sexta-feira, 20 de maio de 2011

GUEST POST: OS LIVRO ENSINA, NÓIS APRENDE

Por: LOLA ARONOVICH


Tadinho do aluno que tiver que escolher entre certo e errado na língua

Apesar de não acompanhar as polêmicas vazias que a mídia costuma criar, eu me dei conta da dimensão do novo “escândalo” quando, na aula de quarta, uma aluna emendou sua revolta com o Bolsa Família com sua mais profunda indignação ao governo querer que a escola ensine o aluno a falar errado! Perguntei o que é errado, e do ponto de vista de quem algo é errado, e se competêncialinguística não seria justamente se comunicar de forma diferente em diferentes contextos. Fiquei preocupada que meus alunos de Letras nunca tinham ouvido falar em Preconceito Linguístico, do Marcos Bagno, mas talvez eles só não tenham entendido a referência no calor da discussão. Espero.
Este “escândalo” todo é
um bom modelo de como a gente não deve aceitar as “verdades” da mídia sem refletir, sem pensar, sem correr atrás de informação. Porque o livro do MEC que os reaças parecem querer queimar na fogueira não fala nada dissoque dizem que ele disse. No YouTube há um exemplo brilhante do que acontece quando uma jornalista chama especialistas pra uma entrevista e eles se recusam a repetir as besteiras previamente estabelecidas pela mídia (veja a Monica Waldvogel sugerindo, injuriada, se não discriminar um aluno que fala “errado” não equivale a confundi-lo).
Bom, eu quis chamar alguém muito mais gabaritado do que eu pra discutir o assunto, e portanto pedi pro Diego Jiquilin, umfofo que conheci (ainda não pessoalmente) pelo Twitter, pra escrever um guest post. E ele atendeu prontamente. Diego tem um excelente blogsobre língua e atualmente é professor leitor no Paraguai. É formado em Linguística pela Unicamp, fez mestrado em Filologia Hispânica na Espanha, e cursa doutorado em Linguística, também na Unicamp. E olhem só, nem todas essas credenciais fazem com que o Diego (e, pra ser franca, nenhum outro linguista que li) tenha a arrogância de dizer para um aluno “Você não sabe falar sua própria língua materna, seu pobre”. Mas é essa mesma arrogância que tanta gente da classe média quer manter. E sem apresentar credencial nenhuma além do seu privilégio de classe.

