice do crime.

O problema é outro: o humor do Charlie era efetivamente agressivo, frequentemente de mau gosto, desconhecia limites – tudo, porém, na forma da lei. Ofendia muçulmanos ao desenhar Maomé, o que e proibido pelo islamismo? Ofendia judeus ao desenhar o Senhor, que pelo judaísmo não deve ter sua figura representada? Ofendia católicos, ao sugerir que a Virgem Maria inventou a história da gravidez imaculada para que seu marido José não se sentisse tentado a repudiá-la?

Sim, ofendia (e, esperemos, continuará a fazê-lo, ignorando as ameaças dos malucos assassinos); e quem se sentisse ofendido teria dois caminhos a seguir, o primeiro deles entrar na Justiça e verificar se teria havido violação da lei, o segundo ignorar a existência da revista e continuar vivendo sem que ela lhe fizesse falta.

Mas exigir que fiéis de outras religiões e ateus se comportem como muçulmanos ortodoxos é inaceitável (e, a propósito, comportar-se como muçulmano ortodoxo, para começar, significa ser xiita, alauíta ou sunita?). Este colunista, judeu, ficou chocado quando um bispo evangélico chutou a imagem da Virgem Maria; imagina que católicos mais fervorosos tenham se sentido muito mal com isso. Mas seria inimaginável a reação de sair por aí matando quem não se importasse com a sacralidade da imagem.

A questão, enfim, não é saber se o Charlie Hebdo era ofensivo ou não, de mau gosto ou não, excessivo ou não. Ninguém jamais foi obrigado a comprar ou a ler a revista; ninguém jamais foi proibido de processá-la, ou a seus colaboradores, por ofensa a uma religião ou convicção. A questão é saber se uma religião, uma posição política, uma atitude qualquer, deva preponderar sobre as demais religiões, posições políticas ou atitudes.

Não deve; não pode. Esta é a diferença entre os fundamentalistas ocidentais, aliás chatíssimos, e os fundamentalistas muçulmanos. No Ocidente, cada um tem o direito de seguir suas convicções desde que não obrigue os outros a segui-las. Se o cavalheiro é pagão, problema dele. Se a dama é wicca e acredita em mágicas, problema dela. Se alguém decidir adorar a imagem de um carneiro assado com ameixas, problema dele – desde que não passe a perseguir quem quer que aprecie um bom carneiro assado, com ou sem molho.

Je suis Charlie. Ser Charlie não significa concordar com as ideias da revista, não significa concordar com o que é divulgado pela revista. Significa, única e exclusivamente, lutar pelo direito da revista e de seus colaboradores de expor seus pontos de vista, sejam quais forem, conforme previsto em lei.

O Senhor nos deu uma vida para que cuidemos dela. Que cada um tenha o direito inalienável de cuidar da sua, sem que ninguém se meta nela.

Uma história de Gulliver

Em seu excelente livro As viagens de Gulliver, Jonathan Swift conta que um determinado reino há muitos e muitos anos guerreava contra um reino vizinho. Motivo: o reino visitado por Gulliver tinha uma lei que obrigava os súditos a quebrar os ovos cozidos pela extremidade mais fina, enquanto os inimigos os quebravam pela extremidade mais grossa.

Swift e Gulliver são sempre muito atuais.

O caso Saló

Este colunista assistiu ao lançamento de um filme de Pier Paolo Pasolini que marcou época, Saló – 120 dias em Sodoma. O filme era bom, mas com cenas extremamente chocantes, a tal ponto que em determinado momento mais da metade do público já se havia retirado. Havia cenas de extrema violência, cenas que provocavam nojo, cenas difíceis de tolerar. Quem gostou ficou; quem não gostou, saiu. Ninguém pensou em atentar contra a vida do diretor porque o filme era ofensivo (e era) e violentíssimo (e era).

Este colunista não gosta de novelas. Em vez de iniciar alguma campanha ridícula para proibi-las, prefere trocar de canal, ou fazer alguma outra coisa. Nada de jogar a TV pela janela, ameaçando a vida de alguém na rua, para depois botar a culpa naquela novela que considerava um horror.

Simples assim. E não esqueçamos um pensamento recorrente, o de que há estupros porque as mulheres se vestem de maneira provocante. Botar a culpa na vítima é a melhor maneira de perpetuar a barbárie.
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Obs.: Lembro-me que essa discussão começou bem antes do Charlie. Ela é cíclica em toda democracia. Ela é um pouco do que disse (ou provavelmente não disse, mas a citação resume bem o seu trabalho) Voltaire:  "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo".


domingo, 11 de janeiro de 2015

“Levantado do Chão” e a saga do Latifúndio que herdamos



“E esta outra gente quem é, solta e miúda, que veio com a terra, embora não esteja registada* na escritura, almas mortas, ou ainda vivas?**”
Levantado do Chão, José Saramago


A história do latifúndio é escrita com suor e sangue de “gente miúda”, desconhecida, desimportante aos olhos de quem conta a história oficial.

É desta gente que fala José Saramago no romance Levantado do Chão, publicado em Portugal em 1980 (o escritor tinha então 58 anos) e editado no Brasil em 82, 96 e 2013. A publicação deste livro lançou finalmente o autor, que escrevia desde a adolescência, a uma posição de destaque no sistema literário português.

O romance conta a saga da família Mau-Tempo (que tem parentesco literário com os Buendía, os Trueba e os Campolargo e Vacariano), iniciada quando Sara da Conceição casa-se com Domingos e dá à luz a João Mau-Tempo, cuja vida acompanharemos até o seu último dia.

São 70 anos de história, desde a queda da Monarquia e a instauração da República até as primeiras ocupações de propriedades rurais no Alentejo ocorridas após a Revolução dos Cravos. Porém, não é a troca de nomes e bandeiras do regime vigente em Portugal que importa a este narrador. Também não é preciso saber um “a” da história portuguesa para entender o funcionamento dessa máquina de moer gente chamada Latifúndio:

“Está terra é assim. A Lamberto Horques disse o rei, Cuidai dela e povoai-a, zelai pelos meus interesses sem vos esquecerdes dos vossos, e isto vos aconselho para conveniência minha, e se assim fizerdes sempre e bem, viveremos todos em paz.”

