terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O mundo assombrado de Rachel Sheherazade

Por Matheus Pichonelli
Revista Carta Capital

Jornal Folha de S. Paulo

Em entrevista recente à coluna Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, a apresentadora do SBT Rachel Sheherazade contou ser neurótica com a violência urbana, sobretudo porque noticia diariamente “tudo o que há de ruim”. Por isso, relatou, só sai de casa para ir ao trabalho. De vez em quando vai ao shopping ou ao teatro. Sempre de carro blindado.

O mundo que ela e certa casta de detentores da verdade noticiam, portanto, é um mundo projetado. Ruim, decerto, mas desenhado sem conhecimento de causa. É uma praga que corrói o jornalismo: quem se propõe a narrar diariamente os fatos não conhece os fatos. Não anda nas ruas. Não circula. Não sai da bolha. E, do alto de um mirante, passa a emitir ordens sobre como é a vida de sua audiência e/ou leitores, estes que eles mesmos mal sabem quem são ou como vivem.

Sobre esta espécie de “editoria de piá criado em prédio”, tínhamos uma sentença já à época de faculdade: podem enganar até seus chefes, mas deem uma folha em branco a eles para escrever sobre qualquer assunto e de lá não sairá nada.

Pois então. Na terça-feira 11, a mesma Folha de S.Paulo deu vida a esta alegoria. Espaço para especialistas, estudiosos e pesquisadores, a seção Tendências e Debates deu uma folha em branco para Sheherazade demonstrar tudo o que sabe sobre segurança pública, direitos humanos e sobre o seu país que, dias atrás, ela confessou se limitar da casa ao trabalho e, esporadicamente, da casa para o shopping. É nessa trajetória que ela recria a imagem de um país jorrado em sangue: sem policiamento, com bandidos à solta, armas em punho, a cometer todas as atrocidades contra todo mundo que é de bem. Pessoas que, segundo sua peça literária publicada em forma de artigo, escolheram ser criminosas e hoje recebem a solidariedade e pena de ONGs e grupos de direitos humanos e por isso, e só por isso, têm carta-branca para instalar o real estado de natureza em um país de impunidades.

"No caso do Brasil, existem chagas 
demais a serem tratadas. 
Espancar, torturar ou humilhar 
jamais fechou nenhuma delas"

Em resumo, deram uma página em branco para Sheherazade e ela manifestou tudo o que conhece sobre o Brasil: nada. Neste espaço, ela voltou a dizer que os criminosos estão soltos, que o Brasil é um dos países mais violentos do planeta, que a lei é frágil, que os menores infratores estão protegidos e que só quem agride animais vai para a cadeia. Neste universo, diz identificar nitidamente o bem e o mal: o bem somos nós, eu, você, cidadãos que pagam impostos e têm o direito à vida. Os maus são os criminosos comuns protegidos por ONGs e pelo Estado que atrapalham nossos caminhos em direção a uma vida de bem: casa, trabalho, shopping.

De fato, somos um país violento. Mas essa violência é mais difusa do que supõe sua folha em branco. Por isso ela e seus seguidores não conseguem reconhecer que parte da nossa violência brota de onde menos se espera. É reproduzida, por exemplo, por grupos que ela diz compreender que ajam ao arrepio da lei. Se a ação destes grupos é compreensível, diante da barbárie que ela jura estar instalada, estamos prestes a aceitar que encapuzados organizados saiam às ruas, diante da paralisia que ela jura estar encerrada à polícia, para colocar ordem no estado. Assim, saímos legitimados a espancar não só o “trombadinha”, como também a prostituta, o andarilho, o casal gay. Ou seja: façam exatamente o que fazem no Brasil há séculos.

Em seus argumentos, Sheherazade afirma que a sensação de impunidade no Brasil se deve à fragilidade do Estado, culpa de um policiamento falho amarrado a normas sobre autos de resistência. Se andasse na periferia, saberia o que é discurso oficial e o que é piada pronta. Se soubesse ler estatísticas, saberia que quem está na mira não são os cidadãos aprisionados em condomínios fechados, mas jovens e pobres e das periferias. Uma pesquisa divulgada pelo Ipea no fim do ano passado mostrou que dois de cada três assassinatos no Brasil têm como vítima um negro. Em janeiro, um levantamento do iG revelou que os três distritos com mais assassinatos em São Paulo ficam na periferia da cidade: Parque Santo Antônio, Capão Redondo e Campo Limpo. Não é pena, é estatística: não é a ordem da periferia que provoca mortes no centro, mas a ordem do centro que provoca mortes na periferia. Por isso podemos andar tranquilamente por espaços do centro, iluminados e bem policiados: a escuridão está longe da nossa trajetória.