Na Idade Média (e por muito tempo depois dela), as pessoas validavam um conhecimento como verdadeiro se a igreja o confirmasse como sendo uma “verdade”. De lá pra cá, algumas coisas mudaram, porque trocamos a igreja pela universidade (bom, no caso da camisinha, a igreja ainda faz muita gente acreditar que usá-la é errado). E pudemos também relativizar cada vez mais essas verdades.
Mas, no resto, a universidade ganhou esse papel de abalizadora do conhecimento. Quantas vezes não escutamos: “segundo pesquisas da universidade X (e nesse X costuma vir o nome de alguma universidade poderosa dos EUA), a gordura TRANS faz Y (e nesse Y vem um monte de consequências ruins)”.
Por um lado, é bom que tenhamos substituído a igreja pela universidade, afinal existe todo um método científico para se desvendar o conhecimento. Mas, por outro lado, em muitos casos, apenas substituímos os velhos preconceitos por novos (ou o vestimos com uma nova roupagem). A academia também cria e legitima seus preconceitos, lembremos da psicologia evolucionista, por exemplo.
Se antes, qualquer um que contrariasse a ideologia da igreja, iria para a fogueira, hoje isso já não acontece (acho que porque já não fazemos fogueiras humanas). O que nos diferencia de forma capital de nosso passado é que a academia também combate esses preconceitos. E as polêmicas em torno desses problemas é que fazem as ciências e as sociedades caminharem.
No entanto, esse discurso da verdade é mais ou menos heterogêneo entre as distintas ciências. Aquelas que movimentam mais capital são “mais verdadeiras” que aquelas que movimentam pouco capital. Trata-se de uma equação muito simples. Na verdade, uma ciêncianão é mais verdadeira que outra, mas os seus discursos validam mais verdades que outras. E tudo isso tem uma relação com o poder político-econômico.
Com isso quero dizer que as ciências ditas humanas têm uma voz muito fraca na sociedade, enquanto que as ciências exatas e biológicas são as que geralmente respaldam as “verdades” do mundo.
A Linguística, que é a ciência de que me ocupo, é uma das que menos tem valor. Mas isso não se deve apenas ao fato de que ela faz circular pouco capital, como venho dizendo. Devo somar também dois outros fatores:
i) Quase ninguém sabe sobre a Linguística. O que ela é. O que ela estuda. Como ela estuda. Para que serve;
ii) A língua, que é seu objeto, está em toda parte. Todas as outras ciências são permeadas pela língua. A arte é perpassada pela língua. Tudo que é humano tem uma língua.
Então, nós, os linguistas, temos de lidar com nossa insignificância, porque não descobrimos petróleo, porque somos ignorados pela sociedade e porque qualquer um se sente apto a falar o que bem quer sobre as línguas.
E neste último ponto reside uma polêmica. Eu acredito que todo mundo deve discutir sobre as línguas, é um exercício saudável, como veremos no caso anedótico da vez. Mas opathos deve ficar guardado.
Toda vez que alguém fala de língua (geralmente da sua língua materna), ele evoca todo um sentimento ufanista, de proteção ao seu idioma etc.
Quase todo mundo é reacionário em matéria de língua! Quase ninguém sabe lidar com o fato de que a língua muda.
Mas por que as pessoas não conseguem ver o óbvio sobre a sua língua? De alguma forma, é porque a escola durante muito tempo as treinou para que elas não pensassem, não fossem criativas. A escola durante muito tempo só trabalhou com questões de memória. E memorizar uma gramática de normas (a gramática normativa) sempre foi, para a escola, mais fácil que observar a língua e seus usos. A gramática normativa sempre foi o escudo dos reacionários, o escudo das maiorias, o escudo do preconceito linguístico.
E agora que estamos diante de mais uma polêmica linguajeira fica evidente o quanto essa ideologia fascista, que não sabe conviver com as diferenças, é um sujeito oculto nas mentes brasileiras.
O livro didático de língua portuguesa adotado pelo MEC (Ministério da Educação) é quem traz a lebre dessa vez.
Armou-se o maior frisson, nos últimos dias, porque o MEC supostamente estaria propagando a mentalidade de que discutir a língua em uso é necessário. Já pensou?! Pobres das crianças, agora elas seriam obrigadas a pensar mais sobre a língua que elas usam!
Mas aí também há um equívoco: o livro, que se intitula Por uma Vida Melhor, não é destinado às crianças. Ele é adotado pelo programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA).
O capítulo “Escrever é diferente de falar” deu pano pra manga, porque as autoras mostraram as regras de funcionamento de uma variedade coloquial falada do nosso português brasileiro. Ou seja, elas fizeram as vezes de um linguista!
Ao contrário do que se anda dizendo por aí, o livro não prega que não se deva ensinar a gramática normativa ou a norma culta; pelo contrário, por meio da discussão das outras variedades do português é que se contextualiza essa norma culta. Como também sou professor de português para estrangeiros, sempre faço isso nas minhas aulas. Já pensou um estrangeiro falando como um livro? Seria muito estranho, não?
O que chama mais atenção nesse alarde todo é que a reação começa na mídia.Vocês viram como fala bonito o tal de Alexandre Garcia?[Nota da Lola, que não pôde resistir: só agora vi o discurso revoltado do jornalista, e meu deus! Ele fala em "vencer na vida", no valor de "uma educação tradicional e rígida" e da meritocracia, e lamenta que no Brasil, este país não-civilizado, bandidos não sejam algemados. Todo o ideário da classe média resumido em poucos minutos!].
“Aboliu-se o mérito para não constranger”. Eu morro de rir com essas frases, porque é gostoso ver um reaça se afogando com a voz da ciência (esse é um dos casos em que a ciência combate um preconceito!)
Gente, se abolirem a meritocracia, o que será dos bem-nascidos? Eu tô morrendo de dó deles. Imaginem só, os negrosteriam maior acesso ao ensino superior. As mulheres poderiam ganhar um salário mais igualitário ao do homem. Os homossexuais poderiam adquirir direitos civis. E os pobres poderiam falar como falam!
Sendo assim, nada de ensinar as variedades coloquiais faladas pelo povo!
E você também poderia me refutar: ensinar um estrangeiro não é como ensinar o falante nativo. Claro que não. Não se trata de ensinar a variedade popular para o nativo. Aposto que essa variedade ele já aprendeu por aí! Gente, é só uma questão de inclusão, de reflexão, de contextualização da tão importante norma culta.
Lembro-me sempre nas épocas de campanha do Lula. A imprensa caía matando, porque o Lula falava “errado”: um presidente que não sabe nem falar, vai presidir o país como?
Realmente, a mídia é completamente ignorante quanto aos assuntos sobre língua. Nesse nosso caso, ela só deixa evidente qual é a sua ideologia: a das direitas conservadoras.
Para que fique claro de uma vez por todas, não existe certo e errado na língua. “Gramática” não é sinônimo de “gramática normativa”. Toda língua, toda variedade tem gramática. Toda língua, toda variedade se organiza em torno de regras. “Os menino foi” tem regras de concordâncias mais parcimoniosas que “os meninos foram”.
E onde uma é usada, onde a outra é usada? Quem as usa, em que contexto as usa? Estas seriam indagações muito mais interessantes para aquele que reflete sobre sua língua.
Pergunto novamente: por que as pessoas não conseguem entender essas obviedades todas? Eu já disse que a escola tem muito a ver com isso. Mas a sociedade também tem. Andei lendo muitas besteiras no twitter e no facebook.
Quase todo mundo compra a ideia de “certo/errado”. Quase todo mundo achou um disparate o MEC gastar a verba publica com um livro desses. Quando o Bolsonaro também gastou grana publica para fazer a sua cartilha anitgay, todo mundo também achou um disparate. Todos entenderam o seu conservadorismo. Mas é uma pena que ninguém consegue entender o conservadorismo quando se discute sobre a língua.
Até mesmo os outros cientistas, os que não são linguistas, não entendem os mecanismos da língua. Eu já vi muito intelectual falar asneiras sobre linguagem. Já presenciei muitos educadores, filósofos, cientistas políticos, sociólogos, antropólogos falarem burradas sobre as línguas. O que não tenho a dizer dos cientistas que mais movem a economia? Estes sim, estão completamente do lado da mídia ignorante.
Como o professor Sírio Possenti costuma dizer: nós, os linguistas, não nos atrevemos a fazer xampu ou a criar aviões ou a buscar a cura para o câncer. Simplesmente por que não fomos treinados para isso! Mas, por que todo físico, químico e biólogo, por exemplo, fica à vontade para arbitrar sobre línguas? Acho que eles estão acostumados com o poder. Só pode ser isso.
Mas o pior de tudo são os jornalistas, porque eles cumprem o papel de mediadores entre o senso comum e a ciência. Jornalistas não são só ignorantes, conservadores, direitoides, são mesmo incompetentes. Eles sim são os que erram no uso da gramática normativa (porque a gramática normativa é a ferramenta de trabalho deles), eles sim são os que não perdem a oportunidade do sensacionalismo, tudo a troco de ibope, de audiência e de vendagens.
Quando a linguística ganha um pouco de voz e consegue chegar numa sala de aula, de EJA que seja, toda essa velha mídia ressurge e tenta destruir um passo gigante na democratização da cultura e da educação. Trata-se dessa mesma mídia que falta com o respeito aos profissionais da linguagem, aos professores e aos educadores. Que faz sensacionalismo com um massacre como foi o de Realengo, que acoberta um regime militar odioso, que tenta destruir o popular. Aposto que denunciar as reais mazelas da educação a velha mídia não consegue (aliás, ela só tem abafado e ocultado as greves de professores).
O que você faz com a sua língua? Chegou a hora de você pensar o que você faz com a sua língua! Você faz tudo o que gostaria? Ou faz aquilo que a mídia manda vocêfazer? Repete opressões? Repete o preconceito (linguístico)?
A lição, em tom de clichê, é antiga: não acredite em tudo o que você lê nos jornais. Nem acredite em tudo o que você vê na televisão. Nem acredite em tudo o que você ouve nos rádios. A opinião, o achismo dos jornalistas, no caso do livro didático do MEC, falou mais alto que o fato verdadeiro. E você o que fez? O que fez com sua língua?
Ao destruir os pressupostos de um argumento, destruímos o argumento. Se a Linguística diz que não há certo e errado, como pode ser verdadeira uma notícia assim, “Livro usado pelo MEC ensina aluno a falar errado”?
Quando todo mundo começar a entender que “escrever é diferente de falar”, e entender que a língua varia e se transforma, entenderemos porque a elite reclama que sua norma já não é a única prestigiada. Tampouco precisaremos mais escrever livros que já exprimem em seus títulos um desejo do povo, na variedade do povo, num engasgo próprio do povo, que é a de uma luta “Por uma vida melhor”.