À palavra do rei – ou da autoridade do Estado, junte-se o conforto da Santa Madre Igreja que exalta as virtudes das almas sofredoras e fecha os olhos para as carências dos corpos famintos e adoecidos pelo trabalho sem descanso. Se a teologia falhar, não faltam a imposição da ordem e a tirania do medo, nobres responsabilidades da guarda e da polícia nacional, o braço armado e assassino do Estado, aqui e lá, ontem e hoje.

Por décadas vive assim, trabalhando de sol a sol para o latifúndio a família Mau-Tempo e todo o proletariado rural do sul do país. A consciência política nasce da exaustão, quando o primeiro trabalhador, depois de uma jornada de quinze horas ou mais, com comida que mal dá para não morrer de fome, com casa que não passa de um ajuntamento de madeira ou tijolos, com filhos que começam a trabalhar assim que podem andar pelas próprias pernas, se pergunta se, afinal, isto é vida que se viva.

Contra a rebeldia de tal pergunta o Estado se apressa em dar uma resposta: durante o regime fascista de Salazar qualquer palavra contra o latifúndio e o direito sagrado da propriedade é repreendida com violência, prisão, tortura. João Mau-Tempo é preso e torturado pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), a mesma que em 1945 prendeu, torturou e assassinou Germano Vidigal, militante do Partido Comunista Português. O uso brutal da violência é ficcionalizado por Saramago, e faz com que Levantado do Chão seja um livro que nos desperta uma dor desconhecida no corpo, um intenso desconforto na consciência e um desassossego sem remédio na alma.

Acompanhando a vida de João Mau-Tempo, o narrador reconstrói com palavras a dor, a fome, o frio e o medo de uma parte do povo português entregue à sua própria sorte e capacidade de resistência e de desejar uma melhor vida. João passa de criança que mal podia segurar a enxada que usava para trabalhar a adulto e pai de família. Por espalhar as ideias socialistas na sua vila alentejana, é preso, interrogado e torturado pela PIDE por meses, até ser libertado com o alívio de não entregar nenhum companheiro durante os interrogatórios.

Gracinda Mau-Tempo, sua filha, casa-se com com Manuel Espada, também trabalhador e militante, e dá à luz Maria Adelaide.

Vão-se acabando os tempos de conformação.

Na alegoria saramaguiana, quando o sangue dos desafortunados Mau-Tempo mistura-se ao dos emblemáticos Espada através do singelo nascimento de Maria Adelaide, de olhos azuis como os do avô João, uma nova voz, persistente e forte, ergue-se no latifúndio.

Essa voz pede que a jornada de trabalho no campo passe a ser de “apenas” oito horas e deixe de ser de sol nascente a sol poente. Essa voz exige que o pagamento por dia de trabalho seja mais do que o bastante para não morrer de fome. Essa voz também chora a morte de José Adelino dos Santos, assassinado em praça pública pela Guarda Nacional da República (GNR) em 1958. Mas os ouvidos do latifúndio estão surdos.

Os proprietários de terra impedem o proletariado de trabalhar, deixando o trigo apodrecer nos campos. O regime em convulsão – que está perdendo território nas regiões da Índia e da China, e perdendo vidas na guerra colonial na África, dá suas últimas mostras de poder. Mas o regime está podre, e em 25 de abril de 1974 vem a Revolução, e, com ela, o fim do medo da repressão policial.

O olhar lúcido de Saramago, porém, não enxerga a Revolução como um dia mágico que pôs fim a todas as opressões. Os donos do latifúndio são os mesmos, estes só perderam o braço armado do poder público, mas ainda o pode contratar pela via privada, bem se sabe que para os feitores e capatazes é que nunca faltou trabalho em terras ibéricas. As técnicas de intimidação também não mudam, de novo o trigo apodrece sem poder ser colhido, e os patrões de propósito não empregam ninguém, para que “essa gente” aprenda a sua lição.

E então, num sítio qualquer do latifúndio, a história lembrar-se-á de dizer qual, os trabalhadores ocuparam uma terra.

Não, a revolução de Saramago não sai do quartel, e sim do campo, de um povo que sente frio e dor e fome há mais tempo do que se pode lembrar, e que um dia diz, basta. Sem medo da polícia, os trabalhadores rurais ocupam os latifúndios do sul do país, e iniciam o que viriam a ser as Unidades Coletivas de Produção.

O romance acaba com a alegria da ocupação do latifúndio em que os Mau-Tempo trabalharam por toda a vida. João morre antes de ver “este dia levantado e principal”, mas Saramago lá o retrata, presente em espírito, assinalando que os mortos também hão de ver a realização das suas utopias.

Com Levantado do Chão nasceu o “estilo saramaguiano”, inspirado na imemorial narração oral, feita de gestos, palavras e pausas, umas longas, outras nem tanto. Saramago mantém apenas a pontuação das pausas: os pontos e as vírgulas, e todo o resto é explicado por palavras, e apenas elas. Para ler Saramago é preciso imaginar uma voz que conta uma história, e ouvir essa voz a disfarçar-se cada vez que é um personagem que fala, como os adultos fazem ao contar histórias para as crianças, como os velhos fazem ao contar casos para os adultos.

A leitura deste romance nos ajuda a entender a mentalidade que está por trás do Latifúndio, que é anterior à invenção do Brasil, (esse até ontem colossal latifúndio além-mar de Portugal), e é importante para entendermos que não, Sra Kátia Abreu, o latifúndio não acabou por aqui.

O latifúndio não é só uma grande propriedade rural, produtiva ou não, pertencente a uma só família. O latifúndio é esse sistema que mói gente para gerar riqueza pra quem não trabalhou a terra. O latifúndio é esse responsável pelo Alentejo ser uma das regiões mais pobres da Europa, é o que motivou a escravidão hedionda de africanos e o assassinato de povos autóctones nas Américas, é o que vai empobrecendo e envenenando a terra, concentrando riqueza, reproduzindo desigualdades e injustiças históricas, destruindo infâncias, encurtando vidas.

Enquanto sentirmos os efeitos do latifúndio, essa herança colonial, o latifúndio existe, e é por isso que a defesa da reforma agrária não é anacrônica ou apenas “coisa de comunista”. Precisamos de um novo sistema produtivo porque com ele virá uma uma nova maneira de conceber o valor da terra e das riquezas que ela pode gerar.