Em Campinas, a pena que ela diz existir sobre a bandidagem não salvou 13 pessoas, alguns sem passagem pela polícia, da morte em duas chacinas na mesma noite. Policiais militares da região são os principais suspeitos. E se a atenção sobre autos de resistência fosse de fato um elemento a corroborar com a impunidade, ninguém daria tiro a céu aberto contra portadores de bolas de gude durante um protesto em São Paulo. Basta olhar a profusão de cassetetes, bombas de efeito moral e interrogatórios ao ar livre, com tapas na cara e pontapés, para lembrar também que no Brasil desconhecido por Sheherazade ninguém está exatamente constrangido em aplicar rigor sobre qualquer suspeita.

Mas Sheherazade e tantos outros detentores do monopólio da verdade sobre as ruas não andam nas ruas: provavelmente nunca viram qualquer abordagem para tirar qualquer conclusão. A falta de contato com o mundo cria narrativas paralelas e, nessas narrativas, a visão de mundo não tem pé na realidade nem na análise fria de qualquer estatística. Por isso ignora-se que a seletividade da aplicação da lei é o elemento que permite todo tipo de barbárie, e não a frouxidão de suas normas. Sheherazade poderia explicar, por exemplo, como um Estado mais rígido, que ela jura inexistir, poderia impedir a barbárie nos locais onde, por natureza, não existe policiamento: as casas das famílias de bem, de onde saem pais e mães assassinados, esposas e esposos esfaqueados e colocados na mala, filhos são jogados pela janela ou levados ao córrego vizinho. (No artigo, ela diz que o cidadão de bem está desarmado e isso é culpa do Estado, mas ignora os crimes com armas de fogo cometidos dentro de casa por pais e filhos com armas ao alcance).

Ainda segundo o mundo de Sheherazade, as delegacias e presídios estão vazios: os criminosos pintam e bordam e saem de lá pela porta da frente, enquanto os cidadãos de bem que matam papagaios estão presos. Pois, fora do caminho casa-trabalho-shopping, o Brasil está curioso para conhecer essa multidão assassina de passarinhos que abarrotam as celas das delegacias e penitenciárias brasileiras. Se Sheherazade conhecer um, que nos apresente, pois no mundo real tem mais gente presa do que ela imagina. Quem está solto, podemos garantir, não são os menores que transformam a vida da população de bem em um inferno, mas cidadãos que não assaltam carteira, mas orçamento; golpistas com editais de serviços públicos debaixo dos braços; engravatados de cartéis e oligopólios no campo e na cidade; autoridades com vistas grossas sobre venda e distribuição de drogas e armas; mandantes protegidos por capangas; e até machões enciumados que alegaram direito à honra para justificar o morticínio. A diferença é que estes ganham tempo com recursos processuais dos quais só uma parte da população ouviu dizer.

Se olhar caso a caso, a apresentadora talvez se espante em saber que a nuance da tragédia diária não cabe na narrativa de bem e mal. Dizer que soluções simplistas não vão resolver problema algum não é demonstrar pena de bandido ou do inocente: é simplesmente ser realista e desapegado de fórmulas mágicas.

O Brasil é, de fato, um lugar de insegurança patente, mas existem muitos Brasis dentro de um mesmo país. Um está fora dos centros e tem um corpo esturricado em cada beco pelo Estado, por grupos paramilitares ou por acerto de conta; outro, encalacrado em bairros nobres, tem padrão israelense de segurança. É disso que se trata quando se pede responsabilidade na palavra final dos fatos. Não se trata de apelo à piedade ou à censura, mas de um apelo à razão. Dentro de casa, apavorados com o próprio medo e o mofo das cortinas fechadas, criamos um monstro imaginário, damos cor e rosto a um inimigo e passamos a defender soluções autoritárias para poder sair do quarto. Só sairemos de lá quando as ruas estiverem limpas. Foi este o apelo que permitiu ao longo da História a adoção de políticas autoritárias em troca da dissolução de direitos civis, políticos e sociais, sobretudo os grupos já marginalizados (atenção: não estamos falando de marginais). Estas respostas autoritárias não fizeram do planeta um lugar melhor para se habitar. Pelo contrário, criaram novas chagas. No caso do Brasil, existem chagas demais a serem tratadas. Espancar, torturar ou humilhar jamais fechou nenhuma delas.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

PSDB acusa Estátua da Liberdade por quebra de decoro

A Estátua lembrou: "minha filha, eu sou francesa. Vim de presente morar aqui nessa espelunca"


Por Estanislau Castelo

Carta Maior



Um dos símbolos da liberdade pode estar com seus dias contados.

