sábado, 18 de outubro de 2014

Por que eu voto (novamente) em Dilma Rousseff?


Não podemos tampar o sol com a peneira. Houve erro e provavelmente muito roubo na gestão da Petrobrás. O caso da refinaria de Pasadena é o paradigma disso e este é o calcanhar do valente guerreiro Aquiles do atual Governo.

Entretanto, mantendo minha posição de 2010, quando firmei meu voto em Dilma Rousseff, não tenho simpatia nem pelo PT, nem pelo PSDB. Ambos os partidos sempre fizeram alianças espúrias e cometeram atos nefastos em nome da governabilidade, rezando pela cartilha de Maquiavel de que os fins justificam os meios...

Só que no governo do PSDB, o Brasil avançou na miséria e na desigualdade social, enquanto o PT, criou escolas, faculdades, concedeu bolsas de estudos e retirou 42 milhões de pessoas da extrema pobreza.

Para mim, este continua a ser o argumento definitivo.


O BRASIL REAL - DE 2002 A 2013
Por Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira. Fonte: Pátria Latina


1. Produto Interno Bruto: 
2002 – R$ 1,48 trilhões
2013 – R$ 4,84 trilhões 

2. PIB per capita:
2002 – R$ 7,6 mil
2013 – R$ 24,1 mil

3. Dívida líquida do setor público: 
2002 – 60% do PIB
2013 – 34% do PIB

4. Produção de veículos: 
2002 – 1,8 milhões
2013 – 3,7 milhões

5. Safra Agrícola: 
2002 – 97 milhões de toneladas
2013 – 188 milhões de toneladas

6. Investimento Estrangeiro Direto: 
2002 – 16,6 bilhões de dólares
2013 – 64 bilhões de dólares

7. Reservas Internacionais:
2002 – 37 bilhões de dólares
2013 – 375,8 bilhões de dólares

8. Empregos Gerados: 
Governo FHC – 627 mil/ano
Governos Lula e Dilma – 1,79 milhões/ano

9. Taxa de Desemprego: 
2002 – 12,2%
2013 – 5,4%

10. Falências Requeridas em Média/ano: 
Governo FHC – 25.587
Governos Lula e Dilma – 5.795

11. Salário Mínimo: 
2002 – R$ 200 (1,42 cestas básicas)
2014 – R$ 724 (2,24 cestas básicas)

12. Dívida Externa em Relação às Reservas:
2002 – 557%
2014 – 81%

13. PROUNI – 1,2 milhões de bolsas

14. Salário Mínimo Convertido em Dólares:
2002 – 86,21
2014 – 305,00

15. Exportações:
2002 – 60,3 bilhões de dólares
2013 – 242 bilhões de dólares

16. Inflação Anual Média:
Governo FHC – 9,1%
Governos Lula e Dilma – 5,8%

17. PRONATEC – 6 Milhões de pessoas

18. Taxa Selic:
2002 – 18,9%
2012 – 8,5%

19. FIES – 1,3 milhões de pessoas com financiamento universitário

20. Minha Casa Minha Vida – 1,5 milhões de famílias beneficiadas

21. Luz Para Todos – 9,5 milhões de pessoas beneficiadas

22. Capacidade Energética: 
2001 - 74.800 MW
2013 - 122.900 MW

23. Brasil Sem Miséria – Retirou 22 milhões da extrema pobreza

24. Criação de Universidades Federais: 
Governos Lula e Dilma - 18
Governo FHC - zero

25. Criação de Escolas Técnicas:
Governos Lula e Dilma - 214
Governo FHC - 11
De 1500 até 1994 - 140

26. Desigualdade Social: 
Governo FHC - Queda de 2,2%
Governo PT - Queda de 11,4%

27. Produtividade: 
Governo FHC - Aumento de 0,3%
Governos Lula e Dilma - Aumento de 13,2%

28. Taxa de Pobreza:
2002 - 34%
2012 - 15%

29. Taxa de Extrema Pobreza:
2003 - 15%
2012 - 5,2%

30. Índice de Desenvolvimento Humano:
2000 - 0,669
2005 - 0,699
2012 - 0,730

31. Mortalidade Infantil:
2002 - 25,3 em 1000 nascidos vivos
2012 - 12,9 em 1000 nascidos vivos

32. Gastos Públicos em Saúde:
2002 - R$ 28 bilhões
2013 - R$ 106 bilhões

33. Gastos Públicos em Educação:
2002 - R$ 17 bilhões
2013 - R$ 94 bilhões

34. Estudantes no Ensino Superior: 
2003 - 583.800
2012 - 1.087.400

35. Risco Brasil (IPEA):
2002 - 1.446
2013 - 224

36. Operações da Polícia Federal:
Governo FHC - 48
Governo PT - 1.273 (15 mil presos)

37. Varas da Justiça Federal:
2003 - 100
2010 - 513

38. 40 milhões de pessoas ascenderam à Nova Classe Média (Classe C) e 42 milhões de pessoas saíram da miséria.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Delação Premiada: lendas, mitos, talvez verdades

Por Carlos Brickmann
Observatório da Imprensa


Como dizia a vovó, gato escaldado tem medo de água fria. Cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça. Cidadãos normais, quando o governo anuncia que o preço da gasolina não vai subir, vão ao primeiro posto para encher o tanque. Pois caldo de galinha e bom senso nunca fazem mal a ninguém.

Observando o país real, nada mais justo do que acreditar, sempre que alguém acusa uma estatal, que houve mesmo superfaturamento. Se há empreiteiras no negócio, coisa boa não é. E se alguém anda com um belo dinheiro no bolso, embora nenhuma lei o proíba – é perigoso, porque bandido é o que não falta, mas não é ilegal – pode prender o afortunado, porque alguma deve ter aprontado.

Tudo isso pode estar errado, mas é fácil de entender: já vimos este filme muitas vezes, e no fim sempre roubam a bilheteria. O que é difícil entender é a cega confiança em delação premiada. O sujeito está preso, sujeito a toda sorte de constrangimentos, sua família é constantemente ameaçada daquilo a que chamam de esculacho, informações são vazadas todos os dias, a conta-gotas, para destruir sua reputação; e ele é informado de que, se não colaborar, estará sujeito a centenas de anos de prisão. Em compensação, se colaborar, passa do inferno ao céu de um dia para outro, com direito aos gozos dos bem-aventurados.

Este colunista não entende nada de Direito; bons amigos, da área, acham que tudo está bem. Mas não consegue ver direito a diferença entre as ameaças ao preso e sua família e as torturas físicas que todos condenamos. Não há, ao que se saiba, violência física; mas a violência moral contra o preso escolhido como candidato à delação premiada é permanente.

A justificativa da delação premiada não é, porém, o tema deste colunista – entre outras dezenas de motivos, por não entender nada de Direito. O que parece assustador é a confiança dos meios de comunicação nas informações obtidas por esse meio. Digamos que o prisioneiro seja informado de que, quanto melhor se comportar, quanto mais gente de determinadas listas apontar, mais benefícios terá com a delação premiada. Digamos que, para amarrar direitinho uma boa história de acusação, seja necessário incluir na trama alguém absolutamente insuspeito – alguém, por exemplo, como a Madre Tereza de Calcutá.

Voltemos ao delator (eta, palavra mais carregada de significados negativos!). Não podemos esperar dele que tenha a moral ilibada; ou não teria participado das manobras que agora denuncia. Também não podemos esperar que esteja absolutamente tranquilo, imune a eventuais pressões e ameaças à senhora sua mãe, à senhora sua esposa, a seus filhos e outros parentes. Não é lógico que resista: se quiserem que delate São Francisco de Assis, ele o fará. Ou não, como diria Caetano Veloso. E como é que os meios de comunicação irão distinguir a falsa delação da delação verdadeira? Investigando, ouvindo gente, tentando entender a papelada. Mas o que se vê, hoje em dia, é que não há jornalistas investigando o caso do “petrolão”: há repórteres, ótimos repórteres, usando seus bons contatos para obter, das autoridades, os vazamentos mais saborosos.