Levantado do Chão termina no momento em que a utopia do direito à terra, da jornada justa e do salário digno parece virar realidade. A reforma agrária, contudo, não veio a se concretizar de forma duradoura, e a adesão de Portugal à Política Agrícola Comum da União Europeia na prática anulou os efeitos das lutas locais do passado.

Ainda assim, a história do caminho trilhado por pessoas que sonharam e lutaram por um futuro mais justo permanece viva e a inspirar aqueles que queiram seguir seus passos.

Cada conquista nossa é também conquista dos que lutaram antes de nós e não viveram para ver o dia em que a utopia se tornou realidade. Também nós não viveremos para ver todas as conquistas das gerações futuras. Mas que isso não nos impeça de levantá-las do chão hoje.

* Esta é a grafia em Portugal para a palavra “registrada”.

** Todas as citações são da 12a ed de Levantado do Chão pela editora Caminho, páginas 14, 107, 328 e 361, por ordem de aparição no texto.




sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

“Veja”, Mainardi, Moura Brasil, Sheherazade “ne sont pas du tout Charlie”



Não há nada mais nojento do que o oportunismo que uma parte espúria da imprensa brasileira tem feito em relação ao lamentável ataque terrorista à redação da revista francesaCharlie Hebdo, que nesta terça-feira (7) resultou na morte de 12 pessoas, entre elas dez jornalistas e dois policiais.

Valendo-se de uma paralelismo canalha, oportunistas alçados à categoria de colunistas tentam agora associar a presidente Dilma Rousseff ao que aconteceu em Paris (como se em algum momento ela tivesse se declarado uma entusiasta do terrorismo) e comparam-se aos cartunistas do periódico francês – algo que só faz sentido na cabeça de pessoas sem qualquer capacidade de autocrítica.

É claro que estou falando da revista Veja e de seus asseclas Diogo Mainardi (hoje em blog próprio) e Felipe Moura Brasil (aquele que disse que homossexualidade era um tipo de neurose e que ninguém nasce gay), que em artigos escritosno dia da tragédia tentam, de maneira ofensiva à memória dos mortos, colar em si a pecha de perseguidos ou de vítimas de uma suposta censura terrorista, mesmo tendo a liberdade de atacar diariamente não apenas o governo como grupos que lutam pelo direito de ter seus direitos humanos respeitados. Felipe Moura Brasil, depois de defender Sheherazade e argumentar que todos os blogs que discordam dele são pagos pelo PT, ataca: “Os ataques petistas à liberdade de imprensa são movidos pela mesma intolerância à divergência, à crítica, à sátira que move os terroristas islâmicos, guardadas as diferenças de método e grau de criminalidade com que a colocam em prática”. Mainardi foi mais sucinto:

Não se deve negociar com os fascistas”.

Stéphane Charbonnier, editor-chefe do Charlie Hebdo, assassinado hoje em Paris, a propósito dos terroristas islâmicos.

“A melhor forma é o diálogo”.

Dilma Rousseff, presidente do Brasil, sugerindo negociar com os mesmos terroristas.

Desculpem, mas Veja não é Charlie, assim como Diogo Mainardi não é Charlie, nem Rachel Sheherazade, a quem Felipe Moura Brasil tentou arregimentar ao rol de vítimas em um de seus artigos infantis, para dizer o mínimo. Rodrigo Constantino e sua homofobia implícita em artigos canalhas tampouco são Charlie. Os pastores Marco Feliciano e Silas Malafaia também não. Nem Jair Bolsonaro, embora esses três últimos adorem se munir do artigo 5º da Constituição para defender seus pontos de vista fascistas – quando conveniente, claro…

Porque para ser Charlie é preciso, antes de qualquer coisa, coragem. E não apenas a coragem de ser irreverente e às vezes até ofensivo. Mas coragem de defender, acima de tudo, aqueles que são oprimidos.

E, neste sentido, se tem alguém que não é Charlie é a revista Veja. Aliás, se há algum paralelismo a ser feito entre esta publicação e os fatos ocorridos em Paris é com os terroristas, já que a especialidade desta revista é praticar terrorismo travestido de jornalismo. Estes artigos, que só faltam colocar um fuzil na mão da presidente da República, são um exemplo perfeito disso. Não apenas pela leviandade da afirmação, como pela hora mais que inoportuna.

Especialmente vindo de uma revista que apoia a “liberdade de expressão” de fundamentalistas religiosos, mesmo que não declaradamente (porque é covarde). Os mesmos “cristãos” que, se pudessem, fariam com o Porta dos Fundos a mesma coisa que os terroristas fizeram com o Charlie Hebdo. Ou será que eu estou mentindo quando digo que o pastor Marco Feliciano já tentou censurar os vídeos do coletivo de humor que satirizam a Bíblia? Ou será que eu estou mentindo quando digo que a revista apoia o discurso de incitação ao crime pelo qual Rachel Sheherazade foi processada?

Franceses homenageiam jornalistas mortos com a frase “Je suis Charlie” (Sou Charlie)
Para ser Charlie, a Veja e seus colunistas, assim como Sheherazade, teriam que, antes de tudo, fazer um jornalismo contrário à opressão social. Contrário ao elitismo. Contrário ao conservadorismo. Contrário à homofobia que já expressou em suas páginas. Contrário a quase tudo o que ela faz. Portanto, vitimizar-se às custas da tragédia alheia não faz desta revista e de seus colunistas necessariamente vítimas. Se Dilma, que foi torturada em nome da liberdade, não é Charlie, a Veja tampouco é. Acredito que um dia já foi, quando assim como a presidente lutava pela liberdade de imprensa e pela restauração da democracia em um país sob ditadura militar. Mas hoje não é mais.

Aliás, querer ser protagonista do sofrimento alheio é uma ofensa não apenas às verdadeiras vítimas da tragédia lá na França. É também uma ofensa aos verdadeiros jornalistas que lutam para que seu trabalho tenha algum efeito positivo na sociedade, como fazia (e continuará fazendo) o Charlie Hebdo.