O PSDB protocolou ontem, junto ao Supremo Tribunal Federal, e nas mãos de seu mais isento ministro, Gilmar Mendes, um processo contra a Estátua da Liberdade por quebra de decoro monumental.

A Estátua teria sido flagrada com o braço erguido, o que foi considerado pelos tucanos como uma clara referência ao gesto feito por José Dirceu e José Genoíno.

Um dos líderes que protocolaram o pedido ameaçou: "ou aquela piriguete abaixa aquele braço ou vamos às últimas consequências. Cogitamos inclusive derrubá-la".

Um ministro do Supremo que não quis se identificar disse que a Estátua pode ser enquadrada no "domínio do fato" e no artigo 45 do Código Penal, que reza que, sendo petista, todo castigo é pouco. Perguntado sobre o que seria esse "domínio do fato", o ministro não soube responder.

Em uma coletiva dada hoje pela manhã, em Nova York, o ícone mundialmente conhecido disse que prestou solidariedade aos "companheiros" presos por razões humanitárias.

E atacou os tucanos: "eu sou feita de cobre. Já esses que me acusam são um bando de caras de pau".

O símbolo maior da Baía de Nova York já havia feito o mesmo gesto anteriormente em comemoração à vitória dos atletas Tommie Smith e John Carlos, que ergueram o punho cerrado nas olimpíadas do México, em 1968, em homenagem aos Panteras Negras, grupo que lutava pelos direitos civis contra o apartheid nos Estados Unidos.

Questionada sobre se não deveria fazer o mesmo sobre Guantánamo, reagiu com indignação: "mas eu fiz; vocês é que não prestaram atenção".

Uma repórter da rede de comunicação ultradireitista Fox News perguntou à Estátua se ela não se envergonhava de emprestar sua imagem a "comunistas brasileiros", ao invés de continuar como garota propaganda do "American way of life".

Irritada, a Estátua lembrou: "minha filha, eu sou francesa. Vim de presente morar aqui nessa espelunca".

A Estátua foi também indagada se doou dinheiro para as vaquinhas que estão sendo organizadas para pagar a multa imposta aos condenados. "Ah, isso não. Devo confessar que sou muito mão fechada e ando dura faz tempo".


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Um coração partido


Olhou o céu nublado às 23 horas da noite, as gotas caíam como bombas em seus ouvidos e clarões explodindo raízes eram dispersadas sobre a vastidão de deus e das nuvens baixas. Tudo se liquidificou e ele sentiu uma comoção inesperada, daquelas que vem brotando desde a transpiração até a dor prazerosa que entulha a garganta e desafoga o plexo solar. Deixou-se encharcar por vinte minutos mais ou menos e dispôs-se, ele mesmo, a encharcar o lado de fora com o puro sal do corpo.
 Estava pleno. A dor também tem dessas coisas de satisfação, uma companhia em dias de pura solidão e reconhecimento. E foi nesse estado amalgamado, entre o mofado e a beleza do retrô, que ele entrou na noite, sucumbido pela excelência do acaso e da esperança no “tudo pode acontecer”. Precisava externar, compartilhar, doar. Entrou na noite e estava pleno, depois de um bom banho e um bom perfume. Ar nos pulmões como lixo tóxico. Pleno. Precisava acreditar em clichês e em auto-ajuda, precisava ter fé no depositário da frase depois da tempestade vem algo bom ou depois da chuva, as estrelas, depois do sal, o açúcar e assim, desse jeito pleno e desesperado, saiu na noite a procurar um bálsamo, um lugar-comum, uma sessão-da-tarde.
 E lá estava ela, absolutamente maravilhosa naquele vestido preto de caimento sincero. A música vinha das caixas parafusadas nas paredes laterais, volume médio. Ele sentou e pediu uma coca-cola, que é para não perder a compostura e nem ficar com bafo de álcool. Só exigiu que fossem poucos os gelos no copo para não aguar a bebida. Sim, uma fatia de limão seria ótimo, obrigado.
 Ela estava com mais uma – amiga?, amante?, prima?, chefe?! – mulher ao lado, igualmente linda, mas sem aquele vestido sincero e espetacular em todo o seu caimento. Pediu mais um refrigerante, desta vez sem o limão. Permitiu o acréscimo de mais gelo; arrependeu-se, mas já era tarde.
           Olhou a coca-cola e o gelo desencontrarem-se até virarem outra coisa, aguada, chata, sem brilho, e decidiu que já era hora de alguma aproximação. Levantou da mesa, dirigiu-se até as mulheres que gargalhavam sobre o que ele não sabia e talvez nem quisesse. “Posso sentar aqui com vocês um pouco?”
         “Não pode, não”! E esta expressiva e imprópria negação fê-lo virar para trás numa curiosidade automática de quem quer apenas o seu quinhão num universo cheio de supernovas.
O soco foi tão certeiro e o pisão, depois, tão preciso e cirúrgico que só acordou na enfermaria, gaze, esparadrapo e a frustração da epifania. Queria achar deus ou o destino e contemplá-lo. Não passou de uma noite sem significância. Sem luzes, estradas ou auto-ajuda. Só ele. Um coração partido e um dente a menos.


