sexta-feira, 20 de julho de 2007

Efeito borboleta

Este poema foi extraído do blog da Carolina Luisa, poetiza de mão cheia e caneta sedenta. Parabéns a Carol por nos dar beleza enquanto chove, por tirar amor e alguma lição dos nossos corações tão chuviscados.

Onde a encontrar? Fácil: http://carolinaluisa.zip.net/



Efeito Borboleta

Sabe-se q o vento é teu tutor
e q viver é dançar
a cada 24 horas.

Perder a fala e suar frio
quando ele vem
quando ele venta no teu sudoeste.

Abra os olhos e se perceba
diante do sol
diante do tempo q é teu palco.

Pois se a vida é assim,
desregrada por si só
corte tuas asas
e use a tua alma.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

A pedra filosofal

Ao me deparar com a notícia de que o último livro do bruxinho mais conhecido do século XXI, Harry Potter, causa frisson e pedidos intermináveis pela internet, vejo-me puramente agradecido à J.K. Rowling, autora da façanha, ao imortal (ABL) Paulo Coelho, Dan Brown e tantos outros escritores que fizeram o que parecia perdido: resgataram os livros do limbo pouco visitado e fadado à negação (como já decretou a Igreja Católica dirigindo-se aos africanos; não pelos livros, mas pelo limbo), dando luz à sua forma e despejando-os nos braços do povo outra vez, daqueles que, salvo raras circunstâncias, só se interessam (teoricamente) por aparelhos de televisão, video-game e internet.

Muitos críticos torcem o nariz até aparelhá-lo aos céus, preferem a morte a ter que admitir alguma contribuição destes escritores à literatura universal. Eu compactuo muito sobre a relevância de certos livros dentro da literatura. Acho Paulo Coelho um grande contador de estórias, mas péssimo escritor no que diz respeito ao corpo, à estrutura textual; Paulo é bom narrador, sabe prender o leitor, mas não faz a menor idéia de como acabar um romance ou como trabalhar melhor suas personagens, quase sempre superficiais. Mas desqualificá-lo enquanto literatura é ridículo. O nosso mago vende milhões de exemplares do seu trabalho, já fechou contrato com o cinema americano e divulga (sim!) nossa literatura brasileira em todas as dezenas de países por onde é editado e traduzido. Graças a ele, muitos escritores de “renome” e “consagrados pela crítica” sonham em um dia caírem no reconhecimento mundo afora. Sem falar que literatura, assim como a própria língua, é uma manifestação em movimento, portanto viva, que precisa andar na multidão, fazer sexo com o povo, levar beleza aos homens, e não ficar escondida, restrita aos acadêmicos e “críticos” literários.

Com relação aos livros de Dan Brown, principalmente o cinematografado “Código...”, além de vender horrores e dar um nó na cabeça dos críticos, Dan instigou muitas pessoas a viajarem, pesquisarem, buscarem a história, iniciando muitos no terreno não só da literatura, mas da história. Seu “Código...” abriu caminho para os loucos e intolerantes, sim, mas também abriu discussões, ressuscitou a teologia e colocou grandes acadêmicos no meio da multidão. O que é verdade ou ficção no livro é o que menos importa. O caminho do livro já é pura literatura. E isso, por si só, já é positivo.

J. K. Rowling está de parabéns. Sete livros bem amarrados, diz a crítica especializada, e bem escritos. Graças a ela, muitos conhecerão outros autores, melhores talvez, mas outros, isso é o que importa. Como ela pegou uma faixa etária interessante, a possibilidade desses jovens comprarem mais livros daqui pela frente é uma vitória da literatura, dos editores (que poderão contratar mais escritores) e nossa, amantes incondicionais dessa manifestação artística.

Viva as Clarices que existem no mundo, os Machados e Saramagos universais! E viva também os Coelhos e Browns da vida, responsáveis pelo movimento e, ainda, interesse pela literatura.

Essa vida da rua


Fernando Calazans, um dos melhores jornalistas esportivos deste país, publicou um texto, em O Globo (18/07/2007 - Esportes - pág.:15), simplesmente fantástico intitulado "Essa vida da rua". Para mim, mais do que uma coluna sobre esportes, uma produção textual sobre o limite humano, uma ode à superação. Calazans sai emocionado. E eu também. Vamos à coluna:


"Depois do ouro no pódio da Copa América, na Venezuela, vamos deixar a seleção brasileira e o Dunga um pouco em sossego (até para ver se ele se cura da irritação que o domina) e vamos dar um pulo no pódio do Pan-Americano, mas, por coincidência, ainda com o tema das crianças, abordado ontem. Eram as crianças do Pelé, no milésimo gol, e as crianças do Dunga, na Copa América.