E se formos fazer uma análise bem fria, nenhum veículo da imprensa brasileira é Charlie. Nenhum veículo de comunicação neste país teria colhões para publicar a charge em apoio ao casamento igualitário que ilustra este texto, ou qualquer outra das charges do Charlie Hebdo. NENHUM.

Como bem disse o Rafael Campos Rocha sobre a morte do cartunista Wolinski: “quem o matou foi mais um desses patrulheiros filhos da puta, para o qual a causa (seja religiosa, política ou de gênero) não serve para LIBERTAR, mas sim para COIBIR, CASTRAR e DESTRUIR, além de, é claro, manter a sociedade de exploração, que vocês, moralistas de merda, precisam para continuar transformando a vida dos outros em um inferno”.

Portanto, vamos nos recolher à nossa tepidez, à nossa insignificância global, lavar os copos, contar os corpos e sorrir, porque ainda estamos vivos e ainda podemos tentar seguir o exemplo de jornalismo (e até de ativismo) que o Charlie Hebdo deixou.

“Vous n’êtes pas Charlie! Vous n’êtes pas du tout Charlie!”


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A ofensa do ofendido


 
Alguém se lembra dos ecochatos? Aqueles bicho-grilos falantes e indiferentes à urgência do progresso que se amarravam em jequitibás para trancar a passagem da civilização sobre a natureza? Pois é. Durante anos, bastava alguém levantar qualquer objeção à impunidade de tratores e serra-elétricas para ser desautorizado: você é “só” um ecochato. Logo, não merecia ser ouvido. E por não ter sido ouvido, durante anos, os modelos de exploração, consumo e descarte seguiram inalterados, às custas da destruição de matas ciliares, poluição de rios e extermínio das espécies.

Com o tempo, a ciência conseguiu ligar os pontos entre a devastação humana e os desastres supostamente naturais. Aprendemos, aos trancos, que o barranco desmatado de ontem é a área de deslizamento de hoje. Que o buraco devastado na floresta distante é o alçapão dos chamados rios voadores, estes que hoje minguam em nosso jardim, nossas áreas produtivas e nosso sistema de abastecimento. Que a emissão desregrada de CO2 é o tampão da panela de pressão a derreter calotas, elevar o nível dos rios, colocar em risco as populações litorâneas com ondas do tamanho de edifícios.
Pois é. A evolução cientifica serviu também para devastar o deboche. Os ecochatos de ontem são hoje chefes de Estado sentados à mesa em busca de uma solução para evitar o colapso.

Enquanto nem tudo se perde, a lição serve como uma esperança. Pois se tem algo positivo de ser adolescente em 2014 e não em 1984 é que, graças à nossa conexão em rede, os canais de informação se multiplicaram. Já não dependemos das vozes oficiais para ouvir, para aprender nem para nos divertir. Nesse novo mundo, os filhos já não se contentam com o “porque sim”, “porque é certo”, “porque sempre foi assim” do padre, da nona ou da TV aberta. Basta uma combinação bem-feita no Google para rebater, com fotos e dados, muitos dos lugares-comuns repetidos há séculos pelos velhos papagaios: não existe latifúndio no Brasil, não existe devastação, o mundo não está mais quente, a cidade está mais segura, o presidente sabe o que faz, negros e gays não se ofendiam com as piadas de antigamente.

É um efeito natural: quanto mais informação, maior o espírito crítico, maior a gritaria. Maior, também, a reação à gritaria. Dessa forma, os chamados “politicamente corretos” se tornaram os novos “ecochatos”: basta levantar o dedo para dizer que piadas com minorias não têm a menor graça para ouvir todo tipo de recriminação. “É só uma brincadeira”. “Você não sabe o que é uma piada?”. “Você não tem humor”.

Exemplo disso foi dado, no início da semana, por um dos principais ícones do humor brasileiro. Em entrevista à revista Playboy, o ator e comediante Renato Aragão se queixou da maldade nos olhos de quem vê maldade nas piadas que o consagraram. "Naquela época, essas classes dos feios, dos negros e dos homossexuais, elas não se ofendiam. Elas sabiam que não era para atingir, para sacanear".

Não vou ser malicioso e atribuir a um suposto ato falho do Trapalhão a inclusão de negros e homossexuais na categoria “dos feios”. Vou apenas questionar: será que negros e gays não se ofendiam mesmo? Quem atestou? Quem mediu? Quem referendou? O Datafolha? O disk Criança Esperança? Ou será que, sem os mesmos canais de antes, a ofensa era apenas tolhida e pouco reverberada? Como medir o alcance de uma ofensa em um mundo sem redes de relacionamento que hoje unem ofendidos do Norte, do Sul e do Centro, antes espalhados e desconectados, em uma mesma conversa? Será que hoje, ao saber que sua ojeriza é compartilhada, o ofendido não se sinta estimulado a expressar o que sente? Ou será que a queixa é apenas sintoma de uma geração mal-acostumada que não têm boa vontade o suficiente para distinguir uma piada de um tapa?

Bom, se valer o argumento do líder dos Trapalhões, o tapa também já foi mais respeitado pelos antigos. Escravos eram açoitados em praça pública e sempre levaram na boa – o silêncio da focinheira era, assim, apenas um charme. Da mesma forma, gays eram estapeados pelos pais dentro de casa até desentortar e não se ofendiam com a ação enérgica. Pelo contrário: entravam na linha, seguiram o curso da normatividade, se casavam com pessoas do sexo oposto e aceitavam ser infelizes para sempre.

E hoje em dia? Hoje em dia, o tempo da maldade, há inclusive leis para se punir surra corretiva dentro de casa. Vai ver é por isso que, longe da correção, gays, lésbicas e travestis tenham perdido a vergonha de sair à rua em passeatas para reforçar o próprio orgulho.

Na cabeça dos antigos, ao menos os que ainda pensam como em 1984 (ou seria 1884? Ou 1784?), o que falta a esses grupos é vergonha, e a vergonha tem dois aliados inseparáveis: o tapa e a piada. Ambos coram a pele. Ambos deixam marcas. Ambos servem para colocar os diferentes “em seu devido lugar”. Antes bastava chamar de bicha, bichinha, bichola. Ou de “pretis”. Ou dizer que “pretis é seu passadis”. Ou que amanhã é dia de branco. Ou que o serviço ficou uma pretice.