Laudos? OK, os laudos são importantes. Mas já houve laudos que apontaram problemas em próstatas de mulheres, lembra? Um repórter, grande amigo deste colunista, descobriu que seu índice de PSA, importante indicador de câncer na próstata, estava altíssimo. Seu irmão, médico, desconfiou, e mandou refazer o exame. O PSA estava normal. Foram ao laboratório do primeiro exame, um grande e bem reputado laboratório, e descobriram que lhe tinham entregue um laudo errado. E o tempo de terror que passou entre a descoberta do índice do primeiro laboratório e o índice normal do segundo laboratório? Não há maneira de compensar esse tipo de falha.

Este colunista viu laudos diversos no caso PC Farias, contraditórios, mas todos atestados por profissionais reconhecidos.

Voltemos ao tema original.

1. Um cidadão submetido às pressões habituais para que se transforme num delator premiado é digno de confiança? Quem garante que o que diz é verdade?

2. Considerando-se que o prisioneiro está nas mãos dos acusadores, quem garante que se comportarão como bons meninos, incapazes de tentar influir nas narrativas do delator?

Só há uma maneira de a imprensa lidar com esse tipo de caso: da mesma maneira que o irmão médico do repórter com PSA alto. Buscar confirmação em outra fonte, estudar profundamente o caso, envolver-se na pesquisa, duvidar dos presentes informativos que recebe. E lembrar-se de que a função do jornalista não é confiar em ninguém, muito menos em autoridades. A função do jornalista é desconfiar sempre – e mais desconfiar quanto mais poderosa for a fonte.


Faltou combinar com os russos


As urnas trouxeram más notícias para os institutos de pesquisa no domingo passado (5), quando parte das previsões eleitorais aferidas na véspera ou até na boca de urna foram atropeladas pela apuração.

As divergências entre previsão e apuração afetaram a credibilidade das pesquisas e levaram junto a cobertura dos jornais, amplamente escorada nos levantamentos --nunca as pesquisas eleitorais foram tão predominantes como neste ano.

Além delas havia basicamente mais dois ingredientes: trocas de acusações entre candidatos e denúncias de corrupção. O primeiro é o prato-feito fácil de todas as campanhas eleitorais, aquecido pela polarização e pelo micro-ondas insano de blogs e redes sociais.

No segundo, o protagonismo é do Ministério Público Federal, e os jornais ficaram no papel de publicar títulos e manchetes quase sempre construídas com um fio de notícia, em vazamentos feitos a conta-gotas por gente envolvida na investigação. O lide das reportagens trazia dois dedos de novidade, e o restante do texto era contexto e memória do que já havia sido publicado.

Nesse cenário desanimador, o infortúnio ajudou a pauta, e a adversidade que jogou Marina Silva na disputa garantiu uma montanha-russa que aumentou o trabalho dos institutos e facilitou o das Redações. Em 44 dias, a Folha deu oito manchetes para o Datafolha e uma para o Ibope, fora os títulos menores.

Pelo predomínio e pela influência das pesquisas no noticiário --e nos votos--, era obrigatório que o jornal fizesse uma avaliação consistente das divergências entre urnas e pesquisas, abordando os casos um a um e tentando fornecer explicações claras para não dar margem a desconfianças sobre manipulação.

Não foi o que aconteceu. A reportagem publicada na terça (7) soou como discurso chapa-branca, com título anódino (“Institutos de pesquisa sofrem críticas”) e linha-fina que dizia que as diferenças haviam gerado reclamações de políticos. Não foram só eles, a grita foi geral. Não foram só reclamações, foi incompreensão e desejo de entender.

Observei a inconsistência na crítica interna, ponderando que jornal deveria ter procurado outros especialistas, para ouvir opiniões independentes. Deveria ter aprofundado a discussão sobre as metodologias adotadas e seus limites.

A Secretaria de Redação acha que minha crítica está errada, porque parte do pressuposto de que os números da apuração precisam ser iguais aos da pesquisa e argumenta: “Quando o resultado da urna é igual ao da pesquisa divulgada na véspera, não é acerto do instituto. É apenas indício de que não houve transferência relevante de votos no sábado e no domingo, quando as pessoas mais falam de eleição”.

Bom, o jornal costuma celebrar o acerto quando os números coincidem. Deveria parar de fazê-lo. Depois, o problema não é do pressuposto, e sim do tratamento conferido a dados que deveriam ser extensivamente relativizados.

Conversei com Mauro Paulino e Márcia Cavallari, responsáveis pelos dois principais institutos de pesquisa, que enfatizaram as condicionantes das pesquisas. Paulino me informou, por exemplo, que dois terços das entrevistas do Datafolha foram feitos na sexta e um terço na manhã de sábado. Ele diz que havia um movimento de mudança de voto iniciado com o debate da “TV Globo” (em que Marina Silva foi mal) e intensificado ao longo do fim de semana pelas pesquisas de sábado, que deram o tucano em ascensão. O índice foi mudando.

A explicação faz sentido, mas nenhuma dessas ressalvas era contemplada na reportagem do domingo nem nas explicações de terça. No dia da eleição, havia uma longa análise do Datafolha, mas esses aspectos não eram mencionados.

Houve outras diferenças até mais gritantes que a da disputa presidencial, mas não é papel da ombudsman avaliar o desempenho dos institutos de pesquisas. É do jornal, que faz desses levantamentos a peça de resistência de seu noticiário.

A Secretaria de Redação afirma que a cobertura da Folha é cuidadosa e não trata pesquisa como tentativa de previsão do resultado das urnas. Se é essa a percepção, é bom acender a luz amarela, porque os russos não estão entendendo.

***
Vera Guimarães Martins é ombudsman da Folha de S. Paulo


sábado, 11 de outubro de 2014

WandNews - 59ª edição


E é chegada a edição de número 59 da sua WandNews, a coluninha que vem recheada com os absurdos mais sensacionais da semana.

Hoje temos a dignidade médica como escudo do chorume, a revista VEJA trocando “Guerra e Paz” por “Walt Disney”, a retumbante ignorância da revolta bandeirante contra nordestinos, e um Wando Responde ao separatista.


CHORUMINHO

Muitos comentaristas gostam de dizer que minha intenção é dividir o Brasil entre brancos e negros, pobres e ricos, norte e sul. É como se vivêssemos em plena igualdade de condições, sem conflitos de qualquer tipo, numa harmonia social de fazer inveja a qualquer país escandinavo. Hoje vamos dialogar com um chorumito que mostra que a realidade é bastante diferente.

Uma comunidade de quase 100.000 médicos e estudantes de medicina no Facebook foi alvo de uma reportagem do IG, que mostrou o peculiar ativismo político de alguns doutores brasileiros. O grupo não poderia ter um nome mais adequado: 


E é com toda essa dignidade que alguns integrantes têm destilado ódio contra quem não escolheu o mesmo candidato da maioria da classe médica. Segundo a reportagem, os militantes-doutores "pregam ‘castrações químicas’ contra nordestinos, profissionais com menor nível hierárquico, como recepcionistas de consultório e enfermeiras, e propõe um ‘holocausto’ entre os eleitores da petista"

Quanta dignidade! Médicos pisoteiam o Juramento de Hipócrates em público e propõem métodos nazistas para impedir a proliferação daqueles que optaram por um outro projeto político.

Uns confessam fazer campanha com pacientes dentro do consultório, outros dizem colocar ”a recepcionista no lugar dela” ameaçando com demissão caso Dilma ganhe.