Cada um a seu tempo, o ex-jogador e o atual técnico dedicaram as duas façanhas às crianças, Pelé mais atento às crianças pobres do Brasil, Dunga mais preocupado com as crianças do mundo inteiro.


O primeiro atleta brasileiro a ganhar o ouro, o Diogo Silva, no Taekwondo, não se dirigiu às crianças em geral, mas a uma criança em particular - a criança que era ele próprio, a criança que ele próprio foi.


Mais do que seu choro contido no primeiro lugar do pódio, ao ouvir o hino brasileiro, o que me impressionou foi a autenticidade de suas primeiras declarações. Muito emocionado ainda, ele disse mais ou menos isso: "O taekwondo é tudo para mim. Foi o que me fez largar essa vida da rua para chegar até aqui".


Dunga e Pelé que me perdoem, mas as palavras do Diogo foram mais fortes, mais sofridas e mais vividas do que as deles - sem querer desmerecer a sinceridade de um e de outro.


Diogo Silva não se dirigiu às crianças, nem pediu por elas. Ele mesmo era a criança pobre, sem muitas perspectivas, que o taekwondo - quer dizer, o ESPORTE - fez largar a "vida da rua", a vida maldita que o conduzia para muito longe dos pódios e dos hinos.


Será que as autoridades dos esportes, dos governos, dos patrocínios, não se sensibilizam e não se convencem de que o esporte - qualquer um - é uma das formas mais bonitas, mais decentes e até mais úteis para o país, a nação - uma forma de tirar crianças das ruas? Uma forma de colocar o Brasil nos pódios?


Não peço por atletas de alto rendimento, o atleta que o Diogo Silva é hoje. Mas sim pela criança que o Diogo Silva foi. Essa, a chamada base, deve ser o alvo dos programas esportivos e sociais. Não que o Diogo Silva adulto não precise de estrutura e de patrocínio. Até precisa. Mas o Diogo Silva criança é que precisa mais.


O Diogo Silva heróico, medalhista de ouro, do qual peguei emprestada a expressão "essa vida da rua" para - em sua homenagem - dar título à coluna."



quarta-feira, 18 de julho de 2007

JJ - 3054

Ele ligou a televisão e havia perguntas desconexas e extremamente lógicas ou ilógicas para ele, não dava para saber, sobre um seguro que só seria coberto pela seguradora se o avião estivesse com 185 passageiros, mas como o avião carregava 186 pessoas, pois um dos passageiros era um bebê, tal seguro poderia ser anulado. O presidente da companhia negou a anulação do seguro, afirmou o protocolo. Um repórter a essa altura o perguntou se só haviam 5 ou 6 mortos no armazém. Essa palavra “só” ficou homônima e paronimamente isolada em algum lugar, perdida no senso do grotesco. “Só”? É claro, depois de 186 passageiros, 5 ou 6 funcionários são poucos. Não dá mídia. Desligou a televisão e abriu os jornais comprados com angústia às 10 horas da manhã. Leu que o acidente pode ter deixado pelo menos 201 pessoas sem vida. Suspeitas de que a pista de Congonhas não estava própria para pousos, principalmente em dias chuvosos, por causa da não conclusão de certos “detalhes” na pista, como, por exemplo, as ranhuras que evitam deslizamento das aeronaves e ajudam no escoamento das águas. Fechou os jornais, mas não os dobrou; largou-os no meio da sala, calados e sem expressão, o que de certa forma destoava com as palavras bem torneadas e justamente colocadas ora em letras de grande destaque, ora simples e sem negrito; destoava, sobretudo, com a tragédia acumulada, anunciada, prevista, não pelos videntes de plantão que só divulgam previsões quando elas acontecem, mas previstas pelo mais simples homem de bom senso. Estava sem dormir, na empresa responsável ninguém fora capaz de informar nada sobre o seu primo. Não havia lista, ninguém sabia quem havia embarcado, como se aviões pegassem passageiros que descem de pára-quedas ou algo do tipo, “não há como identificá-los porque eles entram e saltam quando querem”. “Sabemos que não é por aí, só eles é que pensam que pensamos ser assim”. Abriu os jornais, ligou a televisão e apagou a luz da sala. Os excessos da mesma informação talvez anestesiassem a sua mente cansada de tantas palavras e vozes de dor, de ódio, de cansaço. Talvez o sono fosse inevitável e, quem sabe?, talvez viajasse para outras terras, outros mundos. Seu primo certamente emergiria em alguma lista dentro pouco, morto sem dúvida, porém, naquele momento, o aniquilado era ele. Tentava dormir sem fechar os olhos para não correr no erro de ficar imaginando a agonia das pessoas dentro de uma lata fantástica e vulnerável, não ficar pensando por horas no Boing da Gol, no Fokker 100 da TAM, nos 201, 185, 186, 154, 5 ou 6. Cabala? Não. Vidas Humanas. E ninguém vai preso.