“Ah, mas o Mussum não ligava”. Pobre Mussum: em teu nome quantas ofensas foram escancaradas e justificadas, estas sim sem a menor vergonha? Pois, além de chorar, que outra opção deram a ele se não ser sorrir. Sorrir como quem cala. Sorrir como quem escapa de um tapa. Sorrir como quem adia o encontro consigo mesmo. Sorrir como riem os gays quando ouvem, em casa ou no trabalho, as velhas piadas como uma ordem para seguir quietos. Sorrir como a empregada ri da piada sem graça do chefe machão para não perder o emprego. Sorrir em nome da convivência. Em nome da própria vergonha. Sorrir – se possível, gargalhar.

Hoje quem se importa com os séculos de exclusão e decide romper, com protestos, o ciclo da ofensa do tapa e do riso é chamado de “politicamente incorreto”. Ou – pasmem – de racista. É que para muitos a maturidade não serviu para entender os contextos da própria consagração. Pois é mais fácil trocar os nomes e substituir a perversidade do passado por uma ingenuidade apunhalada apenas pelos olhos de quem vê.

Na mesma entrevista, Aragão classificou as piadas que hoje ofendem como “uma brincadeira de circo entre mim e o Mussum, como se fôssemos duas crianças em casa brincando”. A intenção, disse, não era ofender ninguém. “Hoje, todas as classes sociais ganharam a sua área, a sua praia, e a gente tem que respeitar muito isso”. É como dizer que a piada de português perdeu a graça porque o português chegou à plateia.

Enquanto o respeito citado pelo comediante for uma concessão a contragosto de quem sai de cena, ele será sempre um mal necessário, e não um processo de entendimento. Esse processo demonstra que a piada ofensiva não perdeu a graça porque o ofendido entrou em cena. Perdeu porque os níveis de consciência afloraram. Porque o mundo se transformou. Porque os símbolos ganharam novos significados. O riso é um deles.

Por incrível que pareça, o mundo não ficou mais chato por isso: muitos entenderam os novos tempos e decidiram refinar nosso humor e, com ele, nossa própria compreensão do mundo. Ninguém perdeu com isso, a não ser a velha chacota.
 
 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Conto de Natal

A minha artista Vanguardíssima, Sandra Camurça, que torce pro Santa Cruz e adora uma briga justa, lembrou, agora há pouco, de um conto publicado por um outro brigão (que eu igualmente admiro) e sensível Pirata Z, o Xará Marcelo, jornalista com selo de qualidade Fausto W - o Mega-Ultra-Foda e incomparável Fausto do JB. 
Lindamente bem escrito, como sempre, e emocionante na medida certa. Italiano e mundial. 
Reproduzo aqui com os votos de um natal repleto de paz e, como diria o Xará Pirata, que os seus olhos sejam atendidos.


Por Pirata Z

um conto de natal
ecco! - ou, 'Don' Angelo e o cavalo do Zorro


1973. eu, 7 anos de idade.
como todo mundo, em toda família, eu tinha um tio meio 'torto' - casado com 
uma irmã de meu avô siciliano - e meio banana, também. seu nome era [ó só]
Américo... rico. muito rico. bobo. muito bobo. vai vendo.

todo ano, próximo ao natal, ele perguntava qual presente a gente gostaria de
ganhar, mas, no almoço de natal, sem nem embrulhar, ele dava pra todos uma
mesma revistinha do rato mickey... no ano seguinte, a mesma pergunta, e eu,
bobo, na batata, respondia: "a capa, a espada, a máscara e o cavalo do Zorro!". tá.
chegava o natal, revistinha do rato mickey. no ano seguinte, mesma pergunta,
mas, desta vez, pensando que, talvez por conta do cavalo, que devia custar uma
nota, é que eu nunca ganhava o que pedia, tirei o bicho do pedido. em vão... no
almoço de natal, revistinha do rato mickey... vendo-me murchar, 'Don' Angelo,
meu avô, não se conteve. cuspiu no prato uma castanha que estava comendo,
juntou os polegares às pontas de cada mão em concha e, agitando-as, disparou:

- ascuta me, Américo: sei pazzo?
- what's up? - provocou o tio américo, que adorava falar inglês menos para se
exibir e mais para irritar meu avô, sabendo-lhe o apego às suas raízes.
- uatis api mio cazzo! risponda me: sei pazzo?
- no, i don't. why?
- então, caspita ! qual o prazer de deixar uma criança triste?!
- mas eu não dei o presente?
- ah, fancullo! um aviso: nunca mais - mai, capice? - dê presente para meus
netos, capice?
- mas...
- capice, pezzo di merda?
- tá, tá, entendi...
- ecco!

e, com seu sangue siciliano ebulindo nas veias, 'Don' Angelo esmagou uma
noz com as bases das mãos, 'sinalizando', claro, que é o que faria com o crânio
do cunhado cretino, não fosse isso matar Giulia, a sua irmã, de desgosto, com
o que, além de tudo, sem o bolo de nozes que esta fazia, os natais nunca mais
seriam iguais - e natal, para o meu avô, era coisa muito séria; daí sua fúria.

'Don' Angelo foi um homem de amores plurais; assim, amou intensamente,
enquanto viveu, os netos e as mulheres - nesta ordem, graças à qual minha
avó, 'Dona Pina', assim o definia: - "um péssimo marido, um pai severo e um avô
de conto de fadas" - e foi, mesmo, tudo isso, mas eu tive a sorte de ser neto...
militar reformado, nunca foi rico, mas, para os netos - e para as "ragazzas",
claro - jamais negou nada, nunca aparecendo para ambos com as mãos vazias
[e, no natal, essa característica era elevada à enésima potência].

pelos netos, em dezembro, sossegava o "periquito", vivendo exclusivamente
para a família. ia ao banco, sacava todo dinheiro duma conta de poupança que
mantinha para o natal, na qual, de janeiro a novembro de cada ano, 'pingava'
toda grana que conseguia economizar. pegava o seu Maverick - que, pra mim,
nanico como fui em criança, parecia um iate -, juntava os netos, e íamos às 
compras - exceto as de nossos presentes, que essa era uma delícia toda dele.