quarta-feira, 18 de maio de 2011

A imprensa marrom e a divulgação virulenta

Esta é uma estória de uma imprensa que adora falar (escrever ou urinar) a verdade, nada além da verdade, custe o que custar, mas que, às vezes...

NOTA PÚBLICA

Livro para adultos não ensina erros

Uma frase retirada da obra Por uma vida melhor, cuja responsabilidade pedagógica é da Ação Educativa, vem gerando enorme repercussão na mídia. A obra é destinada à Educação de Jovens e Adultos, modalidade que, pela primeira vez neste ano, teve a oportunidade de receber livros do Programa Nacional do Livro Didático. Por meio dele, o Ministério da Educação promove a avaliação de dezenas de obras apresentadas por editoras, submete-as à avaliação de especialistas e depois oferece as aprovadas para que secretarias de educação e professores façam suas escolhas.

O trecho que gerou tantas polêmicas faz parte do capítulo “Escrever é diferente de falar”. No tópico denominado “concordância entre palavras”, os autores discutem a existência de variedades do português falado que admitem que substantivo e adjetivo não sejam flexionados para concordar com um artigo no plural. Na mesma página, os autores completam a explanação: “na norma culta, o verbo concorda, ao mesmo tempo, em número (singular – plural) e em pessoa (1ª –2ª – 3ª) com o ser envolvido na ação que ele indica”. Afirmam também: “a norma culta existe tanto na linguagem escrita como na oral, ou seja, quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta”.

Pode-se constatar, portanto, que os autores não estão se furtando a ensinar a norma culta, apenas indicam que existem outras variedades diferentes dessa. A abordagem é adequada, pois diversos especialistas em ensino de língua, assim como as orientações oficiais para a área, afirmam que tomar consciência da variante linguística que se usa e entender como a sociedade valoriza desigualmente as diferentes variantes pode ajudar na apropriação da norma culta. Uma escola democrática deve ensinar as regras gramaticais a todos os alunos sem menosprezar a cultura em que estão inseridos e sem destituir a língua que falam de sua gramática, ainda que esta não esteja codificada por escrito nem seja socialmente prestigiada. Defendemos a abordagem da obra por considerar que cabe à escola ensinar regras, mas sua função mais nobre é disseminar conhecimentos científicos e senso crítico, para que as pessoas possam saber por que e quando usá-las.