Algumas frases revelam o tamanho da sensibilidade social desses médicos:

Um verdadeiro pot-pourri de chorumes encharcados de ódios contra quem não compartilha do mesmo nível hierárquico desses deuses do Olimpo. Sem muito o que dizer diante desse holocausto de dignidade, encerro a seção mais nobre dessa coluna com um trecho do Juramento de Hipócrates:



BEIJO NO CORAÇÃO

Em 1983, dois cientistas alemães da Universidade de Hamburgo revolucionaram o mundo da ciência. Uma fusão entre células de um boi e células de um tomate criou o “boimate”, o “fruto da carne”.

Essa notícia era uma brincadeira de 1º de abril da revista New Scientist, mas VEJA levou muito a sério. Além de criar um diagrama explicando o processo, a revista entrevistou um biólogo pra comentar a anedota com ares científicos. 

O beijo no coração não tinha como não ser pra revista, que novamente ficou confusa e protagonizou mais um capítulo da série “boimate”. 

Na última sexta, em entrevista dada a Globo depois do debate presidencial, Eduardo Jorge se saiu assim quando perguntado sobre o uso da maconha:

" (…) prefiro ler Tolstói, Romain Rolland, observar pássaros, brincar com meu neto, jogar futebol. Tenha paciência!"

Mas a VEJA entendeu:

"Prefiro assistir a Toy Story com meu neto ou jogar futebol”

Além da edição magistral das falas do candidato, a revista trocou o nome do escritor russo por o de um desenho animado da Disney. 

Se cientistas alemães pudessem fundir células de Tolstói com células de Buzz Lightyear, o personagem de Toy Story, talvez conseguiríamos criar esse incrível personagem:



IMAGEM WANDALIZADA

Mesmo com tantos motivos pra criticar o governo e sua candidata, a revolta contra os eleitores mais pobres parece ser mesmo a tática preferida de alguns militantes opositores.

Se você acha que os médicos esvaziaram os reservatórios de chorume, prepare-se para ler um texto vindo diretamente das profudenzas do volume morto, O manifesto anti-nordeste foi publicado na Revista Actual, que circula gratuitamente pelo interior de São Paulo. O título da coluna é “DESESPERO”:


O colunista Anderson Magalhaes propõe uma estratégia terrorista pra dificultar a participação dos pobres na festa da democracia. A coluna começa até que bem tranquila:

"Ainda tem salvação!!! Nesta eleição, diga não ao povão e faça com que a Dilma e sua corja perca seus votos na última hora”

Até aí, nada tão absurdo perto das declarações feitas no “Dignidade Médica”. Preste atenção apenas no erro de concordância em negrito, ele lhe será útil daqui a pouco.

"Vamos fechar as bocas de urna e as bocas de fumo, trancar as nossas ‘secretárias do lar’ em casa, interditar as casas de forró e proibir os porteiros de saírem dos prédios. Vamos paralisar todas as linhas de trem e ônibus, tirar a tv aberta do ar e obrigar todos assinarem pay per view. Subornar todos os que tenham ajuda de custo para o supermercado. Cancelar os vôos vindos do Nordeste e fazer sanções econômicas à Bahia enquanto Carlinhos Brown não prometer voto de silêncio … Ate la, Salvador e adjacências vão viver apenas do que produzem: dendê, cocada e Luiz Caldas"

A coisa alcançou um nível tão chorumesco, que chego até imaginar que o colunista seja um petralha infiltrado na revista pra difamar a oposição.

Mas tudo que está ruim ainda pode piorar:

Alagoas, Piaui e Maranhão ficariam de fora do cenário eleitoral por falta de quorum alfabetizado. E, para ter seu voto validado, todos terão de formular uma frase inteira sem erros de concordância e com todos os plurais - a regra vale para Goias e Tocantins, que politicamente pertencem a região Norte. Será que da certo?

Numa democracia isso não dá certo, não, querido. Sua proposta é o mais puro creme de chorume fascista. E, nesse mundo idealizado, está claro que sua carreira de carrasco gramatical seria um fracasso


WANDO RESPONDE

No post "Fernando Henrique o preconceito contra o nordestino", em que escrevo sobre a desqualificação histórica do nordestino em períodos eleitorais, um bandeirante confuso apareceu pra dar um recado aos leitores:


(Siga-me no Twitter: @JornalismoWando)



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Parte 5

Não, eu já não queria mais fazer parte de banda alguma. Já tinha tocado em 04 bandas de garagem e, pelas minhas próprias limitações técnicas e gosto pelo experimentalismo, não tinha a menor chance de fazer parte de algo profissional – eu não passaria na prova da OMB nem se estivesse preparado.
            Então, estava bastante acomodado no meu objetivo de sentar na cadeira das Letras e lecionar (trabalhar com jornalismo, quem sabe?), escrever um romance medíocre ou ser só um bêbado, mesmo. Meus amigos de outras músicas (meu brother da vida toda Thiago Sá e o baixista de mão cheia Luy Trindade) conseguiram pular para um outro patamar; estavam finalmente tocando com profissionais da melhor estirpe. E eu, no meu melhor namorinho de portão, biscoito, café, apenas torcendo para que eles chegassem lá, no topo. Mereciam.
            E um ano depois, eu já quase “juntado”, achando absorvente na minha gaveta de cuecas, recebi um telefonema do Thiago. “Cara, que cê tá fazendo? Vamos tocar de novo? Tem vaga procê aqui.” Pronto, eu estava dentro outra vez. Os ensaios eram no estúdio da banda. Fantástico. Eu nem precisava levar o meu teclado de iniciante. Eles tinham 03 Rolands, mesa com uma porrada de canais, foda, tudo foda. Fiquei meio embasbacado. Olhei pro meu irmãozão e disse: “cara, não sei, não.” Ele retrucou com um “foda-se, toca alguma coisa aí.” Toquei Fátima, do Capital. Todos sabiam e ficou razoável. Passaram-me um repertório para o nosso primeiro show juntos. Eu precisava “tirar” as músicas e ensaiar. Estava dentro. Sem merecimento algum, por pura amizade. Confiança.
            E foi bom enquanto deu pra ser e melhor ainda as apresentações. Porra, é bom fazer parte de algo pretensioso, mas eu era limitadíssimo e estava vislumbrando uma coisa diferente. A banda queria ser Jota Quest e Creed; eu, Radiohead. A banda ouvia Steve Vai, eu gostava mais da pegada do Satriani. Eles queriam o sucesso. O sucesso me amedrontava. Eu queria experimentar, colocar computador junto com teclados, fazer um Bjork com pegada Rock’n’roll e Peter Gabriel. Sei lá. Acho que, no final, eu sempre fui apenas um letrista que tocava numa banda. Eles mereciam continuar. Eram fodas juntos.


            E o Thiago continuou meu amigo e eu continuei ouvindo minha Legião, Pink Floyd, Smiths, Hootie, Radiohead, meu sertão e metrópole, sem teogonia.Outras veredas.
            Uma vez encontrei a garota com cabelo de James Dean. Tinha dois filhos lindos e continuava com aquele sorriso carnudo e maravilhoso. Minha filha brincou com a dela e sorríamos. Ela disse que tinha sido bom me ver. E foi para ambos. Estávamos vivos e bem e isso é tudo. Nunca mais toquei numa banda.
            Mas ainda ouço a música. Ainda ouço a música.