terça-feira, 17 de julho de 2007

As vaias e o bico

O que há de errado em se receber, enquanto político, vaias orquestradas ou não? Existe algum escudo protetor que preserve os políticos de tal “afronta”? O país anda tão perfeito e o seu povo tão satisfeito assim?

Evelyne Furtado (http://evelynefurtado.blogspot.com/), em seu blog escreve algo pouco vislumbrado por todos:

Alguns leitores (...) diziam que os apupos vinham de uma classe privilegiada (...).
Pelo amor de Deus, será que essas pessoas não estão vendo que as vaias a Lula são uma prova da força da democracia pela qual ele e tantos outros lutaram?Não acho bonito vaiar, mas respeito essa demonstração pacífica de desapreço da população, seja de que classe social for.

Esta colocação é perfeita. Antes de mais nada, a vaia é um instrumento democrático que custou a vida de muitos brasileiros, é preciso que ao menos seja respeitado o direito, mínimo que seja, de quem quiser se manifestar dessa forma. Acredito que o momento não era para tanto, mas a expressão livre não precisa de momento. Ela é por si só.

Duas coisas me incomodam bastante. Primeira: por que, assim como o presidente Lula, o prefeito da cidade também não foi vaiado? Estaria ele impune dos problemas que assolam a sociedade brasileira? Teria ele mais a ver com a classe social que lá estava nas arquibancadas prestigiando a abertura dos jogos? Segunda: por que o presidente da república não abriu os jogos? Vaias o incomodam? Será que o cargo de presidente deixou de ser laico e estaria ele, Lula, achando-se próximo das divindades várias? Entendi o constrangimento e a mágoa, continuo não entendendo a sua atitude.

Se tudo for um complô para derrubar o nosso querido presidente, como muitos apregoam, então devem ser forjadas todas as notícias de estupro aos cofres públicos e tráfico de influências. Será que o irmão ingênuo e vários companheiros do comandante desta nação só conheciam os ricos honestos ou tinham (têm) contatos íntimos demais com ricos que não podiam e não podem declarar ao imposto de renda ou a qualquer órgão idôneo quanto ganham sem fabricar frias notas de bois e fazendas enormes de falcatruas?

Não vou aqui entrar no mérito das vaias serem ou não prejudiciais à imagem do país ou se elas foram reverberadas em momento pouco propício. As vaias, assim como os aplausos, fazem parte do esporte e da política, representados fielmente pela construção monumental do Maracanã e pela figura do presidente, portanto, nada a comentar sobre isso. Se foi orquestrado ou não, mediocridade de quem armou e vergonha de quem executou. Manifestações espontâneas são compreensíveis, politicagem armada em festas desse tipo é pilantragem, e pilantras não ganham o meu voto.

domingo, 15 de julho de 2007

Destinos Turísticos Secretos

Mais uma vez sinto-me obrigado a postar a excelente criação do artista Fernando Palma
Texto altamente criativo, leve e gostoso. Fico a me perguntar se inspiração existe, porém, como não formularia uma produção textual tão boa quanto a que o professor Halem Souza (Quelemém) concebeu em seu blog
(http://racaodasletras.blogspot.com/), indico uma olhada na página do professor.

Destinos Turísticos Secretos
Tudo que você precisa saber para chegar aos lugares que sempre desejou.