O debate público é fundamental para promover a qualidade e equidade na educação. É preciso, entretanto, tomar cuidado com a divulgação de matérias com intuitos políticos pouco educativos e afirmações desrespeitosas em relação aos educadores. A Ação Educativa está disposta a promover um debate qualificado que possa efetivamente resultar em democratização da educação e da cultura. Vale lembrar que polêmicas como essa ocupam a imprensa desde que o Modernismo brasileiro em 1922 incorporou a linguagem popular à literatura. Felizmente, desde então, o país mudou bastante. Muitas pessoas tem consciência de que não se deve discriminar ninguém pela forma como fala ou pelo lugar de onde veio. Tais mudanças são possíveis, sem dúvida, porque cada vez mais brasileiros podem ir à escola tanto para aprender regras como parar desenvolver o senso crítico.

Aqui está o link para:

Capítulo do livro na íntegra: http://www.acaoeducativa.org.br/downloads/V6Cap1.pdf


Informações sobre o caso: http://www.acaoeducativa.org.br/downloads/ESCLARECIMENTOS_AE.pdf


quinta-feira, 5 de maio de 2011

Eros e Psique - A cupidez no Olimpo

Por: INÊS MOTAObjeto Obscuro

Conta a lenda que vivia uma asquerosa lagarta que em seu curto período larval passeava distraidamente pela horta de repolho roxo transgênico, daí a sua coloração. Ela era cleptomaníaca e roubava nacos do vegetal, não porque sentisse fome, mas para alimentar seu TOC e conferir uma corzinha vinho ao seu corpo e chamar a atenção quando fosse posar de fatal para fotos no red carpet.
Chamava-se Psique e, conforme está escrito na mitologia, pouco tempo depois, superando todas as dificuldades, infortúnios e sofrimentos, desperta do sufocante estado de pupa/túmulo e se transforma numa linda e leve borboleta de asas diáfanas, embelezando toda a plantação de soja florida na primavera que despontava em Mato Grosso do Sul. A soja da Amazônia será mencionada posteriormente e até lá talvez já não haja mais floresta alguma.