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As outras partes da mesma história:




            

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sob a Pele


            Não, não foi fácil. Quando terminou o filme, senti um certo desconforto e irritação. Achava ter perdido o meu precioso tempo. Filme lento com ênfase nas situações evolutivas de aprendizagem, cálculo ou conflito do alienígena Johansson.
            Não, não foi fácil, mas depois veio aquele incômodo que me norteou por algum tempo depois da projeção. Sensação de ter perdido alguma coisa, alguma chave que deixava cair entre a dúvida do tédio e a incerteza da obra produzida.
            Não, meus amigos, Sob a Pele (Under the Skin) não é um filme com a deusa Scarlett Johansson nua. É, antes, o oposto disso. A nudez ali não tem sintonia com o erotismo. Há muito mais sensualidade e pornografia no seu andar sedutor, conduzindo as suas “presas” para o inevitável destino, aliado ao seu olhar hipnotizador e sorriso de esfinge Mona Lisa, do que o seu corpo despido. O corpo, quando confrontado no espelho, serve, apenas, para a amálgama entre a imagem e o alienígena. É o outro cultuando a nós, tentando ser-nos, como uma celebridade que, no olimpo, precisa dos mortais para poder existir. Copula com eles. É a atração da estrela e o seu povo.
            E depois de andar no nosso meio e se alimentar de nós mesmos, eis que o processo evolutivo o impulsiona para a trágica humanização. E é quando, justamente, aprende a nos amar que, confrontada no espelho, encontra a morte pelas mãos desumanas e cheias de instinto.
           Sob a Pele é sobre a nossa sociedade cultuadora, sobre nossos espelhos e sobre o outro (que caminha sobre a água) que nós queríamos ser (ou confrontar).
            Bom ou ruim, causa reflexão. Só não sei se vi um filmaço.


Under the Skin – 2013 – Direção: Jonathan Glazer


O Brasil e os próximos anos



À medida que estamos mais perto da eleição, se evidencia também a necessidade de avaliar as opções estratégicas que aguardam o Brasil nos próximos anos. 

Hoje, muita gente acha que se nos aproximarmos muito do mundo em desenvolvimento, como a América do Sul, África e as potências emergentes às quais estamos unidos no BRICS - Rússia, Índia, China, África do Sul - estaremos nos afastando cada vez mais da Europa e dos EUA.

Há, entre certos tipos de brasileiros, os que continuam cultuando apenas o que existe em Nova Iorque, Miami ou Paris, como se não existisse mais nada neste mundo, e os arranha-céus mais altos do planeta não estivessem sendo construídos – para ficar apenas no símbolo de modernidade e pujança das “skylines” que fizeram a fama dos EUA – em cidades como Moscou, Dubai, ou Xangai.

Ataca-se a China por censurar o Google, mas não se atacam os EUA por usarem a internet para espionarem e chantagearem milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo nações de quem se dizem “aliados” como é o caso do Brasil e da Alemanha.

Atacam-se os países do MERCOSUL por nos impor barreiras comerciais, mas não a Europa e os Estados Unidos por terem feito conosco exatamente o mesmo, nos últimos 200 anos, bloqueando – sempre que puderam - o desenvolvimento de tecnologia em nosso continente e absorvendo, antes e depois de nossa independência, basicamente matérias-primas.

Muitos esquecem que o MERCOSUL, com todas suas barreiras, continua o maior, e, às vezes, o único destino para nossas manufaturas. Que só para países como a Venezuela temos aumentado nossas exportações nos últimos anos.

Isso, enquanto têm diminuído nossas vendas e nossos ganhos – e os do resto do mundo - com a Europa e os EUA, no esteio das consequências de uma crise que já dura vários anos e que teve sua origem na desorganização e irresponsabilidade do sistema financeiro que está sediado ao norte da linha do Equador. 

A pergunta que cabe que nos façamos nos próximos anos é a seguinte: a que mundo pertencemos?

Ao da Europa e dos EUA, que sempre nos trataram como colônia e cidadãos de segunda classe a ponto de termos tido milhares de brasileiros expulsos de seus aeroportos há pouquíssimo tempo? 

Ou ao mundo em desenvolvimento, onde a cooperação e a necessidade de agregar centenas de milhões de pessoas a uma vida mais digna abre a porta para a oportunidade da realização de acordos e negócios que podem influenciar e melhorar também nosso futuro?

Assim como ocorre na área comercial e diplomática, o Brasil precisa melhorar sua condição de negociação com os EUA e a Europa na área de defesa, usando, para isso, a perspectiva e a ameaça, sempre presentes, de nos aproximarmos, também nessa área, cada vez mais dos BRICS.

Os Estados Unidos e a Europa sempre se mostraram refratários a transferir tecnologia sensível ao Brasil e a outras nações latino-americanas.

Os avanços conseguidos nesse campo pelos governos militares foram feitos a fórceps, como ocorreu nas áreas bélica e aeroespacial, depois do rompimento, pelo Governo Geisel, dos acordos de cooperação com os EUA na área militar, e a aproximação com a Alemanha no campo da utilização pacífica da energia atômica.

Os países “ocidentais” só aceitam transferir um mínimo de tecnologia bélica para países como o Brasil, quando a isso se veem obrigados pelas circunstâncias.

Isso ocorre no caso em que estejamos prestes a alcançar certos avanços sozinhos – e aí eles se aproximam para “monitorar” e “medir” nossos avanços- ou se tivermos outros parceiros, como China ou Rússia – dispostos a transferir para nossas empresas, técnicos ou cientistas, esse conhecimento.

Depois do tímido esforço de rearmamento iniciado pelos dois últimos governos, virou moda, nos portais mais conservadores, se perguntar contra quem estamos nos armando, se vamos invadir nossos vizinhos, ou, ridiculamente combater os Estados Unidos.

Muitos se esquecem, no campo da transferência de tecnologia na área de defesa, que sempre fomos tratados pelos Estados Unidos como um inimigo ao qual não se deve ajudar, em hipótese alguma, a não ser vendendo armas obsoletas ou de segunda mão.

No programa FX, de compra de caças para a Força Aérea, a BOEING norte-americana só concordou em transferir tecnologia para a Embraer – acordo que teria, antes de concretizado, de ser aprovado pelo congresso norte-americano – depois que os franceses, com o RAFALE, e os suecos, com o GRIPPEN NG BR, já tinham concordado em fazer o mesmo. E isso quando vários oficiais da Força Aérea brasileira se manifestavam nos fóruns, torcendo abertamente pelo SUKHOI S-35 russo.

O melhor exemplo do que pode ocorrer, em caso de conflito, principalmente com algum país ocidental, se dependermos da Europa ou dos EUA para nos defendermos, é o argentino.

Na Guerra das Malvinas, as mesmas empresas que, antes, forneciam armas e munição para que o Regime Militar massacrasse a população civil, em nome da “guerra interna”, das “fronteiras ideológicas” e do “anticomunismo”, deixaram de fornecer armas e peças de reposição às forças armadas daquele país, para que não fossem usadas contra a Inglaterra.

Os Estados Unidos só concordariam em fornecer armamento avançado ao Brasil, mas nunca no nível do deles, caso aceitássemos nos transformar em seus cães de guarda na América do Sul, como o faz Israel no Oriente Médio; ajudássemos a criar uma OTAN no hemisfério sul; ou concordássemos, como é o caso da Itália ou a Espanha, em participar, sub-alternamente, em “intervenções” como as feitas por Washington em países como a Líbia, o Iraque e o Afeganistão, correndo o risco de indispor-nos com milhões de brasileiros de origem árabe e de virar, de um dia para o outro, alvo de ataques, em nosso próprio território, de organizações radicais islâmicas.

Nos últimos anos, conseguimos desenvolver uma nova família de armas individuais 100% nacional, as carabinas e fuzis IA-2, da IMBEL; uma nova família de blindados leves, a Guarani, dos quais 2.050 estão sendo construídos também em Minas Gerais; desenvolvemos o novo jato militar cargueiro KC-390, da Embraer, capaz de carregar dezenas de soldados, tanques ligeiros ou peças de artilharia; voltamos a fortalecer a AVIBRAS, com a compra do novo sistema ASTROS 2020, e o desenvolvimento de mísseis de cruzeiro com o alcance de 300 quilômetros; estamos construindo no Brasil cinco novos submarinos, um deles a propulsão nuclear e reator nacional, com a França, um estaleiro e uma nova base para eles; desenvolvemos a família de radares SABER; foi fechada, com transferência de tecnologia e desenvolvimento conjunto com a Suécia, a construção em território brasileiro de 36 caças GRIPPEN NG-BR; conseguimos fazer, no Brasil, a “remotorização” de mísseis marítimos EXOCET; foi fechada a transferência de tecnologia e está sendo desenvolvido, com a África do Sul, o novo míssil ar-ar A-DARTER; foram comprados novos navios de patrulha oceânica ingleses; helicópteros e baterias antiaéreas russas; e aumentou-se a aquisição e a fabricação de helicópteros militares montados na fábrica da HELIBRAS.

