Ao me deparar com a notícia de que o último livro do bruxinho mais conhecido do século XXI, Harry Potter, causa frisson e pedidos intermináveis pela internet, vejo-me puramente agradecido à J.K. Rowling, autora da façanha, ao imortal (ABL) Paulo Coelho, Dan Brown e tantos outros escritores que fizeram o que parecia perdido: resgataram os livros do limbo pouco visitado e fadado à negação (como já decretou a Igreja Católica dirigindo-se aos africanos; não pelos livros, mas pelo limbo), dando luz à sua forma e despejando-os nos braços do povo outra vez, daqueles que, salvo raras circunstâncias, só se interessam (teoricamente) por aparelhos de televisão, video-game e internet.
Muitos críticos torcem o nariz até aparelhá-lo aos céus, preferem a morte a ter que admitir alguma contribuição destes escritores à literatura universal. Eu compactuo muito sobre a relevância de certos livros dentro da literatura. Acho Paulo Coelho um grande contador de estórias, mas péssimo escritor no que diz respeito ao corpo, à estrutura textual; Paulo é bom narrador, sabe prender o leitor, mas não faz a menor idéia de como acabar um romance ou como trabalhar melhor suas personagens, quase sempre superficiais. Mas desqualificá-lo enquanto literatura é ridículo. O nosso mago vende milhões de exemplares do seu trabalho, já fechou contrato com o cinema americano e divulga (sim!) nossa literatura brasileira em todas as dezenas de países por onde é editado e traduzido. Graças a ele, muitos escritores de “renome” e “consagrados pela crítica” sonham em um dia caírem no reconhecimento mundo afora. Sem falar que literatura, assim como a própria língua, é uma manifestação em movimento, portanto viva, que precisa andar na multidão, fazer sexo com o povo, levar beleza aos homens, e não ficar escondida, restrita aos acadêmicos e “críticos” literários.
Com relação aos livros de Dan Brown, principalmente o cinematografado “Código...”, além de vender horrores e dar um nó na cabeça dos críticos, Dan instigou muitas pessoas a viajarem, pesquisarem, buscarem a história, iniciando muitos no terreno não só da literatura, mas da história. Seu “Código...” abriu caminho para os loucos e intolerantes, sim, mas também abriu discussões, ressuscitou a teologia e colocou grandes acadêmicos no meio da multidão. O que é verdade ou ficção no livro é o que menos importa. O caminho do livro já é pura literatura. E isso, por si só, já é positivo.
J. K. Rowling está de parabéns. Sete livros bem amarrados, diz a crítica especializada, e bem escritos. Graças a ela, muitos conhecerão outros autores, melhores talvez, mas outros, isso é o que importa. Como ela pegou uma faixa etária interessante, a possibilidade desses jovens comprarem mais livros daqui pela frente é uma vitória da literatura, dos editores (que poderão contratar mais escritores) e nossa, amantes incondicionais dessa manifestação artística.
Viva as Clarices que existem no mundo, os Machados e Saramagos universais! E viva também os Coelhos e Browns da vida, responsáveis pelo movimento e, ainda, interesse pela literatura.