Está claro, entretanto, que isso tudo não passa de uma metáfora: Psique era em verdade uma delicada e formosa jovem com um par de asas que dava gosto ver e que se preparava para viver com plenitude um grande amor. Formiga, quando quer se perder, cria asas. Isso se aplica também às lagartas.
Entretanto, Vênus, a bela deusa vulgarmente conhecida como Afrodite aqui na Grécia, revoltada por haver desposado Vulcano – o deus manco, fedorento e impotente que forjava o ferro, mas sempre negava fogo quando ela precisava – e não com o gostosão Marte, com quem passou a ter uma relação adúltera, mas principalmente por invejar a beleza de Psique, resolve tramar contra esta.
Assim sendo, ordena a Eros, vulgo Cupido aqui em Roma, o seu filho, que dê um jeito de Psique se apaixonar por um ser horrendo. Mas o plano não transcorreu exatamente como esperado. Eros, embora ardiloso, esperto, jovem e mentiroso pela própria natureza, não resistiu aos encantos de Psique e acabou tornando-se seu amante. Na moita, evidentemente, pois Afrodite cortaria as asinhas deles se viesse a saber. Ele a levou para a cobertura de um belo apart-hotel com piscina, sauna e tudo que a tinha direito uma bela mortal e os traficantes dos morros do Rio de Janeiro, e só a encontrava sob o manto negro da escuridão. Dentre outras coisas, como não poder usar minissaia, calças jeans cintura baixa, decote profundo, batom, frequentar baile funk na Vila Andrade, conversar por internet ou telefone com as amigas, posar nua para Rafael – a exceção era para Michelangelo – e, principalmente, sair com amigos do sexo masculino, ela jamais deveria tentar vê-lo. Era pro-i-bi-do! E assim tudo transcorria na mais plena felicidade.
Ocorre que as ambiciosas irmãs de Psique, já devidamente instaladas em luxuosos apartamentos funcionais pagos com dinheiro do contribuinte, incentivadas pela mídia televisiva, começaram a encher o saco de Psique, insinuando que o tão misterioso amado era um monstro horrendo, que tinha chifres, calçava 52 e que quando ela menos esperasse ele iria comê-la. Além disso, insinuaram que ele ouvia Restart, Lady Gaga e Luan Santana, acabara de comprar a biografia de Justin Bieber e costumava assistir ao Domingão do Faustão. Foi a gota d’água.
Certa noite, Psique caminhou sorrateiramente até a alcova sagrada, decidida a descobrir a real identidade do seu amado. Empunhando uma facapeixeira (deveria ser assim pelas novas regras do Acordo Ortográfico) numa mão e uma vela preta de sete dias na outra, inclinou-se para mirar o rosto adorado e… “Ohhh…!!! jungle people, we are happy people!” – exclamou, tal foi a sua surpresa quando viu, placidamente adormecido com toda aquela candura e beleza em abundância, o Brad Pitt. Em carne, caras, bocas e sem a Angelina. Nesse exato momento uma bala perdida penetrou pela janela da cobertura, alojando-se no travesseiro esquerdo. Ou teria sido no direito? Indignado, ele exclamou: “PQP, esse travesseiro é de pena de ganso e me custou uma nota verde…” E, voando, desapareceu para sempre*.
Psique ficou inconsolável e, para punir as irmãs fuxiqueiras, usou todo o lobby possível na elaboração de um Projeto de Lei contra o nepotismo, propondo proibir a contratação de parentes nos órgãos públicos dos três poderes, alguns deles podres, o que acarretaria o fim do império de Niemeyer, transformando-o num deserto.
Decidida a recuperar a confiança de Eros, Psique o procurou dia e noite. Fez uma ronda por todos os bares da Avenida São João, juntamente com Maria Betânia, e nem sinal dele. Desesperada, comprou uma bolsa Louis Vuitton e foi pedir misericórdia à sogra, que de pronto aceitou o presentinho e, embora sabendo seu paradeiro, impôs algumas condições para trazer o filho de volta aos braços da nora. Afinal, ele estava internado numa clínica para menores infratores, atravessando sérios problemas psicológicos, pois não se conformava em haver sido queimado no ombro esquerdo – ou seria no direito? – com um pingo de óleo do rosa mosqueta. Uiii!
Assim sendo, não havia outro jeito. Psique teria que cumprir as quatro tarefas impostas por Afrodite:
A primeira e a mais difícil de todas era fazer com que o ex-Presidente Lula parasse de falar por metáforas e, como a própria Afrodite sabia tratar-se de perda de tempo, dado o grau de dificuldade, sem mais delongas pulou logo para o desafio seguinte.
A segunda consistia em conseguir identificar e separar todos os grãos de granola de uma tigela de açaí na tijela, inclusive especificando o tipo de banana usada no preparo, antes que a negra bomba energética concentrada se espalhasse como hábito alimentar pelo resto do mundo. Foi moleza. Uma amiga que gostava muito da banda Calypso, comovida com a tristeza da jovem, resolveu o problema sem maiores dificuldades.
Para realizar a terceira tarefa, Psique deveria ir até a Granja Solar e conseguir a maior quantidade possível de buchada de carneiro light que pudesse. As ovelhas, contrariando a contumaz subserviência, estupidez e alienação, a princípio se recusaram a deixar seus companheiros morrer pela causa, mas, doutrinadas por Napoleão e Bola de Neve, aliados dos humanos, e de alguns políticos inescrupulosos brasileiros que promovem a vergonhosa farra das aposentadorias vitalícias, ofereceram os couros às varas com relativa facilidade.


Na quarta tarefa, Psique teria que convencer Prometeu a devolver o fogo roubado dos deuses e resolver as pendências antigas da famigerada caixa de Pandora. Deveria então dirigir-se até Perséfone e trazer a tal Caixa que continha, dentre outras coisas, que iríamos saber posteriormente, um programa Photoshop pirata para retocar as fotos de Afrodite, que não podiam em hipótese alguma ser postadas no Orkut na forma original. Ela só teria que se desviar de um cachorro feroz de nome Scooby Doo e do seu amigo babaca chamado Salsicha. Ocorre que mais uma vez a pobre mortal se deixa levar pela curiosidade e abre a caixa. Ao invés da beleza, só o CD pirata, como já havíamos mencionado, uma fita do Senhor do Bonfim, um relógio ornado com strass comprado na 25 de Março, um disco duplo da Xuxa (Xuxa só para baixinhos/Xuxocão) e um vidro de Dramim B-6 que ela sorveu de um único trago, pensando tratar-se de absinto, e caiu num sono profundo, coitada, antes mesmo de o ônibus da Jardinense com destino a Caicó quebrar na ida (e na volta) próximo à entrada de Currais Novos.
Felizmente, Eros, que havia escapado da clínica, vem em seu socorro e mete rapidinho todo o sono dentro da caixa – bem lá no fundo -, deixando de fora só a esperança de Mário Quintana, uma meninazinha meiga que se atirara do décimo segundo andar de um prédio verde e ficara completamente louca.
Por fim, Zeus Júpiter (allegro ma non troppo), que no decorrer da Guerra de Troia tomou partido pelos gregos ou troianos, de acordo com os seus interesses pessoais, inclusive atendendo aos rogos carinhosos de Tétis para apadrinhar o mimado Aquiles, ou às constantes pressões incestuosas da esposa-irmã Hera, após consumir algumas caixas de viagra, consegue apaziguar Afrodite e esta permite a ratificação do casamento dos pombinhos – no civil e no religioso -, sendo conduzidos por Hermes, o fuxiqueiro-mor do Olimpo, até à Assembleia dos Deuses.