filho de um comerciante de frutas, secos e molhados,
'Don' Angelo era um craque pra escolher as melhores e
mais variadas frutas. pelo toque e pelo cheiro, sabia se
eram, ou não, as mais deliciosas - idem para a escolha
das azeitonas e do azeite [siciliano, sempre, e o cheiro
deste nunca mais saiu de minha memória], bem como
do cordeirinho a ser assado e do vinho a ser bebido [até
pelas crianças, aos bocadinhos por ele, claro, servidos].

comprávamos ainda todos os ingredientes para as massas e doces que Dona
Pina preparava em casa - até os 9 anos, nunca comi massa industrializada -, e
mais: velas, adereços para a árvore que ele montaria, tudo de necessário para
receber "os cavaleiros e a princesa de meu reino", referindo-se, respectivamente,
aos 4 netos e à única neta de sua corte muito particular - e tudo isso em troca,
acredite, de ouvir uma única e mesma palavra de cada neto à sua pergunta:

- então: tutti bellissimo?
- ecco! - exclamávamos, individualmente, a palavra mágica.

e 'Don' Angelo, depois de ouvir 5 ecco, com o seu rosto de homem mais feliz
do mundo, ensopava um dos finos lenços que adorava ganhar. italianíssimo...
por aí, creio, dá para imaginar o que significou pra ele a babaquice do tal tio
Américo, à qual reagiu não só esmagando a noz, mas, faltou dizer, chamando-
me junto a si, colocando-me no seu colo e, com o maior sorriso, dizendo-me:

- ei, piccolo Zorro, que cara é esta, hãn? no natal do ano que vem, EU vou te
dar a tua capa, a tua máscara, a tua espada, e mais: vou te dar o teu cavalo!
- branco, vô?
- ecco!
- grande?
- bem - e olhou em direção ao Américo, antes de responder: - mezzo. pode?
- ecco!
- ecco! - repetiu 'Don' Angelo, com um sorriso diferente no rosto.

durante o ano, eu não pensava noutra coisa que não no cavalo que meu avô
me prometera. em outubro, comecei a ser preparado para a chegada do bicho -
e meu avô, com toda sua lábia, me convenceu de que ter um cavalo 'diferente'
era muito mais legal do que ter um cavalo igual a qualquer outro. concordei.

num domingo, estava na casa de meu avô. Palmeiras e São Paulo jogariam
uma partida decisiva, e meu avô estava muito agitado, nervoso. acendeu seu
cachimbo, colocou-me em seu colo, e me perguntou:

- quem vai ganhar, Zorro?
- o Palestra. de quanto, vô?
- não importa. basta ganhar - e viva o Palestra!
- viva!

5 minutos de jogo, gol do São Paulo. o cachimbo de 'Don' Angelo foi ao chão.
toca o telefone, minha avó atende e passa o aparelho pro meu avô, dizendo:

- é o Américo.

o tio Américo era tão são-paulino, mas tão são-paulino, que, rico, comprara
uma mansão no Morumbi, para facilitar a vida dos amigos que tinha no clube,
nos dias em que fazia festas pra estes.
meu avô, já esperando a gozação, atendeu.

- alô. sim... sei... caspita! já disse que sei! fancullo! o jogo apenas começou -
bum! bateu o telefone, e exclamou: - e viva o Palestra!
- viva! - acompanhei.

10 minutos para acabar o primeiro tempo. falta a favor do São Paulo. Pedro
Rocha, se não me falha a memória, vai bater. tem, dizem, um canhão no pé.

- vô, eu quero um canhão pra colocar no pé.
- filho, fica quietinho. vamos torcer pra bola acertar o placar.
- mas cê me dá um canhão pra colocar no pé?
- dou, mas depois.

gol do São Paulo. desta vez, eu - não o cachimbo -, é que vou ao chão, com o
salto que meu avô deu da cadeira, berrando palavrões, brigando com o locutor,
esquecendo-se de que eu estava em seu colo...

- desculpe, filho. foi sem querer que o vovô fez isso, ouviu?
- ouvi. me dá um canhão pra colocar no pé?
- dou, mas amanhã. hoje é dia de torcer pro Palestra. e viva o Palestra!
- viva!

toca o telefone.

- se for o filho da puta do Américo, diz que tô com a irmã dele, ligo depois.
- alô - atendeu 'Dona' Pina, que foi logo dizendo: - Américo, se eu fosse você,
ligava mais tarde.
- certo, Pina, mas fala pro Angelo não se esquecer do que...
- Américo - interrompeu minha avó.
- quê?
- fancullo!

começa o segundo tempo. 15 minutos de jogo, pênalti para o Palmeiras, que
Leivinha converte. toca o interfone, minha avó atende.

- sim, claro. mil desculpas. obrigado. - diz 'Dona' Pina, que desliga o aparelho
e fala para meu avô: - o síndico pediu pra fazer menos barulho.
- corintiano filho de uma puta, isso sim!

mais 10 minutos, Ademir da Guia cruza para César Maluco, que, de cabeça,
empata para o Palmeiras. indescritível, a reação de meu avô. toca o telefone -
desta vez, ele mesmo atende:

- parla, cornuto! grita agora, fala agora! o quê? da onde? sim, e daí? fancullo!
- quem era, o Américo? - quis saber minha vó.
- não, o síndico do prédio vizinho.
- e o que ele queria?
- pediu pra eu fazer menos barulho, o corintiano filho de uma puta.

o São Paulo, preferindo levar a decisão pros pênaltis, se fecha na defesa, e o
jogo fica amarrado, mas o Palmeiras insiste em tentar resolver o jogo no tempo
regulamentar. Luís Pereira vem com a bola lá de trás, da defesa palmeirense,
avança rumo ao meio-de-campo, e, quando um são-paulino vem marcá-lo, ele
toca para Dudu, que toca de primeira pra Leivinha, que dribla um, dribla outro,
avança e toca pra Ademir da Guia, que conduz a bola até a meia-lua com toda
a classe que lhe valeu o apelido de "Divino", corta um, desvia de um 'carrinho'
e, antes que 'Don' Angelo terminasse de mastigar o braço da poltrona, toca na
bola por baixo, esta encobre o goleiro e desce "lambendo" a rede, e o Palmeiras
vira o jogo. 3 a 2. faltando 1 minuto pra acabar, a torcida invade o campo. fim.

sentiram falta de algo e de alguém? eu também, no dia, porque 'Don' Angelo
não comemorou o gol, a vitória, o título, nada... saíra de mansinho da sala, pra
falar no outro telefone. ao encontrá-lo, vi que falava baixinho com alguém.