Infância
Vista algo leve, pegue o primeiro balão mágico passar perto de você, siga o rumo dos arco-íris e das nuvens mais engraçadas que encontrar. O caminho é longo, leve algumas jujubas para o caso de sentir fome. Tente não se preocupar com o lugar que está indo, ou que dia irá chegar. Quando realmente não estiver preocupado com absolutamente nada, parabéns, você chegou! Vá logo visitar as escorregadeiras, balanços, gangorras e outros pontos turísticos. Não se assuste com algumas gotículas mornas caindo do céu, não é chuva. São algumas bolas de sabão que vivem estourando o tempo inteiro por lá.

Amor
É uma viajem mais radical, opção boa para os aventureiros. As pessoas que chegaram lá ficaram muito felizes ou muito tristes. Portanto, se você não gosta de correr riscos, desista. Não acredite nesses mapas que vendem por ai prometendo leva-lo rapidamente, é todo lorota. Escolha a companhia certa, colha algumas flores, decore sua casa antes de partir, seu corpo. Compre uma vasilha grande para aguardar as lagrimas caso a viajem dê errado (eu falei que era arriscado). Mas vale a pena, dizem até que quem não o conhece, morre solitário. Sim, bem polêmico. Não esqueça de levar alguns dvds de comédias românticas, laços para embalar presentes, pipoca, vinho, e boa sorte.

Inocência
É o lugar mais contraditório de todos: só está nele quem não sabe disso. Portanto, desconfie sempre, quem diz que está lá, não está. Da mesma forma, se você está tentando chegar a inocência, é porque já esteve e nem sabia. Não tente entender demais, passe para a próxima viajem.

Sonhos
Existem muitos lugares com este nome, por isso está no plural. Cada viajante tem seu predileto. A estrada é sempre ruim, cheio de quebra-molas, buracos e precipicios. Use pneus bons ou sapatos resistentes se for a pé. Não se incomode com as dificuldades, a demora é o segredo desta viajem: para quem alcança facilmente, o lugar simplesmente some do mapa. Isso mesmo. Os sonhos são uma espécie de lugares-mágicos e tem um monte de outras características inexplicáveis, sobrenaturais. Nem todos acreditam. Você que gosta de magia, não pode perder.
(Fernando Palma)

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Mais Fausto Wolff

Essa eu tirei de uma crônica do Fausto Wolff intitulada As 1002 noites, O Lobo (http://www.olobo.net/):
"Quando Sartre esteve no Brasil, o chefe de reportagem do Diário da Noite mandou o único repórter que falava francês decentemente para entrevistá-lo. O rapaz que não era exatamente brilhante, bolou uma frase de efeito. No meio da entrevista coletiva no Hotel Glória perguntou em francês sem acento:- O senhor acha que o existencialismo sobreviverá? Sartre olhou para o moço por um meio minuto, quase eternidade, e perguntou:- A quê?Todos os presentes caíram na gargalhada e o jovem repórter retirou-se envergonhado para voltar correndo cinco minutos depois Fez caminho entre os representantes da imprensa e quando estava bem na frente de Sartre, disse em alto e bom som:- O senhor sabe que a sua mulher trepa com um repórter de Chicago chamado Nelson Algreen? E era verdade."
O ser humano é isso mesmo? Pois é. E como melhoramos? Voltando a ser a barata dA Paixão Segundo G.H ou deixando de sê-la, fugindo dA Metamorfose?
Outras do Fausto, só que agora, de uma crônica (que eu reduzi) chamada Folheando o diário antes do embarque, Jornal do Brasil, 19/5/2007:
  • "Só sei que nada sei, mas às vezes me surpreendo sabendo coisas que não poderia saber absolutamente."
  • "Não se pode nem falar em democracia enquanto o Estado - não importa qual - não garantir casa, comida, hospital, escola, trabalho, transporte e educação a todos os cidadãos. Qualquer outra coisa é escravidão."
  • "Deus não está preocupado comigo e nem eu com ele. Se ele existir, espero que trate da sua vida e não seja um canalha. Eu trato da minha e procuro me comportar como um homem de bem. Faço isso por mim e não por ele, que não sei se existe. Ser como sou tem me dado alegrias e tristezas, mas isso nada tem a ver nem com Deus nem com o Diabo."
  • "Escrever bem é importante mas não é essencial. Essencial é a sinceridade. Pelo menos tentar ser sincero de todo o coração. Isso, em si só, já é um estilo. Um livro que não é o autor não serve para nada."
  • "Não é fácil para mim compreender o sucesso das religiões cristãs quando tenho certeza de que o último cristão verdadeiro morreu na cruz."