domingo, 2 de fevereiro de 2014

A vila

Por dade amorim
Do seu blogue.

Esse arzinho úmido de após chuva sempre mexe com a minha alegria número oito, a mais discreta; Uma alegria tão discreta que às vezes fico na dúvida se é mesmo uma alegria. De noite, lembra outras noites muito longínquas. Lembra um chão de cimento rachado. umas poças dágua muito jeitosas, um tufo de mato escapando das rachas, uns muros cobertos de hera...
Naquele tempo, o mundo era limitado por um pomar à esquerda, um casarão à direita e uma rua sem calçamento. Habitavam-no dez pessoas, vizinhos e moleques. Ás vezes havia tios e primos, uma avó de colo gostoso. Também havia uma senhora gorda, que manchava de batom os biscoitos que mamãe lhe servia com café e puxava por uma perna. Havia também um médico de orelhas grandes e olhos pequenos que fazia brincadeiras engraçadas. Suas visitas coincidiam com um céu profundamente azul, que dava um aperto na boca do estômago.
 Havia também uns sapos cantadores, negros, luzidios, de olhos cintilantes, e os fazíamos pular com uma varinha. Isso acontecia nas áreas iluminadas, porque no escuro eles ficavam bravos e podiam jogar um líquido que cega a gente.
Havia estrelas puríssimas. Enfeitavam véus diáfanos, de mistura com lamés e com as roupas deslumbrantes de Monteiro Lobato. Aí aconteciam lances trágicos, suspenses e dramatizações suntuosas em florestas encantadas, dramatizações suntuosas em florestas encantadas, florestas encantadas,  salões de festa. A vila era cemitério à meia-noite, praia ou piscina.
Um dia não me contive e fui lá, rever a vila grande, clara e alegre, cheia de folhas verdes por todos os lados. Fui buscar um sol morno e dourado que me fez feliz como poucas vezes consegui ser depois. Queria ouvir um coro de roda, mergulhar numa noite mágica. Queria ver como estavam as florestas, o castelo, o mar, o cemitério. Espantar sapos encantados.
Acabei chorando naquela vila estreita, suja no chão de cimento. Já não havia plantas, as casas  eram duras, e as janelas me olharam com severidade, as portas sorriam  duras, hostis. Já não crescem estrelas nas árvores...




terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Contos pequenos sobre Coisas de nada

Finalmente saiu.
É virtual, mas já é alguma coisa.
Sempre tive vontade de reunir os contos que publiquei aqui, no nosso Resumo da Chuva, e lançá-los em livro. Não sabia como fazer sem desembolsar uma fortuna para isso.
E foi a Saraiva quem deu a solução: livro virtual pela Publique-se (uma espécie de editora virtual da Saraiva).  
Agora, vamos esperar sentados a disposição do meu eu escritor para finalizar a porra do Romance que já dura algum tempo. Acho que o meu eu cachaceiro anda atrapalhando...