Esses projetos, que envolvem bilhões de dólares, não podem, como já ocorreu no passado, ser interrompidos, descontinuados ou abandonados, nos próximos anos, pelo governo que assumir o poder a partir de janeiro de 2015.

Vivemos em um planeta cada vez mais multipolar, no qual os Estados Unidos e a Europa continuarão existindo e seguirão tentando lutar para se manter à tona contra uma lógica – e inexorável – tendência à decadência econômica, militar e geopolítica.

Nesse contexto, os EUA e a Europa têm que ser olhados por nós como potências que estão no mesmo plano, militar ou político, que a China, a Rússia, a Índia ou o próprio Brasil.

Como quinto maior país em população e extensão territorial, o Brasil tem a obrigação de negociar, e entrar no jogo, com todas essas potências, de igual para igual, e, nunca mais de forma subalterna. Sob a pena de perder o lugar que nos cabe neste novo mundo e neste novo século.


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Vaias, aplausos e emoção em um velório político


 




do Recife

Ao ouvir uma lista interminável de governadores presentes, o rapaz ao meu lado brincou: “era mais fácil avisar os 3 ou 4 que não vieram”. De fato, estava todo mundo lá. Lula, Dilma, Aécio, metade do ministério, dezenas de parlamentares, candidatos a tudo que é cargo de todos os estados, ex-políticos e autoridades em geral. Renata Campos ficou ao lado de Marina Silva a maior parte do tempo. Ela e Antonio Campos, irmão de Eduardo Campos, têm dado repetidas declarações em tom eleitoral. Os deputados Beto Albuquerque e Luiza Erundina, ambos do PSB e apontados como possíveis candidatos a vice, estavam lá. Roberto Amaral, presidente da legenda e opositor ao lançamento automático de Marina, também estava na primeira fila na hora em que o caixão desceu. Aí veio a polêmica das vaias X aplausos na chegada da presidenta Dilma Rousseff, que foi à cerimônia acompanhada do ex-presidente Lula.

Quando a candidata a reeleição chegou, houve um pequeno princípio de vaia, logo abafado por aplausos. E ficou por isso. Foi um episódio que durou poucos segundos e que não lembra, nem de longe, o xingamento de dezenas de milhares de pessoas direcionado à presidenta na abertura da Copa do Mundo. Foi um momento tão marginal que eu, que estava ao lado do palco da missa junto aos populares e fora da área reservada a autoridades e jornalistas, nem vi ou ouvi nada.

Foi então a vez da imprensa tradicional reforçar o tom político do ato deste domingo.

Alguns veículos noticiaram o ocorrido da seguinte forma: “Lula e Dilma são vaiados em velório de Campos”. Acreditar que Lula seria vaiado por uma multidão em plena capital de Pernambuco é um erro jornalístico provavelmente causado por uma falta de experiência aliada à cultura de perseguição ao ex-presidente, uma obsessão de determinados donos de empresas de comunicação que acaba contaminando os repórteres que vão para a rua. Nem todos respaldaram essa versão e noticiaram que o princípio de vaia era, como tudo indica, apenas para Dilma.

É um belo exemplo de como funciona a mídia no dia a dia. Fica ainda mais uma vez claro que o tal “jornalismo imparcial” é uma lenda com respaldo eventual apenas entre calouros de faculdades de comunicação ou no marketing. Na vida real o jornalismo imparcial não existe.

Explico melhor, a partir deste exemplo citado: aconteceu um princípio de vaia à presidenta, logo encoberto por aplausos. Dilma estava ao lado de Lula, e eles chegaram juntos ao velório. Há muitos títulos possíveis. Por exemplo: “Lula e Dilma são vaiados em velório de Campos”; “Dilma é aplaudida no velório de Campos”; “Lula e Dilma são vaiados e aplaudidos no velório de Campos”; ou ainda simplesmente: “Lula e Dilma comparecem ao velório de Campos”. E por aí vai. Qual o correto? Não há resposta objetiva. Cada veículo escolhe o enunciado que lhe convém, de acordo com suas preferências políticas.

Fica evidente, novamente, a necessidade de uma maior pluralidade na mídia brasileira, que quase em sua totalidade segue uma única linha ideológica-editorial e não representa a riqueza da diversidade da população.

Camisetas e bandeirinhas

Não foi apenas a revoada de autoridades que caracterizou a despedida de Campos como um enorme ato político.

Desde ontem à noite uma multidão ocupou o entorno do Palácio Campo das Princesas, sede do governo de Pernambuco, onde Campos e algumas das outras vítimas do acidente de quarta-feira passada foram veladas. Milhares de pessoas formaram uma fila que serpenteava pelo bem preservado centro histórico da capital pernambucana. Esperaram horas e horas embaixo do sol para olhar por alguns segundos o caixão lacrado do ex-governador. E aí tinha de tudo. Gente que veio de longe ou mora ao lado; filiados do PSB; pessoas fantasiadas; bebês de colo, senhoras e senhores de idade; grupos de bombeiros ou PMs uniformizados etc.

Alguns elementos eram onipresentes. Primeiro, as bandeirinhas. Eram milhares delas, de dois únicos modelos: a do estado de Pernambuco e outra toda preta com a pomba branca que é o símbolo do PSB. Ambas foram distribuídas pelos militantes da campanha Campos-Marina. Depois, as camisetas. Contei 12 modelos diferentes com a frase “Não vamos desistir do Brasil”, slogan lançado involuntariamente por Campos na fatídica entrevista do Jornal Nacional na noite anterior à queda do jatinho que o matou em Santos. Eram de várias cores, com ou sem o rosto do homenageado. Como as bandeirinhas, as camisetas também foram confeccionadas e distribuídas pela campanha Campos-Marina.

Ao lado da grande fila para o caixão, uma menor, com cerca de 100 pessoas, chamava a atenção: estavam todos com o mesmo modelo amarelo da camiseta “Não vamos desistir do Brasil”. Eram militantes pagos do PSB que aguardavam para pegar um sanduíche de mortadela, parte do pagamento pelo serviço do dia: a distribuição de camisetas, adesivos e bandeiras com os rostos de Eduardo Campos e Marina Silva e a promoção dos “bandeirassos” --ação na qual militantes ficam em pontos de grande circulação agitando estandartes de um partido ou candidato.

Eduardo Campos é neto de Miguel Arraes, o político de maior prestígio da história de Pernambuco –e talvez agora lhe tome esse posto. Era um candidato competitivo a Presidência da República. Logo, nada mais natural que sua despedida fosse um ato político. Houve comoção popular? Houve, claro. Uma comoção intensa e amplamente compreensível. É inegável, contudo, que o pano de fundo era a política.

Mas muita calma nesta hora. Por mais que Marina Silva e parte de seu eleitorado se diga contrária à chamada política tradicional, sem ela a ex-senadora não se elegerá, e ela sabe disso. Sendo assim, é legítima a tentativa de seus apoiadores de capitalizar eleitoralmente este momento de comoção nacional a seu favor. É igualmente legítimo veículos de comunicação defenderem suas posições, mesmo quando as estas são ocultadas por um discurso capenga de imparcialidade. Mais: é até saudável e natural que a despedida de Campos, um político extremamente hábil e promissor, tenha sido um ato político.