terça-feira, 10 de julho de 2007

O ódio incerto

Já estava planejado e era certo que a operação seria demorada, pouco cirúrgica ou convincente, mas seria apoiada e oficialmente legal. Aos primeiros sons que acordaram, sem dúvida, os deuses (Ares e Hades, principalmente), não houve tempo para pensar, sequer na filha que deixara em casa com febre ou na discussão com a esposa horas atrás, foi lá e fez o que disseram para fazer. Simples assim. Ou não tão simples. Em sua roupa o cheiro de pólvora era inevitável, como inevitáveis eram os gritos de delírio e demência de ambos os lados. O que caiu à sua frente não eram restos do seu corpo, mas do seu espírito, um resquício de virgindade e inocência cultivada em banho-maria por anos de amor familiar e educação adequada. O que caiu à sua frente, em meio a fumaça do ódio e do gatilho automático, era antes uma carcaça que o sol não conseguiu atingir primeiro, que a sociedade não conseguiu abraçar. O que caiu, caiu como um pacote, atropelando o cenário já opaco, de beleza duvidosa e rejeitada, atrapalhando o tráfego, as botas pesadas que ecoavam em solo incerto. Teve a sensação de euforia injetada, uma adrenalina confusa que era medo misturado à ordem primeira, medo misturado à locomotiva da ação. Precisava seguir em frente e derrubar mais um. Queria sumir por um segundo, rasgar a roupa suja de dúvida e secadura, mas um segundo era o tempo de um zunido, não havia espaço para a piscada de olhos, uma reflexão sobre a vida. A vida não estava ali. Só os gritos que indicavam sobrevivência lacrimejante. Os músculos estavam retraídos, precisava beber alguma coisa rapidamente, precisava ouvir Chico Buarque, amar, visitar os amigos, fazer um churrasco. Alguém colocou as mãos em seu ombro, era uma mulher que tremia nos lábios, que tremia com a alma, arrastando um garoto, pedindo ajuda. Como ajudar? E se ela cuspisse fogo redentor? Apontou o dedo indicador e mandou-a abaixar, mãos à cabeça, identificar-se. Estaria sendo humano? Não havia humanidade naquele momento. Os ponteiros do seu relógio andavam com preguiça, quase sussurrando algo aterrador. Mesmo com os ouvidos ocupados, pode ouvir do hálito roxo que saía da boca da mulher que o jovem era inocente, seu filho, seu mundo. O mundo havia desabado, o inocente mundo abria os olhos e gritava em terra vermelha algo gravitacional. Carajás estava ressurgindo na figura de uma favela.

segunda-feira, 9 de julho de 2007


Ao mestre dos mares!!
Domingo, dia 8 de julho, foi aniversário do grande mestre Fausto Wolff, o velho e ótimo Lobo. Li no blog do Pirata (comandante interino da nau do Fausto) que é possível até terça desejar um feliz aniversário para o nosso colunista em:
Não custa muito escrever ao Fausto, homem que dedicou muito da sua vida a nos ensinar conceitos de retidão, honestidade, jornalismo, ética, honra. Salve, grande Lobo! Você é um dos poucos que, mitológico, serve-nos de espelho e direção!
Longa vida ao Fausto!!

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Um professor, certa vez


Pomba branca sobre gambiarra e urubu em teto de zinco quente
(Sandra Camurça)




Um professor uma vez, disse para seus alunos que não conseguia entender o brasileiro. Nem ele e nem a classe abastada econômico-social que insistia em matar o povo, subvertê-lo em máquina, “Construção Buarqueana”; reduzi-lo ao menor grau, intelectualmente falando, panfletariamente fazendo. Não entendia como essa gente não morria. Insistia em não morrer. Como dizia àquela letra do Milton: “uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas agüenta”.

Ao dirigir-se à turma e declarar sua enorme falta de entendimento sobre como sobre-vive o povo brasileiro, mirou ao longe, talvez avistando algo palpável na parece branca da sala, um ponto-de-fuga mental e metálico, e vocalizou algo do tipo: “o povo é como uma fênix, quando você pensa que morreu, ele renasce das cinzas”.