Olimpo, afresco, c.1850.
Luigi Sabatelli

Ali, após grandiosa farra regada a ambrosia, no devido tempo, quando o governo brasileiro ainda não tinha a menor ideia de como realizar as tão profundas e urgentes reformas fiscais, políticas e previdenciárias e as empresas de publicidade no país estavam longe de descobrir uma fórmula de produzir comerciais de dentifrícios menos idiotas, nasce um menino chamado Voluptas (Prazer!) e, até hoje, pasmem, ainda rola uma confusão com esse negócio de exame de DNA pra saber quem é o pai.


Fim

Nota

*Sempre – Unidade de medida de tempo usado antigamente na Grécia antiga, que equivale a “vou ali e volto já”.




Imagem: Pandora, de John William Waterhouse

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O mar, a música e a porcaria

Afastou-se da porcaria que era o seu marido, juntou umas poucas peças de roupa que realmente prestavam, empacotou alguns discos que ela achava imprescindível para começar uma vida: Joni Mitchell, Petti Smith, Clapton, Coltrane, Stanley Jordan. Claro, era uma melancólica e contempladora, gostava de vodca vagabunda e baseado, mas em matéria de uísque, só aceitava os de 12 anos. Ouvia, sempre ao chegar do trabalho, música na penumbra do apartamento, com aquele mar batendo em ritmos jazzísticos. Aí ele chegava e acabava com tudo, com o jazz arenoso e salgado, com o uísque cowboy e a música, sempre no contraponto das tragadas de cigarro. Afastou-se da porcaria porque não aguentava mais aquele cheiro de perfume que não tinha na penteadeira, nem no banheiro; não aguentava o jantar de negócios que terminava às duas da manhã todas as terças e quintas, nem as vísceras do domingo com a família dele e todo aquele papo furado do “eu te amo” antes do sexo mensal e muquirana que não a deixava gozar. Planejou com cuidado o aluguel de um flat, telefonou para o filho que morava em São Paulo, desperdiçou outras “n” ligações para amigos e colegas de trabalho, colocou na mensagem do facebook o novo endereço e gastou todo o batom no espelho da penteadeira. Afastou-se da porcaria antes dele chegar à casa e ler o que ela havia escrito: “Vai tomar no cu você e a sua puta!”

sexta-feira, 8 de abril de 2011

?!

...e era ele a ser tragado pelos desdobramentos de sua mente, percevejo de si, acabou por indecifrar o sentido do cosmos resolvendo ser Jesus e pregando o sentido cartesiano de Buda. Entre a espada de Jorge ou a de Moisés, intitulou-se a besta dos tempos modernos e recitou Crowley, mas o que queria mesmo era provar-se islâmico para, mais tarde, defender a Cabala. Era exatamente a personificação do que desejamos expurgar de nós mesmos.

Reinventar o Todo e subvertê-lo aos caprichos humanos, humanizando-o ao limite da irracionalidade é o que fazemos diariamente, contudo, não se admite que o Leiteiro morra! Não o Leiteiro de Drummond! A sua natureza pura e primaveril, bela e angelical, o seu amanhecer é a nossa salvação! O Leiteiro é o redentor dos nossos demônios.

...e era a besta a ser tragada pelo labirinto, queimando o Rei de Espadas, no vazio absoluto de Malkuth invertido. Ele era o intrago de se sentir Kether.

Foi neste desnorteio que adentrou a escola.

Foi nesta ânsia de ser supremo que baleou os brasileirinhos.

Foi querendo ser Shiva que rebatizou-se Louco, simplesmente. Não era mais um homem, mas o animal, o criminoso, a loucura central, o desnível niilítico, a catarse da nossa própria miséria.

E foi neste atormentado acontecimento que o Leiteiro morreu.

E entre o sangue e o leite, transformando a cor, confirmando a aurora, foi que a besta teve o seu momento de vacilo e foi abatido por um Sargento carioca, que conhecia o João Hélio, que era pai da Lavínia e tio da Isabela.

O Sargento, cujo nome consta escrito no seu uniforme, junto com o seu tipo sanguíneo, lamentou não ter salvado mais. Não soube ele que tinha salvado o mundo inteiro.

A Morte do Leiteiro

A Cyro Novaes

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.


Carlos Drummond de Andrade


quinta-feira, 7 de abril de 2011

Jornalista

Hoje é dia do jornalista... Bom dia para lembrar que existem (e existiram) grandes homens na função difícil e amargurada do jornalista. Difícil? Sim. Procurar a verdade, custe o que custar, às vezes, custa mais caro do que se possa prever, querer, pensar. Difícil e amargurada porque a verdade não lhe traz alento algum, apenas àquela sensação de dever cumprido.

Verdade é uma palavra complicada, principalmente porque vem sempre desvinculada do absolutismo. Buscar a verdade é algo tão difícil quanto amargurado, pois não há olhos o suficiente para focar todos os fatos, fotos, formas, para analisar todos os ângulos, âmagos, âmbulos. Eis o caminho do jornalista. Mesmo quando a verdade é ululante e pulsa nos cornos, a dúvida precisa imperar. Jornalista é uma palavra complicada. Por isso, talvez, existam tão poucos jornalistas de verdade.