Não há mal algum nisso. O Brasil ficará mais maduro e com uma democracia mais fortalecida quando pessoas, partidos e mídia não precisarem fingir que não estão fazendo política. Criminalizar a política como um todo não ajuda ninguém. Pelo contrário. E Eduardo Campos sabia disso.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Manifestantes presos: muita calma nessa hora


“Em vão me tento explicar, os muros são surdos./ Sob a pele das palavras há cifras e códigos./ O sol consola os doentes e não os renova./ As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.” (Carlos Drummond de Andrade, “A flor e a náusea”)

Em momentos de elevada tensão, o melhor que uma imprensa responsável pode fazer é preservar a serenidade, única forma de cumprir com sua promessa – ou sua “missão”, incansavelmente repetida em princípios editoriais – de tentar esclarecer o que se passa. Dos três grandes jornais do país, a Folha de S.Paulo foi o único a adotar essa postura ao mesmo tempo crítica e prudente no episódio das prisões preventivas de manifestantes na véspera da final da Copa do Mundo, em 12/7. Destacou, por exemplo, que o inquérito de duas mil páginas produzido pela polícia levou apenas duas horas para virar processo. Também abriu espaço para especialistas discutirem a decisão judicial.

Foi a mesma atitude assumida diante da prisão de dois jovens em São Paulo acusados de participarem de depredações típicas dos Black Blocs. “Manifestantes são denunciados antes de perícia em explosivos”, escreve a Folha (27/7). Os dois estão presos desde o mês passado.

Bombas de fragmentação?

O inquérito policial que sustentou a expedição de mandado de prisão para 28 ativistas acusados de planejarem atentados no dia da decisão da Copa estava sob segredo de justiça e durante alguns dias ficou inacessível aos advogados de defesa, mas foi vazado para O Globo. O acesso privilegiado poderia ter permitido uma análise criteriosa do material. O jornal, entretanto, se dedicou a reproduzir o que estava nos autos, chegando a mencionar, na primeira matéria (21/7), a possibilidade de utilização de “bombas de fragmentação” pelos suspeitos.

Bombas de fragmentação. Não é pouca coisa.

Em 2001, quando os EUA atacaram o Afeganistão em represália aos atentados de 11 de setembro, a Folha publicou uma pequena animação para demonstrar como funcionam essas bombas.

Domesticamente, é possível fabricar artefatos que poderiam ser chamados assim. Com grande poder destrutivo, embora sem termo de comparação ao dessas bombas lançadas de avião. Se é disso que o inquérito trata, e se o plano era de fato provocar explosões em determinados pontos previamente estudados para espalhar o pânico – e não só isso, visto que a hipótese de produzir feridos e mortos não seria reduzida –, seria algo a se destacar na capa. Desde que se tivesse como fundamentar a informação, pois do contrário seria uma irresponsabilidade.

A necessidade do contraditório

Os mandados de prisão foram considerados abusivos não apenas por parlamentares de esquerda e representantes de ONGs, mas também por juristas que sempre se destacaram na defesa das liberdades democráticas. Entre outras fragilidades – como a acusação de formação de quadrilha, que serviu de base para a decisão judicial e aparentemente carece de sustentação jurídica mais sólida –, eles contestaram a determinação da detenção prévia pela suposição de que aquelas pessoas poderiam cometer crimes.

Pelo menos para quem vê de fora, a suposição não é infundada: o grupo vinha sendo investigado desde setembro do ano passado e a exaltação incendiária da violência era evidente nas manifestações que, talvez por isso mesmo, reuniam cada vez menos gente. Trechos das escutas telefônicas, realizadas com autorização judicial e divulgadas pelos veículos das Organizações Globo, indicam que algumas daquelas pessoas preparavam ações para, no mínimo, tumultuar a festa de encerramento da Copa, ainda que fosse necessário traduzir a linguagem pobremente cifrada dos diálogos.

Pintando o diabo

Mas exageros, como se sabe, são lamentável praxe em inquéritos. Quantos bandidos pés de chinelo já não foram apontados como perigosos e sanguinários monstros capazes de incendiar a cidade? Seria mesmo crível que um grupo minúsculo de jovens estivesse organizando o embrião de uma célula terrorista no país?

Não que estejamos imunes ao perigo, num caso como no outro. Mas por isso mesmo uma imprensa séria precisaria reforçar seus cuidados na hora de tratar de um caso assim. Exatamente porque precisa oferecer informações confiáveis, ainda mais nessa algaravia amplificada pela internet. E para evitar ironias descabidas, e mesmo irresponsáveis, por parte de quem tende a fazer pouco desse tipo de denúncia, de tão escaldado que está.

A não ser, claro, que essa imprensa seja parte de um processo voltado para intimidar quem, sobretudo se jovem, esteja pensando em ir para a rua num momento normalmente agitado como o da campanha eleitoral que se aproxima.

O timing para o contraditório

Na segunda-feira (28/7), O Globo finalmente abriu espaço ao contraditório, destacando no site um editorial em que argumenta a favor da legalidade das prisões ao lado de um artigo do advogado Marcelo Cerqueira, que denuncia resquícios de inspiração fascista na generalidade da tipificação de “crime de quadrilha” em nosso Código Penal e afirma que as “provas” – assim, entre aspas – contra os acusados foram “sabidamente ‘fabricadas’ pela polícia”.

Se foram fabricadas ou não, ou até que ponto, é algo a se apurar. Por isso mesmo é preciso levantar a dúvida.

A base do artigo é um texto que o advogado havia divulgado no dia 15/7 em seu mural no Facebook. A um jornal que acompanha regularmente as mídias sociais dificilmente escaparia essa manifestação. Mas talvez não houvesse interesse em fomentar qualquer dúvida naquela hora.

A praça sitiada

E estávamos no calor da hora. No dia seguinte à prisão de três ativistas – entre os quais a jovem que, em parte pelo trabalho da própria mídia, foi alçada a essa condição híbrida de líder e musa do radicalismo – a polícia desencadeou uma descomunal operação de cerco à Praça Saens Peña, na Tijuca, para conter os que pretendiam seguir até as imediações do Maracanã para protestar na final da Copa. Quatro jornalistas e vários manifestantes foram agredidos por policiais.

O repórter Jorge Antonio Barros, da coluna de Ancelmo Gois, passava – ou tentava passar – pelo local e não teve dúvidas em classificar o cerco como “estado de sítio” (ver aqui): nem moradores eram autorizados a retornar a suas casas. Citava também a desproporção entre o efetivo policial – cerca de 2 mil homens – e o grupo de 600 manifestantes.

A reportagem do jornal, não é preciso dizer, foi bem diferente desse relato, a começar pela menção a “dezenas” de policiais.

Cherchez la femme

Desde então, não se passou um só dia em que O Globo não tivesse publicado notícias a respeito das prisões, junto com notas e editoriais que aplaudiam a ação da Polícia e da Justiça. Quando começou a divulgar trechos do inquérito, não levantou qualquer suspeita quanto a certas conclusões.

A história das bombas de fragmentação é apenas a que causa mais surpresa. Outras são risíveis: alguém, num telefonema grampeado, diz que a manifestação vai “bombar” e isso significa que vão explodir bombas. Um garoto diz que vai matar um policial e isso não é visto como força de expressão.

Mais recentemente, ficamos sabendo, pela Folha (28/7), que alguém citou Bakunin numa conversa e logo o falecido teórico do anarquismo se tornou mais um potencial suspeito. Como autor intelectual do crime? Até faria algum sentido.