1350 policiais invadiram a favela do Alemão e há indícios de extermínio no ar. Isso fica evidente subtraindo o número de mortos (oficiais ou não-oficiais) pela quantidade de armas encontradas, como bem debruçou, de maneira sóbria e contundente, o jornalista Marcelo Salles no site do Observatório da Imprensa (O elogio do massacre):

Quem não se deixou levar pela irracionalidade, percebeu o seguinte (usando apenas os dados oficiais, reproduzidos pelas corporações de mídia): foram 19 mortos e 14 armas apreendidas. 19-14 = 5. Ou seja, se cada morto portasse pelo menos uma arma, temos que cinco pessoas estavam desarmadas. Há fortes indícios de que foram executadas.

A sociedade (ricos) exigiu tal atitude da polícia, quase a lançou à favela, por motivo simples: é melhor, para ela, a “barbárie fardada”, matando os “marginais” que a “barbárie de chinelos”, vomitando ódio às elites inoperantes. Portanto,há uma forte possibilidade de logo, logo termos notícias “normais” sobre abuso de poder, execução sumária, e coisas do tipo, mas tudo já estará cagado e bosta na praia de pobre não fede.

Mesmo assim, apesar da autoridade invertida, desrespeitosa, incompetente e desafiadora da paciência popular, o povo continua. Apesar de tudo ter começado com uma simples “caraca” na pele do poder, escondido pelas mangas compridas da corrupção e pelos acordos de “paz” entre chefes de Estado e traficantes, o povo continua; ganhando uma miséria de salário, uma miséria de governo. E a miséria é a miséria. Como já escreveu Renato Russo: “Não existe beleza na miséria, e não tem volta por aqui, vamos tentar outro caminho”.

Outro caminho sempre há, difícil é enxergá-lo depois da implosão cultural, educacional, explosão da saúde e dos transportes coletivos, depois de muitos relaxarem e gozarem (exatamente por que não precisam da caridade-esmola do Governo, mas se beneficiam com a generosidade infinita do poder) sem dar a mínima para os que realmente fazem e são a coluna e o alicerce do país. Mas outro dia sempre pode chegar.

É a fênix brasileira que, por ler muito Drummond, apesar dos pesares, resolve furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Dos amigos e das crianças

Ela brincava sozinha – gostava de brincar sozinha, sentia-se feliz assim, ou assim parecia para a sua mãe. Um dia, a mulher acabou de passar as roupas cedo e ficou sem nada mais para fazer. Guardou as peças passadas e decidiu dar uma olhada na filha que se encontrava na sala e sobre o que a criança brincava. Ao se aproximar do cômodo, notou que a prole falava alto, como que conversando e/ou discutindo com alguém. “Mas ela está sozinha!” Sim, a garota estava só e dialogava com “alguém”. Aproximou-se mais um pouco, mas agora fazia isso devagar, com os passos lentos, sem fazer ruído. Olhou ao redor – sim, ela encontrava-se sozinha. No entanto, parecia, pela cor avermelhada, aborrecida com alguma coisa. “O que está havendo?” A resposta veio de forma imediata e alterada: “A Carol quer brincar com a boneca da Júlia e eu estou tentando explicar que não pode porque a Júlia sempre chora quando ela tira a sua boneca...” Quem era Carol e quem era essa tal de Júlia? A mãe olhou para as bonecas em um canto da sala, notou que eram as que sua filha nunca usava, apenas as pegava e colocava-as em um canto da casa. “Mas eu não vejo nada, minha flor...”, disse a preocupada senhora. “É que elas só aparecem para mim.” A mãe não sabia o que dizer ou fazer, havia assistido a um filme sobre um rapaz esquizofrênico que via “amigos invisíveis” e, o filme, associado ao que acabara de presenciar, deixara-a em pânico. Disse qualquer coisa com a voz muito baixa e confusa e começou a andar pelo corredor; chegou à cozinha, bebeu um copo d’água e pensou seriamente no assunto. “Será que ela vê mesmo essas meninas? Será tudo isso fruto da sua imaginação fértil? Será que isso acontece com todas as crianças nessa fase?” Ouvira falar uma vez que as pessoas nessa idade possuíam uma pureza muito grande e eram, por isso, altamente receptivas ao contato com... “coisas assim”. Ouvira falar também que algumas crianças com até mais ou menos três anos de idade viam “amiguinhos invisíveis” ou, como era denominado, amiguinhos psíquicos e, como dizia uma reportagem, era extremamente normal. De qualquer forma, era preciso procurar ajuda, orientação psicológica e tudo mais, nunca se sabe. Voltou para a sala e observou atentamente a menina brincar com a sua boneca e com as suas “amigas”, estava(m) calma(s) agora e tudo parecia correr bem. De vez em quando, sua filha sorria ou gargalhava, a mulher olhava ao redor e não via nada além das paredes e móveis. Era estranho, mas... será mesmo?... “Será que os adultos estão tão corrompidos e sujos em seus corações que são incapazes de ver as coisas desse nível?” A mulher não tinha as respostas. Na verdade, a única coisa que latejava em sua mente era: será mesmo?...