Enfim, para quem quiser adquirir, é só clicar aqui, ó:

http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/6783967

Abraço a todos!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Rose e a rosa


Num ônibus rumo a algum bairro abandonado de algum cu do mundo, 06 jovens entram no coletivo vindos do alistamento militar.
Um deles começa uma algazarra, cabeça para fora da janela, assobios, xingamentos, cantadas machistas; os outros rindo, interagindo, panfletários.
O ônibus segue com os seus outros passageiros quietos, raivosos, mas quietos. Alguns, talvez, com medo da gargalhada, do ataque bobo, da cor da pele. Medo da identificação que ele não quer assumir para si, mas que enxerga nos outros: a pobreza aliada à falta de educação.
Certo seria alguém levantar e dar um esporro, avisar sobre os limites ultrapassados, pedir para descerem do coletivo. Ninguém o fez. Rose também não fez.
Certo seria a inclusão, o desentendimento coletivo, o debate. Mas todos preferiram excluir. Deixá-los no seu legado de preto-pobre-marginal: “Eles são eles, nós somos nós e cada qual no seu quadrado”.
Os 06 jovens fizeram o que deles é esperado pelos outros, os outros fizeram o que a sociedade quer que seja feito em casos assim: não corrija, prenda; não elucide, exclua; não eduque, mate.
Quando Rose deu as costas para o acontecimento ela quis preservar-se fisicamente, ela quis evitar confusão. Mas e se todos se metessem? 30 contra 06? Os jovens agrediriam ou seriam obrigados a ouvir o sermão? Rose desceu do coletivo atrás dos jovens e pode ver o semblante da exclusão, do nojo, do medo nos semblantes dos outros pobres e pensou o quanto a perversidade do sistema está em te fazer acreditar que você só tem semelhança com o dominador, nunca com o dominado.
E Rose lembrou a rosa e a rosa lembrou Hiroshima.

Sem cor sem perfume sem rosa sem nada.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Bruxarias do mercado em ano eleitoral

Elio Gaspari

O fato de um sujeito ser paranoico não impede que ele esteja sendo seguido. A doutora Dilma reclamou que seu governo sofre uma “guerra psicológica”.

Nada mais natural para um comissariado que vive sob a mentalidade do sítio, julgando-se perseguido pela imprensa, pelos aliados e pelo mercado. Mesmo assim, o paranoico pode estar sendo seguido.

Outro dia a agência de risco Moody’s anunciou que poderá baixar a cotação do Brasil. Isso foi o suficiente para provocar um leve piripaco no mercado financeiro. O fato de a Fitch ter dito o contrário não teve qualquer importância.

As três grandes empresas desse mercado (Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch) são uma espécie de oráculo. Por mais que possam ser neutras, a verdade é que com esses anúncios pode-se ganhar um dinheirinho fácil.

Compra-se hoje, vende-se amanhã e embolsa-se algum. Na crise de 2007, elas passaram por um vexame histórico. Lambuzaram bancos quebrados e iludiram a boa fé do público. Essa foi a conclusão a que chegou uma comissão de inquérito do governo americano.

Faz melhor negócio quem acredita nas agências de risco e não presta atenção ao que diz o ministro Guido Mantega, mas coisas estranhas acontecem no mundo das previsões econômicas.

No final de abril de 2008, Lula decidiu tirar o doutor Henrique Meirelles da presidência do Banco Central, convidou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, que aceitou. No dia 1º de maio a agência Standard & Poor’s elevou a cotação do Brasil, concedendo-lhe o “investment grade”. Meirelles ficou no BC.

Durante a campanha eleitoral de 2002 o banco JP Morgan rebaixou a cotação do Brasil diante da possibilidade de Lula vencer a eleição presidencial. Nessa época, o Morgan fazia negócios com o gênio Bernard Madoff, que vendia vento, numa fraude de US$ 65 bilhões, a maior da história americana.

Há pouco, o banco concordou em pagar uma indenização de US$ 2,6 bilhões às suas vitimas. Seus diretores não fizeram isso por altruísmo, mas para encerrar um processo que poderia levar alguns deles à cadeia.

Já o banco Goldman Sachs criou em 2002 uma gracinha chamada “Lulômetro”. Era uma bonita equação onde o interessado preencheria as variáveis ao seu gosto e obteria o valor do dólar caso Lula fosse eleito. (A moeda americana ameaçava chegar a R$ 4).

Divide-se a galera da psicologia das previsões em três grupos.

Um quer advertir a clientela para a situação econômica ou os riscos de um resultado eleitoral num determinado país. É esse o seu papel.

Outro, quer influenciar a plateia e faz de bobo a quem acredita na neutralidade de sua previsão.

No terceiro grupo estão aqueles que pouco se interessam pelos resultados econômicos ou eleitorais. Querem apenas ganhar algum.

Na crise do real sobrevalorizado de 1998, um banco americano publicou um artigo propondo que Fernando Henrique Cardoso confiscasse a poupança nacional, como fizera Fernando Collor. (Sugestão idêntica veio do presidente da Argentina, Carlos Menem).