- era o tio Américo?
- não, filho, era a vizinha japonesa.
- e o que ela queria?
- não sei, filho, eu não falo japonês...

noite de natal. 'Don' Angelo, animadíssimo, entregando os presentes para
os netos. chega a minha vez.

- e a mio piccolo Zorro... questo!

qual prometera, 'Don' Angelo me deu a capa, a máscara e a espada do Zorro.

- e o cavalo, vô? - cobrei
- amanhã, na casa da tia Giulia.

mal dormi, aquela noite. já de manhã, as horas pareciam não passar, nada
de chegar a hora do almoço. me distraí com os apetrechos do Zorro, e usei um
cabo de vassoura à guisa de cavalo, e 'cavalguei' e enfrentei inimigos até ser
finalmente chamado para o banho, que tava na hora de ir à casa de tia Giulia.
fui vestido de Zorro, como recomendara 'Don' Angelo, para minha alegria, e,
lá chegando, tio Américo, com os seus cabelos brancos levantados de um jeito
muito engraçado, parecendo um moicano, ou parecendo ter uma crina, pegou-
me no colo, colocou-me sobre os seus ombros, e me disse:

- muito prazer, Zorro! meu nome é Pangaré, e eu sou o seu cavalo. Vamos?

e tio Américo saiu correndo pelo jardim enorme de sua casa, trotando e, eu
não entendi porque, gritando "Palestra, Palestra, Palestraaa!!", mas me diverti,
achando até melhor que um cavalo de verdade, que não gritaria "Palestra"...
eu o cavalguei por uns 5 minutos, até que meu avô veio, me tirou do ombro
de tio Américo, e disse:

- pronto, filho. depois você anda mais a cavalo.
- mas, vô, tava legal...
- dopo, filho, dopo. eu prometo. eu sou de não cumprir o que prometo?
- não.
- ecco! e você, Américo, vá se arrumar, vá.
- mas...
- caspita! vá se arrumar, que seus netos chegaram, porca miséria!
- olha, depois não venha me dizer que eu não paguei a...
- Américo, vá se arrumar pra receber seus netos! que prazer você tem em
deixar crianças tristes, dio santo!

na hora, fiquei injuriado, mas 'Don' Angelo, esperto, me distraiu rapidinho,
retomando aquela conversa sobre comprar um canhão para o pé, e aí, claro, o
"cavalo" não importava mais.
tempo depois, já crescidinho, ele já morto - 1982 -, é que pude, finalmente,
entender a dimensão emocional de 'Don' Angelo, "péssimo marido, pai severo e
um avô de conto de fadas". era mesmo. inclusive para netos que não os seus.


~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ pz ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~



Marcelo Carota é jornalista, escritor, zineiro, paulista e palmeirense. 
Mora em Brasília/DF e se auto-denomina um caipira punk.


Texto editado originalmente em 19/12/2007 na Pirata Zine (zine eletrônica), edição 107, ano 4.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Resumo da Chuva 2014


E mais um ano cruza a reta final e está pronto para receber a bandeirada! É este tragicômico 2014. A gente não quer mais te ver por aqui.

E se as eleições deram pano para outras mangas e muitas cartas escondidas, acusações e bandalheiras por todo o Brasil, fabricação de factóide, revistas jogando o jornalismo na lama, em movimentos de puro desespero e panfletagem, e outros fatos lamentáveis, nada foi mais representativo do que o Lobão com suas passeatas totalmente Vida Bandida. Nada, absolutamente nada, foi tão risível e deprimente do que assistir um ídolo definhar intelectualmente – e olha que a concorrência foi dura. Muitos quiseram o seu lugar, mas ele não deixou. Como um bom Lobo, tratou de morder o seu nicho inverossímil, de convicções ébrias e etéreas e foi pra rua com o seu chapéu de Napoleão e a barba da Al-Qaeda. Melhor, impossível.

No terreno das mortes o fôlego de Zé Maria deu inveja a muito maratonista. Foi de uma congestão hercúlea. Desde as mais rotineiras às chocantes. Eusébio (o Cristiano Ronaldo dos tempos em que, para ser craque, tinha que ser pintor), Philip Seymour Hoffman (Boogie Nights, Capote, Magnólia, Jogos de Poder... Tá bom?), Eduardo Coutinho, José Wilker, Gabriel Garcia Márquez (Puta-que-pariu!), Jair Rodrigues, Mãe Dinah (que, infelizmente, não previu a própria morte, nem a de ninguém), João Ubaldo, Suassuna (sacanagem, porra!), Rubem Alves, Robin Williams (fez Bom Dia Vietnã e Sociedade dos Poetas Mortos, pra mim já tá bom, entrou pra história), Eduardo Campos (Não me dizia nada, mas foi trágico, forte), Antônio Ermínio de Moraes, Hugo Carvana, Leandro Konder, Manoel de Barros (o encantador de passarinhos). Bem, eu não vou nada bem...

E, enquanto ia numerando (com a ajuda do oráculo google, o novo grande arquiteto do universo) os mortos que me convinham, a Alemanha fazia o gol número 7.700 contra o Brasil.

Mas nem tudo foram lágrimas! Teve um tal de Haddad, louco de pedra, que foi contra a postura patropi da política brasileira e, invertendo a lógica tupiniquim, abriu guerra contra o retrocesso em Sampa. Teve o Chico lançando livro, o Pink Floyd se despedindo, escândalos de corrupção às toneladas (sinal de que estamos investigando os branquinhos dentro dos seus condomínios de luxo e não, apenas, o preto favelado), as 1.000.000 de pessoas protestando no Centro do Rio de Janeiro (e a globo dizendo ser 100 mil), Brasília ocupada de forma magnífica (êta povo bom! Só quem não conhece a história desse povo pode cometer a asneira de falar em gigante acordando...).

Aliás, o exoesqueleto não foi du-caralho?E a Malala Yousafzai? Linda criança no ápice do mundo! 