Minha amiga Ana Cristina, jornalista, postou a seguinte mensagem (extraída do Sindicato dos Jornalistas do Amapá):

Para muitos, o jornalista é testemunha ocular da história; para outros, é um narrador do seu tempo. Já o Sindicato dos Jornalistas do Amapá prefere uma definição mais ética e política: o jornalista deve ser um defensor intransigente da liberdade de expressão, da sociedade e da democracia.

Amém.

quarta-feira, 23 de março de 2011

"Seu Chico"

Por: Euza

Dizem que mineiro adora contar um “causo”. E é verdade. Teve um mineiro na minha vida que não só me ensinou a acompanhar histórias mirabolantes como a dar finais insuspeitos às mesmas histórias mil vezes contadas.

Meu avô era um mulato alto, magro e orgulhoso. Neto de escravos, traçou seu destino ao encantar-se pela filha mais velha do farmacêutico da cidade. Minha avó era uma "branca bem apanhada” – descendente de portugueses, tinha pele e olhos claros - mas a alma era miscigenada como a terra em que nascera. Era professora - e mais tarde seria diretora - da única escola que havia na cidade.

Naquele tempo, professora era autoridade. E marido de professora era o consorte da autoridade – portanto tão respeitado quanto ela. Viviam num casarão barroco de inúmeras janelas azuis. Janelas que se encheram todas com rostinhos que variavam do mulato ao branquinho. O rostinho mais velho era da minha mãe – que viria a ser também professora e se casaria com o recém-chegado farmacêutico, aquele que herdaria as portas estreitas e compridas da botica do lugar e viria a ser declaradamente um dos “comedores de criancinha”, herdeiro dos ideais do “cavaleiro da esperança” - este me ensinou a fazer História.

Meu avô não era letrado, mas tinha uma inteligência privilegiada, uma rara habilidade com as mãos e a alma plena das artes. Esta mistura de dons fez dele um dos homens mais ambicionados e invejados das redondezas – para desespero da minha avó que se roía de ciúmes do “seu Chico”! Mas ele era o parceiro ideal daquela descendente de cristãos novos que herdara a alma idealista e o coração conspirador dos inconfidentes da velha Vila Rica. Juntos revolucionaram a cidadezinha com suas peças teatrais - escritas por ela, montadas e dirigidas pelo Seu Chico - com seus saraus de poesia ao som de sax (às vezes clarineta) e as noitadas folclóricas onde a moçada cantava e dançava ao som da viola caipira.

Meu avô tinha muitas histórias. Ele tinha o dom de fazê-las e vivê-las e inventá-las e contá-las. Às vezes, tento me convencer de que há em mim uma veiazinha do “seu Chico” conduzindo meu sangue multirracial. Gosto de histórias, mas reconheço que saber contá-las não é pra muitos.

terça-feira, 22 de março de 2011

As bolas fora da mídia

Por que o Mr. Presidente Umbanda veio ao Brasil? Queria conhecer o Cristo, o cisto, o misto, o risco? Não. Queria mostrar os seus dentes para as mentes que mentem, os crentes que creem e os ratos que roem? Não. Veio, talvez, por que o Brasil, depois de ser sobretaxado, vilipendiado e chamado de otário pelo Tio Sam, resolveu comprar e vender para a China (ou mesmo para a puta-que-pariu) em maior número e disposição, deixando o Tio Sam a ver navios e menos lucro? Por que o simpático veio, afinal? Falar sobre a sua admiração pela Presidenta que lutou contra a ditadura militar (ou contra eles, já que o próprio Tio Sam apoiou o golpe)? Falar dos times de futebol cariocas, da cidade comandada pelo sobrenatural (de Deus), da nossa feijoada? Bem, se você acha que a mídia o tratou como um super-ultra-popstar, esquecendo de analisar a verdade por trás da visão em tempo real, relaxe! Muita gente achou que a mídia promovia um show da Madonna, não uma visita cheia de simbolismos e pires-na-mão como verdadeiramente foi.

Aliás, a mídia precisa rever os seus conceitos sobre informação e sobre como informar. Dois casos ficaram latentes: a usina nuclear e a captação da cantora Bethânia.

No primeiro caso, a mídia televisiva disse que explodiria a usina (com ambiguidade mesmo!), o reator, o delator, o pensador, enfim, afirmou (mesmo com os especialistas dizendo ser quase impossível o advento de uma nova Chernobyl) que o Japão estava era fodido com a radioatividade, atividade, idade, e com a usina que iria para os ares. Não aconteceu (como os especialistas previam), mas quem se lembra de rir?