Era maluquice, mas um conhecedor do mercado estudou as cotações dos papéis brasileiros nos dias anteriores e posteriores a essa sugestão e concluiu que um espertalhão poderia ter ganho algo como US$ 5 milhões em poucos dias.

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Eremildo, o idiota, foi ao Maranhão

Eremildo é um idiota e soube pela repórter Andréia Sadi que a governadora Roseana Sarney, donatária do Maranhão, queria abrir uma licitação para adquirir mais de uma tonelada de camarões, 750 quilos de patinhas de caranguejo e um estoque de lagosta fresca. A feira custaria cerca de R$ 1 milhão e abasteceria a despensa da doutora tanto no palácio como em sua casa de praia.

Depois o cretino soube que o governo de Roseana Sarney divulgou uma nota repudiando a divulgação de um vídeo "com apelo sensacionalista". Eremildo convenceu-se que alguém havia filmado as lagostas e patinhas de caranguejo da governadora. Achou que o repúdio era mais do que justo.

Só depois ele soube que o vídeo mostrava presos decapitados numa prisão maranhense. O governo da senhora disse que ocorreu uma "ação criminosa (...) que fere todos os preceitos dos direitos humanos". O idiota ficou com uma dúvida: se o vídeo não tivesse sido divulgado, os direitos humanos dos presos degolados teriam sido preservados?

Eremildo fez umas contas de economia doméstica com a despensa da doutora Roseana. Ela pretendia gastar R$ 1 milhão para abastecer seu palácio e a casa de verão durante um ano. Isso dá uma conta de US$ 418 mil. (Isso para não se falar no caviar para visitantes ilustres.) Como disse a doutora, o Maranhão tem problemas porque "está mais rico", e rico sem caviar é um miserável.

O bilionário Michael Bloomberg foi prefeito de Nova York durante 12 anos e a conta dos almoços e cafés da manhã de seu gabinete ficou em US$ 890 mil, ou US$ 74 mil por ano.

Uma diferença: Bloomberg, que já era bilionário quando entrou para a política, pagou a fatura com dinheiro do próprio bolso.


domingo, 12 de janeiro de 2014

Um abraço, Professor!


E morreu Moacy Cirne. Poeta maior, um dos fundadores do Poema/Processo, especialista em Histórias-em-quadrinhos, Professor, blogueiro.

Mas o que mais me marcou, num sujeito já tão marcante, foi a sua generosidade.

Generosidade ampla, carinhosa, forte. Publicava meus rabiscos em sua página junto às obras-primas dele como se fosse possível a igualdade. Não era possível. Moacy era grande. Mas eu e meus amigos blogueiros estávamos lá, sendo abraçados, incentivados por esse professor verdadeiro.

Lamento a sua morte, sem dúvida. Mas não posso jamais deixar de celebrar a sua vida!

Um abraço, Professor. Até a próxima!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

nadas - por Sandra Camurça

Um pé de acácia me espia da janela com seus amarelos de tão verão. Ele me chama pro dia. Parece até que ele sabe que eu sei que preciso ver o dia, o céu, o sol, eu sei… mesmo assim, por enquanto, hiberno em pleno verão. Aprendi a amolecer pedras mas ainda não sei diluir calor em chumaços de algodão. Há quanto tempo, quanto tempo aguento esse suor brabo? Quero um pouco de flores de algodão úmidas, frescas, enroscadas de névoa. Nunca vi isso, são imagens que vêm como um sopro ao desejar algo frio e fofo, algodão e delicado. O vento leva tanta coisa… Quero um vento sopro de algodão que leve, de leve, tudo que me sangra e queima. Quero um vento-gaze, curativo, sem isso só mesmo o cuspe na ferida, a língua que lambe encarnada, o chumaço, a flor… Alcanço a onda azul, um tipo de nuvem que sobe em espiral, orgânica e cremosa, derramo um sopro amanteigado que desfaz a forma, a cor… Vi algodões voando, uma chuva branca fez a tardinha em flocos: sonho de neve no lusco-fusco verão. Já perdi o tempo, todas as horas dormentes, mas guardo os quatro ventos dentro de uma bexiga azul, o azul me diz tanto… Às vezes peço que a bexiga me leve, voo de balão cobalto, baixa mesmo é a pressão do ar derretendo sangue pelas narinas. Vermelho é cor que desbota em rosas, pétalas. Azul quando desbota é céu, mar, aquela velha calça… No Atlântico lesmas marinhas podem ser de diversas cores. Mas são azul-violeta aquelas que amolecem pedras. São tantas, as lesmas, as pedras, as mesmas pedras onde tropecei um dia. Todas elas, lesmas unidas, grudadas em cada pedra iniciam o trabalho de amolecimento, um processo que envolve muco e nódoa, grude e lodo, tudo a favor do amolecimento. Não há mistério, apenas a mesma persistência de quem tira leite de pedra ou a tal “água mole em pedra dura…”. Foi assim que aprendi a grudar em pedras e amolecer sua dureza com muco, suor, saliva. Foi assim também que o calor não me deixou esquecer o algodão em neve, a flor, o azul… No primeiro mês de verão chumaços de algodão evaporam em minhas mãos.



quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Notaspoucas

Almanaque 68 - Sandrix  (retidado de Vandalaviral)

Estava passando os olhos mornos pelo jornal amassado e confesso que preciso de um curso de compreensão de texto. Urgente! Os grandes periódicos dizem que o país sofreu o pior superávit dos últimos anos. Ou seja (pra ficar bem explicado), você ganhou na mega-sena 01 milhão de Reais, mas foi o pior presente milionário que alguém já ganhou em anos!
Entendo o que eles queriam dizer: Torcemos contra, mesmo, e que se foda!
Entendo o que eles quiseram que eu entendesse: tragédia descomunal e incompetência governamental, sideral, débil mental.
Entendo (quase) o que aconteceu: nós lucramos, mas foi quase no “talo”, quase não deu. Precisamos melhorar.
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            Apartamento em Ipanema custando 66 milhões de Reais com 600 metros quadrados. O metro quadrado custa R$110.000,00. E você acha que violência é fazer protesto... Tadinho.
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A Petrobrás vai acabar, vai explodir, vai implodir, vai lucrar, vai falir, vai morrer ou tudo não passa de uma armação midiática do tipo: vamos desvalorizar o nome que se o mineiro ganhar a gente fala que dava prejuízo e privatiza? Petrobrás – há 60 anos desmentindo os derrotistas.
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            Os médicos cubanos continuam a despertar ódio na mídia branca e nos que ganham 20 mil por mês. Isso só pode ser medo. Conhece algum médico bom temendo concorrência? Um conhecido, formado, disse que o problema não são eles, mas a infraestrutura inexistente nos cantões do país. Então, tá, devo acreditar que médicos, nas grandes capitais, fazendo atendimento de 15 segundos e faltosos do plantão noturno gerando óbito são múmias implantadas pela esquerda? Quem mora nos grotões sabe o que é o Brasil que a classe média finge não ver (e os médicos fingem que vão). Infraestrutura inexistente é no Brasil todo, capital ou não. O que esses daí não querem é ficar perto da miséria. Ponto.
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            Vamos combinar? nenhum apartamento deveria valer 66 milhões e nem eu ou você deveríamos ter esse dinheiro sobrando para comprar.


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Kennedy e a deposição de Jango

Por Elio Gaspari

Jango e Kennedy - Arquivo: Fundação Getúlio Vargas

No dia 7 de outubro de 1963, 46 dias antes de ser assassinado, John Kennedy presidiu uma longa reunião na Casa Branca e nela, em poucos segundos, fez a pergunta essencial a Lincoln Gordon, seu embaixador no Brasil: "Você vê a situação indo para onde deveria, acha aconselhável que façamos uma intervenção militar?". Gordon mostrou-lhe que esse era um cenário já discutido, porém improvável.

Um ano antes o presidente americano pusera no seu baralho a carta de um golpe militar para depor João Goulart. A associação de Kennedy ao golpe está amparada nos fatos, mas ao longo do tempo pareceu mais fácil jogar a responsabilidade em Lyndon Johnson, seu detestado sucessor. Desse truque participou até mesmo Jacqueline, sua adorável viúva.

Tudo ficaria mais fácil se Jango tivesse sido derrubado pelos americanos, mas ele foi deposto pelos brasileiros, numa sublevação militar estimulada e apoiada por civis. A Casa Branca, contudo, sagrou a insurreição reconhecendo o novo governo enquanto Jango ainda estava no Brasil, cuidando de suas fazendas, a caminho do Uruguai.

Passados cinquenta anos, numa época em que o aparelho de segurança americano grampeia comunicações pelo mundo afora e mata gente com seus drones, vale recordar outro momento da ditadura brasileira. Em 1971, o presidente Emílio Médici visitou Washington e foi festejado pelo presidente Richard Nixon com a frase "para onde for o Brasil, também irá o resto do continente latino-americano". Discutiram a derrubada do presidente chileno Salvador Allende (ela ocorreria dois anos depois) e o general brasileiro ofereceu-se para ajudar no que fosse possível para derrubar Fidel Castro.