O Botafogo caiu... Mas convenhamos: tem coisas que só acontece com o Botafogo.




Chega de eufemismos



Num longo ensaio publicado seis meses atrás na revista “New Yorker”, o jornalista Adam Gopnik disserta sobre linguagem e eufemismos. O autor sustenta que é preciso coragem para eliminar o clichê e o eufemismo do nosso discurso, pois significa estarmos dispostos a chegar mais perto da verdade.

“Sempre que falamos de forma direta sobre algum tema que atrai camadas de mentiras estamos promovendo a sanidade da nação”, escreveu Gopnik. Ou, como dizia George Orwell, metáforas surradas não passam de uma sopa de palavras destituídas de qualquer poder evocativo, que servem de muleta ao orador sem imaginação ou àquele com algo a esconder.

De fato, como demonstrou o laborioso relatório final da Comissão Nacional da Verdade divulgado semana passada em Brasília, abordar temas cabeludos sem recorrer a malabarismos linguísticos acaba apontando para responsabilidades reais. E assim, sem meandros, a tortura praticada no período da ditadura militar brasileira foi qualificada como política de Estado. E os responsáveis finais por essa política de Estado estão listados nominalmente, começando pelo mais alto escalão. A História agradece. E a História do Brasil se engrandece.

A publicação do relatório da Comissão de Inteligência do Senado dos Estados Unidos sobre o abuso de poder da CIA entre 2001 e 2009 foi mais oblíqua na questão da responsabilidade final. Mas teve o mérito de acabar com uma das mais perversas sopas de palavras criadas e manipuladas pelo governo de George W. Bush — o eufemismo “Técnicas de interrogatório avançadas”, por vezes também chamado de “conjunto de procedimentos alternativos”.

No lugar desses eufemismos de sonoridade funcional, asséptica e enganosa, o relatório de 6.700 páginas e 38 mil notas de rodapé usa o substantivo correto, de compreensão universal: tortura. A partir de agora, todo cidadão americano terá de aceitar a responsabilidade de saber que autoridades de seu país optaram por transformar agentes em torturadores.

Apesar da avalanche de evidências, o atual diretor da CIA, John Brennan, não se sentiu capaz de pronunciar a palavra crua e nua em seu depoimento perante a comissão. Optou por designar como “métodos repugnantes” o elenco de atrocidades cometidas pelos serviços de inteligência. “Os interrogatórios eram cuidadosamente calibrados e humanos”, acrescentou em seu testemunho o ex-agente Melvin Goodman. E José Rodriguez, o mais graduado chefe de operações responsável pelo programa de tortura, ainda defendeu a prática como “tendo recebido o aval das mais altas autoridades jurídicas do país e ter sido aplicada por profissionais altamente treinados”.

Nessa linha, o descompasso mais grotesco entre fato e fantasia ficou a cargo de Michael Hayden. Por ter sido um dos diretores da CIA de George W. Bush, foi inquirido sobre a reidratação retal que fazia parte do balaio de abusos. “Alto lá”, indignou-se Hayden, “eram procedimentos médicos voltados para a recuperação de prisioneiros desidratados. Não podíamos recorrer a injeções intravenosas por estarmos lidando com detentos não cooperativos”.

No implacável relatório da comissão senatorial americana, porém, consta o telegrama de um agente relatando que o detento Majid Khan recebera o seu “almoço do dia (homus, macarrão com molho, nozes e uvas passas) por inserção retal. Usamos o tubo Ewal maior que tínhamos”. Um chefe da equipe de interrogadores listado no relatório confirmou a eficácia do método da reidratação retal: obtém-se o “controle total” do preso. O procedimento “limpava a cabeça” da vítima, testemunhou outro interrogador.

Perdida a batalha contra a divulgação do relatório, os apologistas das “técnicas de interrogatório avançadas” deslocam-se agora para outra trincheira. Tendo à frente o cavernoso Dick Cheney, vice-presidente à época e homem-forte do governo Bush, tentarão refutar as conclusões do trabalho e desmontar a acusação de que o Poder Executivo, o Congresso e o Departamento de Justiça receberam informações incompletas e equivocadas sobre o programa. “Tudo besteira”, diz Cheney, sem mexer qualquer músculo da fisionomia inescrutável. “O programa foi autorizado. A CIA não procederia sem autorização e tudo foi revisado pelo Departamento de Justiça antes de ser deslanchado.”

A sombria tagarelice de Cheney recebeu uma resposta alentadora por parte do veterano Ray McGovern, que por três décadas serviu a seu país como oficial de Inteligência do Exército e analista da CIA. “Hoje ninguém mais pode ‘autorizar’ a tortura. Nem o estupro. Nem a escravidão”, escreveu McGovern, hoje membro de um grupo intitulado Veteranos Profissionais de Inteligência Pró-Sanidade (VIPS). “A tortura faz parte da categoria moral que os estudiosos de ética classificam como mal intrínseco — o fato de ela dar ou não algum resultado é irrelevante.”

Segundo essa linha de pensamento, torturar é errado não pela existência de uma Convenção da ONU e de leis nacionais que a proíbem. Ocorre o contrário. As proibições legais foram sendo construídas porque as sociedades civilizadas reconheceram que seres humanos não devem torturar, ponto.

Joseph Brodsky, o poeta e ensaísta que emigrou para os Estados Unidos após ser expulso da União Soviética, escreveu: “A vida é um jogo cheio de regras, mas sem árbitro. Aprende-se a viver observando o jogo, mais do que consultando qualquer livro, inclusive o Livro Sagrado. Nenhuma surpresa, portanto, que tantos trapaceiem, que tão poucos vençam, que tantos percam.”

Para o detentor do Nobel de Literatura, o perigo está no homem que não sabe argumentar ou se expressar de forma adequada — ele acaba recorrendo à ação. “E dado que o vocabulário da ação limita-se, por assim dizer, a seu corpo, esse ser humano agirá com violência e estenderá seu vocabulário com uma arma no lugar do que poderia ser um adjetivo.”

A Comissão da Verdade brasileira e o relatório sobre Tortura do Senado americano certamente alegrariam a alma dividida do poeta.


Dorrit Harazim é jornalista