segunda-feira, 2 de julho de 2007

A ponte

A operação feita na Favela do Alemão pelas forças policiais federal, civil e militar agradaram em cheio à classe média e aos ricos como um todo. Dezenove mortos, segundo relatório oficial, na maior incursão em conjunto já realizada em favelas cariocas com o número de mortos oficiais e não-oficiais.

Agora, a OAB quer fazer justo levantamento sobre em que circunstâncias foram mortos os supostos bandidos e se todos os mortos, contabilizados oficialmente, de fato eram soldados do tráfico. Tal iniciativa mostra-se descabida para uns, mas extremamente contextualizada para a justiça, pois sempre há a possibilidade de abuso de autoridade, execução ou algo à altura, tão maléfico à integridade da polícia quanto as drogas que, sem exceção, atingem os menores utilizados como “aviõezinhos”, pelos “senhores da coca”. À polícia não cabe tomar atitudes marginais, nem focar seu direcionamento na satisfação pura e simples da sociedade mais abastada. Falar que investir em educação é mais eficiente que investir armas em direção às favelas não passa de clichê aborrecido e sempre visitado, contudo, alguém duvida de que seja um dos clichês mais lúcidos?

Na coluna do grande Mauro Santayana de hoje, no Jornal do Brasil (02/07), caderno Coisas da Política:

Se quiséssemos encontrar o início da guerra que se trava hoje no Rio, deveríamos voltar a 1896 e 1897, e ao sertão da Bahia, no cerco e aniquilamento do Arraial de Canudos. Ali não houve vencedores, mesmo que o governo haja comemorado a destruição do estado messiânico de Antonio Conselheiro como uma vitória da República. Os principais combatentes - os soldados e pequenos oficiais das tropas expedicionárias, de um lado, e os milicianos do Beato, do outro - foram vítimas das oligarquias assentadas na velha injustiça que sobrevivera à monarquia.
Milhares dos soldados veteranos de Canudos se deslocaram para o Rio, sob a vaga promessa de empregos permanentes, e muitos acamparam, com suas famílias, no morro atrás do Palácio do Itamaraty, então sede do novo governo. Deram-lhe o nome de Favela, em referência ao outeiro diante de Canudos, onde se travou a batalha decisiva contra Antonio Conselheiro.

Penso que Santayana chegou ao ponto com muita dignidade. Olhar as favelas como um processo excludente ou apenas de aglutinação da massa é um equívoco. Tudo passa pelo descaso em algum momento e é conseqüência de várias causas ao mesmo tempo. A favela é um exemplo nítido da ponte que foi construída no Rio de Janeiro e na maioria das metrópoles. Como a classe alta nunca conseguiu conviver com o pobre, criou-se um muro quase intransponível entre o rico e o pobre (generalizações à parte). Uma ponte entre o sucesso e o fracasso. Você pode atravessá-la sempre que quiser (principalmente em época de eleição), co-agir com os membros da cada extremidade da ponte, mas no final, precisa voltar ao seu lugar, senão, a própria sociedade lhe coloca na cadeira que é devida. No “seu” extremo da ponte.

Talvez a polícia tenha agido de forma inteligente e talvez esta forma de repressão seja a única capaz de deter o tráfico do jeito em que ele se encontra (quase incontrolável e intocável), mas é sempre bom pensarmos sobre múltiplos ângulos, não podemos nos abster do assunto.

Educação salvará este país de um colapso, sim, mas isso será a longo prazo, hoje é preciso tomar medidas e talvez a ocupação tenha sido a mais acertada. Tenho minhas dúvidas, mas também não sei como fazer de outro jeito, portanto, não posso criticar por criticar.

Aliás, a questão que também merece um levantamento é: será que tais medidas continuam depois do Pan?

Sei não.