No Rio, o contraponto foi feito pelo jornal O Dia. Junto com a Folha, foi quem mostrou que as denúncias eram baseadas em depoimentos de duas pessoas, uma traída, outra rejeitada num namoro. Tudo fica ainda mais frágil e um tanto patético, embora não nos devesse surpreender: afinal, na mesma semana um deputado federal do Rio, que concorre à reeleição e fazia parte da equipe do atual prefeito, era denunciado por corrupção por sua ex-mulher.

O que seria do jornalismo investigativo se não fossem as frustrações amorosas?

Esclarecendo?

No domingo (27/7), o Fantástico apresentou reportagem aplaudida como “esclarecedora” por muitos jornalistas em seus comentários nas redes sociais. Informa que são oito, e não apenas duas, as principais testemunhas. Reproduz diálogos e algumas discussões entre os acusados, que comprovam a articulação de algum plano pirotécnico, cuja magnitude, entretanto, não é possível dimensionar. No mais, apresenta depoimentos de pessoas que não se identificam.

Pode ser que estejam falando a verdade. Pode ser que não. É assim que se esclarece alguma coisa?

Em momentos de elevada tensão, a prudência é um valor especialmente precioso. Rejeitar as reações raivosas contra a grande imprensa, o discurso automático e genérico da “criminalização dos movimentos sociais” que a tudo absolve e se dissemina tão velozmente na rede, exige um jornalismo que rejeite o maniqueísmo e seja capaz de realizar o que promete. Do contrário, ficamos perdidos numa batalha discursiva que apenas alimenta a histeria de parte a parte.

A quem isso há de interessar, é a eterna pergunta.


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Sem olhos em Gaza

Domingo, 27 de julho de 2014


Foi em 1936 que Aldous Huxley, autor do clássico “Admirável mundo novo”, espécie de antiutopia sobre a desumanizada sociedade do futuro, publicou o aclamado “Sem olhos em Gaza”. Retrato sem contemplações da espécie humana, o romance tem por título um verso de John Milton (1608-1674) sobre a cegueira do personagem bíblico Sansão na Gaza dos filisteus. No livro, Huxley ambienta na alta sociedade britânica no início do século XX a cegueira inerente ao homem.

O mundo melhorou pouco de lá para cá. Hoje continua-se a tatear em Gaza, sempre às cegas. Dentro do enclave de 40 quilômetros de extensão e menos de dez quilômetros de largura vivem perto de dois milhões de palestinos ali confinados. Há três semanas eles não conseguem escapar da ratoeira transformada em campo de morte em pleno Ramadã.

Fora do enclave, a guerra entre a liderança palestina e o governo de Israel se trava pelo controle da narrativa do horror. São mútuas as acusações de responsabilidade do outro pelos mais de 800 mortos e 160 mil deslocados que vagam por Gaza desde o início da operação militar lançada por Israel. O ponto de não retorno parece ter sido atingido na quinta-feira, quando uma escola empilhada de famílias e transformada em abrigo de emergência pela ONU foi alvejada pela artilharia das Forças Armadas invasoras.

A escola era uma das 80 mantidas pela agência das Nações Unidas para refugiados palestinos e abrigava moradores de Gaza em fuga dos bombardeios. Com cada sala de aula transformada em dormitório para 80 adultos e crianças já suficientemente castigados e desprovidos, o ataque matou o que lhes restava de esperança. “Hoje é como em 1948”, disse ao jornal “Libération” um ancião que sobreviveu a muito. Ele se referia à chamada nakba (“a catástrofe”), o êxodo das populações palestinas após a criação do Estado de Israel. “Não tenho mais para onde ir.”

Para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, seguidor da cartilha dos partidos da extrema-direita israelense, a diferença entre Israel e a organização terrorista Hamas, que comanda a vida dos palestinos em Gaza, é elementar: “Nós usamos mísseis para proteger nossos civis, eles usam os civis para proteger os seus mísseis.” Como frase de efeito ela pode ter servido a seu propósito. Mas não traduz a realidade da intrincada história de dois povos condenados a viver lado a lado.

“Um país que exige perfeição moral em sua política externa”, sustentava Henry Kissinger durante seus anos de poder em Washington, “não vai conseguir perfeição nem segurança.” E Stalin dizia que uma morte é uma tragédia enquanto um milhão de mortos vira estatística

Para a aflita intelectualidade judaica da diáspora mundial, contudo, essas receitas de Realpolitik não têm serventia. A inquietude com os desdobramentos do conflito em curso já fez emergir as primeiras vozes dissonantes e reflexivas. Muitas outras virão.

A largada foi dada em Paris esta semana pelo filósofo francês Daniel Schiffer, com sua “Carta aberta de um intelectual judeu a seus pares Alain Finkielkraut, André Glucksmann, Bernard-Henri Lévy”. Nela, o autor de “Critique de la déraison pure”, defensor do direito de defesa do Estado de Israel e órfão de pais mortos em campo de concentração, cobra dos ilustres colegas uma postura coerente com as respectivas biografias.

“O silêncio de vocês nestas tristes circunstâncias é tão ensurdecedor quanto o dos muçulmanos que se recusam a condenar abertamente os crimes cometidos pelos extremistas jihadistas. Um humanista tem por imperativo categórico denunciar o crime de onde ele venha… O sofrimento humano não tem nacionalidade, cultura ou religião: é universal… Deem logo uma prova de honestidade intelectual, de coragem moral e de nobreza d’alma… Israel, esta nação que outrora inventou o conceito de ‘lei’, estaria agora, por algum privilégio absurdo e injusto, acima do direito internacional?”

Por uma irônica coincidência, um dos destinatários do manifesto de Schiffer, o filósofo-celebridade Bernard-Henri Lévy (ou simplesmente, BHL), havia publicado no mesmo dia, nas páginas de Opinião do “New York Times”, um artigo intitulado “O crime de Putin, a covardia da Europa”, no qual chama a Comunidade Europeia de pusilânime por não se manifestar frontalmente contra a atuação da Rússia na Ucrânia do Leste. No artigo Lévy fala em “obrigação moral”.

Engana-se, porém, quem atribui essa primeira diatribe entre intelectuais judeus a um típico cacoete de filósofos da França. A reflexão não é nova. É profunda e honra a História de Israel. Vale, por isso, relembrar uma outra carta aberta escrita um quarto de século atrás por Arthur Hertzberg, um rabino conservador que perdera 37 membros da família nos campos nazistas. Autor de uma obra considerada magistral (“The french enlightment and the jews: the origins of modern semitism”), Hertzberg publicou na “New York review of books” de agosto de 1988 um texto endereçado a Elie Wiesel. Era a época da primeira intifada palestina contra a ocupação de Israel.

No longo artigo, Herztberg cobra do sobrevivente do holocausto, Prêmio Nobel da Paz e autor do seminal “Noite”, uma maior liberdade de crítica à política da força assumida por Israel. “Como sabemos”, escreveu o rabino, “o silêncio é uma forma de atuação.”

Como apoio a seu arrazoado, Herztberg transcreveu trecho de um discurso feito em Jerusalém pelo veterano político israelense Abba Eban (ex-chanceler, ex-ministro da Educação, ex-vice-primeiro-ministro, ex-embaixador na ONU, entre outros).

O trecho soa mais atual do que nunca:

“Alcançamos um patamar que nos permite dizer que Israel nunca foi tão forte em poder e recursos. Jamais Israel teve sua existência menos ameaçada. Nunca Israel esteve mais segura contra um ataque externo e mais vulnerável à insanidade doméstica. Os maiores perigos que ora enfrentamos vêm de nós mesmos. Eles emergem da insana loucura de tentar implantar uma jurisdição permanente de Israel sobre um milhão e meio de árabes da Cisjordânia e Gaza.”


Dorrit Harazim é jornalista


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Suassuna morreu?

Por Marcelo Mirisola
Portal Yahoo



Muito comum encontrar colunistas idôneos - que vendem os seus pães para grandes portais, revistonas e jornalões - defendendo a qualidade da informação na empresa onde trabalham, e atacando o lixo que circula pela rede.