No segundo, a coisa foi, antes de mais nada, perversa. A captação, liberada pelo Ministério da Cultura, na escrita muquirana dos jornalões, pareceu favorecimento, falcatrua, macumba e fascismo. Não era. O governo libera a captação para todos, desde que haja um projeto bem amarrado, bem discutido e de interesse cultural. Maria Bethânia, declamando em 350 vídeos, será vista por muitos? Sim. É de grande interesse cultural? Sim. Divulga a poesia em um país pouco adepto à leitura? Sim! Ter um nome de peso se propondo a isso é bom? Não é bom, é maravilhoso! Em qualquer país, minimamente civilizado, tal fato ganharia destaque positivo. Aqui vira ofensa nacional. Enfim, eles passarão, ela passarinho (eu acredito).

quinta-feira, 17 de março de 2011

O impasse da Líbia

Este ótimo blogue foi, já faz algum tempo, recomendado por outro ótimo blogue. O cara entende muito do que fala e escreve bem (e escrever bem, no caso, é saber ser jornalista - informação sem ruído). Vamos a ele!




As revoltas ou revoluções nos países árabes têm ocupado as atenções do noticiário internacional desde o início do ano. Justo, pois, embora ainda seja cedo para fazer grandes previsões, já se pode falar que se trata de uma mudança radical e histórica. Em geral, são regimes opressores, regidos por ditadores que deixaram os anseios de seus povos de lado e se conformaram com o poder corrupto e desleal, por muitos anos.

No entanto, para quem não segue muito de perto a política local, a tentação de jogar todos estes países no mesmo saco é enorme e o tratamento da mídia, na maioria dos casos, não ajuda a distinção. Cada caso é um caso e tem suas particularidades. Cada nação tem uma história, formação específica e circunstâncias próprias que resistem ao impulso generalista de tratar essas nações como “o mundo islâmico” ou “os países árabes”.

A Tunísia tem uma classe média bem formada, muito contato com o turismo europeu. O Egito tem um Exército poderoso que, ao perceber o clamor popular e a incompatibilidade da rua com o regime de Hosni Mubarak, dispensou o ditador. O Iêmen, com instituições fracas, é outra história. A Arábia Saudita, monarquia absolutista, outra ainda. A Líbia, a bola da vez, também tem fatores bem específicos que tornam a revoltasingular.

O país é dividido em tribos, e, depois de 42 anos de uma liderança personalista e delirante de Muamar Kadafi, a coesão social é precária e as instituições são piores ainda. No caso de uma vitória da oposição, a transição, portanto, seria complexa. Kadafi conta com apoio de parte considerável da população (não se sabe ao certo quanto). No caso de uma vitória militar das forças leais ao ditador, a repressão aos opositores rebeldes, certamente, será implacável. E vai deixar um sentimento amargo para boa parte da população insatisfeita. Ou seja, vai ser ruim para o país – e para o povo líbio –de qualquer maneira.

A situação externa não é menos complexa. As potências ocidentais – quem mais se pronuncia a respeito e tem condições de agir –, estão alarmadas. Condenam os bombardeios contra civis, ameaçam intervir militarmente e já impuseram sanções que, como quase sempre, são pouco produtivas.

Até o momento, a chamada comunidade internacional tomou algumas resoluções e medidas:

1 – O Conselho de Segurança das Nações Unidas, órgão multilateral que tem poder de determinar uma possível intervenção e sancionar com respaldo geral, aprovou uma resolução que embarga a venda de armas e determina o congelamento de bens da Líbia no exterior. A ação foi reforçada pela Interpol. E condenou, o que é só retórica, mas passível de se tornar resolução mais de fato adiante.

2 – O Conselho de Direitos Humanos da ONU abriu investigação sobre Kadafi no Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade e suspendeu o país do órgão.

3 – Vários países 1 2 impuseram o congelamento de bens, fundos e ampliaram as restrições econômicas além das impostas pela ONU. A Rússia parou de vender armas a Kadafi.

4 – Os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França, o Canadá e a Itália deslocaram navios de guerra para o Mar Mediterrâneo próximos à costa libanesa.

Paralelamente, a diplomacia correu solta, sem, até agora, chegar a uma solução concreta. A ação direta mais falada é a de impor uma área de exclusão aérea, para evitar que as forças de Kadafi continuem bombardeando os rebeldes e os civis. O debate não é de simples conclusão e tem implicações jurídicas, além de uma difícil costura política..

França e Grã-Bretanha apóiam a medida. Os EUA titubeiam em tomar uma decisão sem apoio mais amplo, já que passou por cima de todos os procedimentos regulares ao invadir o Iraque baseado em mentiras e deu no que deu. Washington fala em decisão na ONU, via Conselho de Segurança, o que é o procedimento correto legalmente. O Brasil insiste nessa via, cumprindo a tradição do Itamaraty de uma abordagem multilateralista. No entanto, o Conselho de Segurança conta com a resoluta oposição da China e da Rússia, ambos com poder de veto. Na Otan, enfrenta resistência da Alemanha e da Turquia.

A ação militar tem sérias implicações. Para instituir uma zona de exclusão aérea, que autoriza o abate de aviões líbios na região determinada, será necessário um bombardeio para anular as defesas anti-aéreas de Kadafi. E elas são consideráveis e, pior, estão em regiões densamente povoadas por civis. Os EUA já cogitaram ajuda militar aos rebeldes, sem muito alarde, via Arábia Saudita. Rumores falam de ajuda egípcia. Mas, a ofensiva dos últimos dias virou o jogo a favor de Kadafi. E aí?

segunda-feira, 14 de março de 2011