Em agosto de 1970, a embaixada americana em Brasília mentia para o Departamento de Estado informando que a tortura estava sendo substituída por métodos "mais humanitários" de interrogatório. Citava dois casos de mulheres presas em São Paulo. Pura patranha. Ambas haviam sido torturadas no DOI, onde o consulado americano mantivera um pesquisador-visitante. Ademais, endossara uma versão falsa da morte de um preso. (O cônsul no Rio, Clarence Boonstra, desmentia essa informação.) Num depoimento ao Senado americano, o chefe do programa de segurança pública do programa de ajuda ao Brasil disse que não sabia o que era o Codi e não lembrava o que fosse uma "Operação Bandeirante". A fraternidade da diplomacia americana com o DOI rompeu-se com a chegada a São Paulo de um novo cônsul, Frederic Chapin, personagem injustamente esquecido na história do período.

A cumplicidade do governo americano com o regime brasileiro terminou em 1977, quando assumiu o presidente Jimmy Carter. (Um ano depois da demissão do general Ednardo D'Avila Mello pelo presidente Ernesto Geisel por causa da morte de um preso no DOI de São Paulo.) Empunhando a bandeira dos direitos humanos, Carter afastou-se das ditaduras latino-americanas. Com essa reviravolta, os Estados Unidos fizeram melhor que os franceses, que mandaram ao Brasil como adido militar o general que se intitularia "maestro" da tortura na Argélia, ou que os ingleses, que forneceram a tecnologia de celas especiais para o DOI do Rio. Nelas, som e silêncio, calor e frio, alternavam-se para desestruturar os presos.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

You say goodbye and I say hello

Monet

Ali estava ele, fumando a sua maconha de final de tarde e produzindo as idéias mais incríveis, e que jamais serão colocadas em prática, do mundo! Sorria como que hipnotizado por Vênus e, pau rijo, imaginava-se na contra-capa de Sgt. Peppers, fazendo careta para um misto de todos os rostos e divindades; do diabo a Francisco de Assis, de Frank Sinatra a David Bowie. Estava ele cantando Let There Be More, arruinando aquele solo sensacional de guitarra com as suas gargalhadas ambíguas... Estava ele cantando e dançando alguma coisa que aprendeu com o seu tio no meio de uma forte bebedeira de ambos, com garrafa de Jack Daniel´s quebrada na grama e uma reserva especialíssima de Johnnie Walker Platinum já pela metade... Estava ele ali, definitivo. Dessa vez, flutuava sozinho, um camel fechado sobre a mesa junto a outro Johnnie Walker, este, de rótulo preto, e o baseado entre os dedos. Let There Be More deu espaço para achegada de A Pillow of Winds e tudo virou leveza e criação.

And deep beneath the ground the early morning sounds
And I go down
Sleepy time when I lie with my love by my side


Seu ipod de repente parou e a coletânea que fizera com as suas preferidas desapareceu. Bateria - nunca se lembrava de carregar o aparelho. Saiu da varanda para finalmente escutar a campainha que dilongueava sem parar. Era ela. Olhos nos olhos e tudo virou uma espécie de tela cuja tinta fresca ainda realizava o destino de preencher os poros do algodão da tela, Ela disse alguma coisa sobre “Como vai? Eu precisava vir falar umas coisas, mas já esqueci o que era.” Ele sorriu porque ela merecia mais que ele e, na absoluta soberba criativa, ofereceu o seu baseado e um beijo com muito amor. Ela aceitou e foram temas que se locupletaram tamanha riqueza sexual dos dois quando juntos, radiantes e chapados. “Coloca uma música e me oferece o teu uísque, meu amor. Um copo só, eu reparto com você”. Ele fez o que ela pediu. Levantou do chão e abriu o laptop, conectou na caixa de som do estéreo na sala e deixou If God Will Send His Angels encostar nas paredes e escorrer pelo tapete. Ela perguntou se não havia alguma coisa do Coltrane, do Davis, da Bessie. Ele disse que só tinha Beatles e ofereceu gelo. “Prefiro beber a Cowboy, mas aceito um pouco de Beatles.
Ele despejou Hello, Goodbye e ela percebeu que ele dizia Eu te Amo.
“Eu não vou mais embora”. E foi tudo o que ela disse.

I say high, you say low
You say why and I say I don't know

Oh no
You say goodbye and I say hello
(hello, goodbye, hello, goodbye)