Pensei muito nisso ontem (22/7), quando Ariano Suassuma morreu e ressuscitou várias vezes no feicibuque. Pra morrer de verdade precisa de atestado de óbito do UOL?

Outro dia me perguntaram: "Existe realidade demais em sua ficção?" Eu respondi que o problema é saber se existe realidade demais na realidade. 

Realidade tem algum parentesco com credibilidade? 

Uma coisa posso garantir: aqui no meu blogue realidade não faz morada. Sou cronista. Uma espécie de mentiroso profissional. Não sou jornalista - deem uma olhada na minha capivara aí do lado. 
Mas vamos supor que sim. Que a realidade exista. Onde estaria essa realidade? 

No destaque que a clamídia dá para celebridades instantâneas, no horóscopo? Nas entrevistas com os clones do Felipão? Nos ataques histéricos dos leitores pedindo providências e reclamando dos políticos e dos buracos na rua? Na apuração das escolas de samba? Nas propagandas de celulares? Nas receitas da Ana Maria Brega? 

A pergunta que faço ao colunista idôneo é a seguinte: querido vestal, oráculo dos oráculos, afinal, no que difere o lixo publicado no endereço que vos hospeda do lixo que circula pela internet em geral?

Voltando a Suassuna.

O autor de "Uma mulher vestida de sol" só pode morrer no Jornal Nacional? E se ele morrer aqui na minha crônica? E se o Bonner disser que finalmente seres de outro planeta fizeram contato comigo? De uma hora para outra, vocês acreditariam em vida inteligente fora da terra? Acreditariam em mim?
Ou seja. A "informação de qualidade" não está acima dos fatos, que, aqui entre nós, nem sempre representam o que há de melhor em termos de qualidade.

O fato de a Record ter comprado quase toda a grade de programação de seus concorrentes na tevê aberta, fez seus adversários não somente perderem a suposta qualidade, mas a credibilidade. Agora, uma regrinha de três. O fato é que Edir Macedo tem mais dinheiro que seus concorrentes. E se o Edir comprar a Globo? 

Nesse caso, não faria a mínima diferença Bonner anunciar o contato com ETs ou a volta de Jesus Cristo. All right?

Não existe uma disputa entre verdade e mentira. Existe um acordo. Do ponto de vista da pulverização e da manipulação da informação – como especulei acima – se Suassuna morreu no Jornal Nacional ou se o capeta bate ponto no templo de Salomão, isso é irrelevante.

Em outras palavras: não existe conteúdo nem qualidade de informação confiáveis. Nem jornalista imparcial, idôneo e impoluto.

Faz tempo, escrevi um texto cujo título remetia ao nosso querido King Kong: "a informação está voando ao redor, feito os aviõezinhos que bombardeavam o gorila do Empire State Building. E o mais interessante: esses aviões-mosquitos não defendem nenhum patrão. Simplesmente atordoam o gigante, e o confundem com sua infâmia e suposta 'falta de qualidade''.

De modo que não é absurdo dizer que não somente o quarto poder está em vias de extinção, mas todos os outros três já fazem água. 

As representatividades são uma lenda (não adianta fazer como Genghis Khan e prender, isolar ou matar meia dúzia de mensageiros explosivos). Os gigantes - eu dizia no texto supracitado -: "perderam o lugar no mundo, e só lhes resta o grito agônico do alto da torre, um urro ignóbil pela liberdade de ser redundante, ou seja, de gritar (ou informar, tanto faz...) que eles têm qualidade e que ... estão morrendo".

E Suassuna? Morreu?


terça-feira, 22 de julho de 2014

Pacifismo ou é integral ou não é pacifismo



A Grande Guerra (1914-1918) tem diversos nomes, sobrenomes, alcunhas e pseudônimos. Um deles, o mais veraz – a Guerra Inacabada – é também o mais atual: os três grandes conflitos bélicos que ocupam manchetes e “escaladas” no horário nobre são herdeiros diretos de uma guerra contínua e de uma paz, fugaz, periódica, raramente levada a sério.

Na Ucrânia, Gaza e Síria combate-se com armas ultramodernas em guerras com mais de um século de existência. O sangue que jorra é novo, as pendências são velhas, encarquilhadas. A Rússia nasceu na Ucrânia, que na realidade só existiu como Estado soberano num remoto passado.

Antes de 1914, parte Ucrânia era do Império Austro-Húngaro, a outra do Império Russo. De um lado um kaiser pretensamente esclarecido, do outro um czar absolutista e implacável. No meio, um vácuo político incapaz de absorver etnias e povos diametralmente opostos. Parte do vácuo foi entregue à recém-criada Polônia, filha do armistício de 1918 e de um confronto militar com um novo império, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que sobreviveu até ontem (1991).

Antes de 1914, todo o Oriente Médio e o Norte da África pertenciam ao Império Otomano, igualmente enterrado pelo armistício de 1918-1919. Caiu de podre, substituído por mais de uma dúzia de novos estados, reinos, emirados e califados teocráticos e alguns protetorados. Um dos sobreviventes, a Turquia, parcialmente europeia, conseguiu sobreviver ao tornar-se por via militar uma república soberana e secular.

Os cem anos do início da Grande Guerra começaram a ser lembrados desde 28 de junho, data em que um jovem terrorista sérvio, Gavrilo Princip, assassinou em Serajevo o casal de arquiduques, herdeiros do Império Austro Húngaro. Em 1º de agosto de 1914 começaram as hostilidades quando a Alemanha invadiu a neutra Bélgica. Cerca de 65 milhões de homens em armas durante mais de quatro anos. Cerca de 20 milhões ficaram nos campos de batalha.

Chance à paz

A mídia associada às editoras de livros encarregaram-se de oferecer aos netos e bisnetos das vítimas e testemunhas da catástrofe as explicações básicas para entendê-la.

Complicado: os tempos são outros, os mapas mudaram, as ideologias reescreveram relatos e biografias. A convergência da nostalgia com o entretenimento dissolveu os horrores. O magnífico seriado inglês Dawntown Abbey demonstra como a História cruel converte-se magicamente em histórias de vida, tristes, amenas, amargas ou edificantes.

O que falta ao salutar boom sobre a Grande Guerra é ressaltar o papel dos diferentes movimentos pacifistas. Sobretudo dos jornalistas pacifistas. Em 1911, o Nobel da Paz foi entregue a Alfred Hermann Fried, fundador do primeiro periódico pacifista, Die Friedenswarte (A Observação da Paz). Em 28 de julho de 1914, em Paris, um nacionalista franco-alsaciano assassinou o bravo tribuno e jornalista, pacifista e socialista Jean Jaurès, fundador do diário L’Humanité (depois órgão oficial do Partido Comunista Francês).

O Nobel da Paz de 1933 foi concedido ao jornalista inglês Norman Angell, que ainda antes do primeiro tiro da Grande Guerra empenhava-se em convencer a humanidade da eficácia da paz como um meio racional de resolver contenciosos entre nações. Seu best-seller A grande ilusão continua nas livrarias, sempre lúcido, nada místico.

O escritor Romain Rolland, Nobel de Literatura em 1915, continuou escrevendo seus panfletos antiguerreiros numa França delirante e patrioteira, até que foi obrigado a recolher-se na Suíça.

O que diferenciava esses pacifistas da maioria dos militantes contemporâneos era a integralidade das suas convicções. Eram contra a beligerância, contra todos os beligerantes, inclusive seus concidadãos.

O pacifismo meia-bomba onde os adversários são demonizados e os correligionários exaltados apenas camufla velhas intolerâncias, pinta de branco rubros rancores. Exclui em vez de incluir e agregar.

Nesta era da informação (ou da desinformação, dá no mesmo), o pacifismo tem chance de tornar-se efetivo. Na base do 50%, é inútil.